Imagine se 42 milhões de brasileiros, o equivalente à população de quatro cidades de São Paulo, fossem forçados a fugir de suas casas e tivessem que viver em abrigos, barracas na rua, casas de parentes e dentro de carros, tudo isso no período de menos de um mês? Foi o que aconteceu no Líbano, onde 20% da população foi obrigada a fugir desde que Israel começou a bombardear o país no início de março. E essa migração forçada em massa está ocorrendo em um país com um território 810 vezes menor que o Brasil e densidade populacional 25 vezes maior.
As forças israelenses passaram a bombardear massivamente o Líbano depois que o Hezbollah, milícia aliada do Irã, começou a lançar foguetes no norte de Israel, em reação à guerra americana e israelense contra o regime iraniano.
Grande parte dos mais de 1 milhão de deslocados fugiu do sul do Líbano, maior alvo dos bombardeios israelenses, e foi se refugiar em Beirute, ainda que a capacidade dos abrigos oficiais da cidade seja de apenas 130 mil pessoas. A capital do Líbano transformou-se em uma cidade de trânsito ainda mais caótico, com quedas de energia e problemas de abastecimento.
Pior -nem em Beirute esses refugiados estão seguros. Israel está bombardeando majoritariamente o sul da cidade, onde se concentram o grupo Hezbollah e a população xiita. Os ataques, no entanto, se espalham por toda a metrópole. Duas semanas atrás, um bombardeio israelense matou oito deslocados que se abrigavam em barracas na região da orla de Ramlet al-Baida.
"O Líbano está diante de uma catástrofe humanitária", alertou o Acnur, a agência da ONU para refugiados, na sexta-feira (27).
Para as centenas de milhares de libaneses que tiveram suas casas no sul do Líbano bombardeadas, seus parentes mortos ou simplesmente obedeceram a ordens de evacuação de Israel, não há perspectiva de volta a uma vida normal no curto prazo.
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que pretende manter a ocupação militar no sul do país para ter uma "zona de amortecimento" e defesa —e disse que os libaneses não poderão voltar até que os israelenses estejam seguros. Um dia antes, o ministro das Finanças israelense, o extremista Bezalel Smotrich, afirmou que Israel deveria exercer "soberania" sobre áreas no sul do Líbano, sinalizando uma ocupação de longo prazo.
Forças israelenses bombardearam pontes sobre o rio Litani, no sul do Líbano, o que impossibilita a volta dos deslocados no curto prazo e dificulta o acesso a ajuda humanitária para aqueles que não quiseram ou não puderam deixar suas casas. Para além dos 1.260 mortos e 3.750 feridos nos ataques israelenses, há ainda uma crise de saúde mental.
Muitos dos deslocados atendidos pelos Médicos Sem Fronteiras estão com ansiedade e depressão.