Chefe da segurança pública na Bolívia, Marco Antonio Oviedo afirma que a nação convive com o "grave problema" de ser retaguarda para narcotraficantes do Brasil.
"Muitos desses delinquentes fazem do país um santuário, um acampamento, e estamos começando a expulsá-los", diz à reportagem. "Eles têm documentos falsos e tudo", segue o ministro, sobre os criminosos que pertencem a grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Oviedo menciona o esquema para argumentar sobre a importância da colaboração entre as agências de segurança bolivianas e brasileiras. Durante visita do presidente boliviano, Rodrigo Paz, ao Brasil nesta semana, os dois países assinaram um acordo para fortalecer ações de cooperação e coordenação contra o crime organizado transnacional.
Questionado sobre a possibilidade de a Bolívia declarar o PCC e o CV organizações terroristas, diz que esse plano não está colocado. Pondera, no entanto: "O crime de tráfico de entorpecentes não vem sozinho, mas acompanhado de outros crimes, entre eles o terrorismo. O Equador é o exemplo mais claro."
"E o Brasil?", pergunta a reportagem.
"O caso do Brasil também. Mas, no do Equador, fica ainda mais claro: era um país que, há 20 anos, não tinha plantações de coca [base da cocaína], nem narcotráfico, era um país tranquilo. Então chega o narcotráfico e começa o terrorismo, o assassinato de candidatos à eleição…".
Oviedo tem sido um dos principais artífices do retorno da DEA, a agência antidrogas dos EUA, à Bolívia. A agência tem nove escritórios hoje na América do Sul (três no Brasil), nenhum deles na Bolívia.
Há 17 anos, Evo Morales, o primeiro líder indígena do país e hoje alvo de acusações criminais, expulsou a agência da Bolívia e o embaixador dos EUA. Desde então nenhum outro embaixador americano foi enviado ao país, e as relações comerciais sempre foram lideradas por encarregados de negócios —na linguagem diplomática, um evidente sinal de rusgas.
É tudo que o governo de Rodrigo Paz, que assumiu em novembro passado rompendo duas décadas de governo de esquerda no país, quer mudar. Oviedo diz que o país quer ampliar a cooperação bilateral com várias agências de inteligência, do Brasil inclusive. "Em particular, com a DEA, temos boa relação e queremos mais", afirma.
Sobre a possibilidade da instalação de escritórios da agência americana em território boliviano, diz que cabe a Washington dizer como quer que a DEA esteja presente ali. "Da nossa parte, vamos facilitar o trabalho deles".