O Irã fez sua primeira oferta pública de concessão nas negociações que trava com os Estados Unidos para tenta fechar um acordo sobre seu programa nuclear, sugerindo diluir seu estoque de urânio enriquecido para evitar seu uso militar.
A ideia foi levantada pelo chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Mohammad Eslami, em conversa com jornalistas em Teerã nesta segunda-feira (9).
Segundo a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), o país persa tem cerca de 400 kg enriquecidos a 60%, índice que permite a fabricação de armamentos nucleares de baixo rendimento - para as bombas, usualmente é empregado o elemento a 80% ou mais.
Segundo Eslami, o Irã poderia fazer isso caso os EUA acabassem com as sanções que aplicam sobre o país. É algo que parece difícil para o governo de Donald Trump, que mobilizou diversos recursos para um cerco militar à teocracia nas últimas semanas, aceitar.
Em 2018, em seu primeiro mandato, Trump deixou o acordo nuclear que previa apenas fins pacíficos e verificação constante das instalações iranianas em troca do fim de sanções porque considerava que Teerã estava enganando a todos.
Se estava, é incerto, mas desde que o arranjo desandou, os aiatolás passaram a desrespeitar seus termos, levando ao que a AIEA chamou de ultrapassagem de todas as linhas vermelhas. Israel, maior rival regional do Irã e dono de 90 ogivas nucleares, estima que haja material para até 15 bombas menos potentes.
No ano passado, o Estado judeu travou uma guerra de 12 dias com os iranianos, e Trump interveio para chegar a um cessar-fogo, bombardeando instalações nucleares em junho. Agora, ameaça fazer mais, aproveitando o momento de instabilidade no adversário, que reprimiu brutalmente em janeiro as maiores manifestações contra o regime islâmico instalado em 1979.
Trump quer o fim de todo o programa nuclear do Irã, o que seus negociadores não aceitam. Israel vai além, e pede também o desmantelamento de suas capacidade de lançar mísseis balísticos, que causaram muitos estragos no ano passado e, apesar do mau desempenho de Teerã na guerra, seguem vistas como uma ameaça.
Na sexta (6), houve a primeira rodada de negociações indiretas entre EUA e Irã desde a guerra. Realizadas em Omã, elas foram qualificadas como difíceis por Eslami. Ele afirmou que a relação entre ambos os lados é marcada por "falta de confiança mútua". Ao mesmo tempo, buscou apresentar seu país como aberto ao diálogo. Lembrou que as instalações que não foram bombardeadas pelos EUA em 2025 foram inspecionadas pela AIEA depois do conflito. O diretor do órgão da ONU, o argentino Rafael Grossi, se queixa contudo da falta de acesso total.