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Carney propõe 'próxima ordem mundial' no Parlamento Europeu

Carney propõe 'próxima ordem mundial' no Parlamento Europeu
Carney fez discurso dedicado à adesão do Canadá à União Europeia Crédito: World Economic Forum/ Michael Wuertenberg

"Não estou propondo um terceiro bloco com o objetivo de nos tornarmos uma grande potência rival, apenas com melhores modos. Não buscamos poder para dominar os outros. Pelo contrário, buscamos resiliência para que ninguém, absolutamente ninguém, possa controlar nossos mercados abertos, prejudicar nossa soberania, ameaçar nossa integridade territorial ou minar nossas liberdades, nossas democracias e nosso Estado de Direito". Assim como Ursula von der Leyen na véspera, Mark Carney não citou Donald Trump em discurso ao Parlamento Europeu. Recados ao presidente americano, no entanto, se empilharam durante a fala de pouco mais de 20 minutos do primeiro-ministro canadense, nesta quinta (17), em Estrasburgo. Horas antes, Trump havia reagido mal ao anúncio de que a União Europeia convidou o Canadá para se tornar um membro associado do bloco, um tipo de adesão inexistente até aqui.


Americano chama proposta de "ridícula"

Americano chama proposta de "ridícula"
Donald Trump chamou a proposta de Carney de "ridícula" Crédito: Daniel Torok/ Casa Branca

"Se eles fizerem isso, se eu achar que se trata de um ato hostil, vou impor tarifas muito pesadas ou interromper o comércio com a Europa em muitos setores", declarou o presidente na noite de quarta-feira. Trump também chamou a proposta de "ridícula".

Carney respondeu logo após deixar o púlpito do hemiciclo, como o Parlamento é chamado devido a seu formato. "Ninguém vai ditar nossa cultura nem com quem podemos firmar acordos internacionais."

Canadá poderia ser um parceiro "mais efetivo"

Em tom mais diplomático, afirmou que "um Canadá mais forte e resiliente seria um parceiro mais efetivo para os EUA". Os dois países estão comercialmente conflagrados desde agosto, com tarifas de 50% do lado americano e retaliação "dólar por dólar" do outro. Com cerca de 70% das exportações voltadas ao vizinho, o Canadá intensificou a procura por novos parceiros comerciais, pondo em prática o que Carney, no Fórum Econômico de Davos, no começo do ano, vaticinou como união das potências médias.

Recepção de celebridade para Carney

E foi além, descrevendo que, combinadas, as forças de Canadá e UE permitiriam a criação "da próxima ordem mundial". Uma ordem mais "justa, estável e próspera". Força e resiliência foram alguns dos termos que Carney repetiu em seu discurso inteiramente voltado à proposta de associação. Recebido com entusiasmo e pedidos de selfie por eurodeputados, o premiê começou desfiando pontos históricos entre os dois lados do Atlântico.

Primeira Guerra Mundial

Citou em alemão um trecho de Fausto, de Goethe ("Somente aquele que precisa conquistá-la diariamente merece a liberdade, assim como a vida"), para introduzir a batalha de Vimy Ridge, na 1ª Guerra Mundial, que virou um símbolo de unidade nacional para os canadenses. Em Pas-de-Calais, 248 acres da França foram cedidos ao Canadá para um memorial.

"Fantasma de Trump"

A reminiscência histórica serviu de base para falar das ameaças atuais. "Hoje, nossas sociedades estão sendo assoladas por novas tempestades: as perturbações causadas pela mudança climática, a erosão das normas democráticas, a instrumentalização do comércio. As organizações multilaterais com as quais costumávamos contar foram enfraquecidas."

Integração econômica

Carney, na sequência, foi ainda mais explícito. "Hoje, é difícil conciliar soberania e abertura. A integração econômica está sendo instrumentalizada, e as tarifas são utilizadas para exercer pressão. Mecanismos financeiros têm sido empregados para fins de coerção. As cadeias de abastecimento constituem pontos fracos a serem explorados."

Minerais críticos

Os minerais críticos também ganharam ênfase na fala do premiê. "Todos nós temos lacunas importantes nessas capacidades estratégicas, e cada um de nós precisa contar com nações ou empresas específicas para preenchê-las. Isso gera vulnerabilidades, especialmente quando empresas supostamente globais se revelam nacionais na hora da crise."

Preencher lacunas

Carney observou que não é possível preencher essas lacunas sozinho. "Mas, coletivamente, isso é perfeitamente viável. O Canadá e a Europa são fortes individualmente. A Europa e o Canadá são mais fortes juntos", disse, arrancando aplausos da plateia. Carney lembrou que até os mapas, de certa forma, confirmam a proximidade entre seu país e a UE.

União Canadá UE

"Canadá e Europa não estão ligados por laços geográficos, embora nossos amigos dinamarqueses saibam que compartilhamos uma fronteira de 3.000 quilômetros no Ártico. Estamos ligados por uma afinidade. Eleita, escolhida, renovada e, por isso mesmo, ainda mais forte", disse o premiê.

Por José Henrique Mariante (Folhapress)