Por: Fernanda Mena (Folhapress)

Professores e alunos negros aumentam sucesso

Nas cadeiras das muitas salas de aula por onde passou como estudante, toda vez que o advogado e sociólogo José Vicente, 76, "virava para o lado e via um professor negro, ficava mais seguro e aliviado".

"Uma presença negra na sala de aula é encorajadora para um aluno negro. Dá mais segurança e estímulo. Fortalece o desejo e a disposição para estudar", explica o hoje reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

Como professor, diante de alunos negros e periféricos, Vicente viu o outro lado da moeda. "Eu me vi como uma peça importante na recepção desses alunos, que se sentiam representados e participantes. E o pertencimento e o acolhimento são potentes demais", conclui.

Num Brasil em que pessoas negras têm 53% menos chance de concluir o ensino superior e onde ganham 41% menos do que pessoas brancas, um novo estudo quantificou experiências como a de Vicente ao comprovar que a composição racial do corpo docente melhora o desempenho de alunos negros na educação e na remuneração profissional.

O estudo demonstrou que aumentar de 0% para 50% a presença de professores negros eleva também as chances de conclusão do ensino médio (em 1,9%), de ingresso no ensino superior (3,9%), de conclusão do ensino superior aos 25 anos (5,2%) e de aumento dos rendimentos do trabalho (2,3%), sem interferência no desempenho de alunos brancos.

Esse impacto é ainda mais importante entre aqueles alunos que tiveram pior desempenho no início da vida escolar e que são justamente aqueles que costumam ficar para trás e abandonar os estudos.

Ainda que esses percentuais pareçam modestos, o economista Pedro Lopes, doutor pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV) e autor do estudo, explica que eles representam uma redução bastante significativa na desigualdade racial entre alunos brancos e negros: de 30% no nível educacional e de 60% no rendimento do trabalho.

"Os resultados ilustram que os professores negros já têm importância na redução das desigualdades e que há potencial quando a composição racial do corpo docente é similar à da população", explica Lopes.

Para chegar a esta conclusão, Lopes utilizou múltiplas bases de dados vinculadas como Censo escolar, Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), ENEM, entre outros para acompanhar dois grupos, cada um com cerca de um milhão de estudantes de todo o país, ao longo de 12 anos, ou seja, da escola à faculdade e ao mercado de trabalho.