A inteligência artificial inquieta tradutores mundo afora pela ameaça existencial que representa para a categoria. Na Europa, empresas de tecnologia como Fluent Planet e Nuanxed estão sendo empregadas por editoras como HarperCollins France e Veen Bosch & Keuning para realizar traduções automáticas de romances. Uma pesquisa realizada pela Society of Authors, no Reino Unido, apontou em janeiro do ano passado que mais de um terço dos tradutores havia perdido trabalho para a IA generativa.
No Brasil, o mercado ainda é conservador, mas traduções com IA sem autoria humana já figuram em obras de editoras comerciais como a Manole. Lenita Maria Rimoli Pisetta, professora de estudos da tradução na Universidade de São Paulo, considera contraproducente a postura de negação da tecnologia. Mas vê na IA "uma ferramenta, não fórmula mágica".
Se antes a tradução literária era descartada em pesquisas sobre tradutores automáticos, como o Google Translate, hoje, com o avanço dos modelos de linguagem de larga escala (LLM), ela está em foco. É esse o objeto de estudo de Natália Carolina Resende, professora do Trinity College, na Irlanda.
Segundo ela, a ferramenta é eficaz no processo de tradução porque serve à "automação do corpus de pesquisa", isto é, substitui a busca em dicionários ou glossários.
Apesar de otimista, Resende compartilha resultados que problematizam o uso da ferramenta. Sua pesquisa mostra que textos traduzidos por IA têm características distintas das traduções humanas, como o uso de vocabulário limitado, frases longas e muitos adjetivos, marcas que fazem com que leitores prefiram o texto humano.
Outro aspecto negativo está no efeito que a IA tem sobre o tradutor. Ao receber a solução da máquina, ele acaba não conseguindo pensar em alternativas. "É o que a psicologia chama de 'priming': o comportamento linguístico é influenciado por um estímulo anterior", um processo que mina o potencial crítico do profissional.
Alison Entrekin, australiana que trabalhou por mais de dez anos em uma versão em inglês de "Grande Sertão: Veredas" a sair em breve, critica esse tipo de uso. "Quem terceiriza a primeira etapa da tradução deixa de exercitar essa parte do cérebro. A tendência é perdermos a habilidade de percepção. Se passo menos tempo com o texto, tenho menos compreensão."
O consenso entre tradutores é que a máquina não tem como substituir o humano. Nos termos de Lisboa, "ela não pode simular a experiência vivida da linguagem e da leitura literária, nem a inserção do tradutor no tempo e na cultura como um sujeito histórico".
"A tradução é um trabalho baseado na artesania" define a poeta e tradutora Prisca Agustoni.