Milhares de pessoas se reuniram em toda a Austrália nesta segunda-feira (9) para protestar contra a visita do presidente de Israel, Isaac Herzog, que foi ao país para expressar solidariedade à comunidade judaica local após um ataque a tiros no ano passado.
O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, convidou Herzog para a viagem na sequência do incidente de 14 de dezembro, quando um atirador matou 15 pessoas em um evento judaico na praia de Bondi, em Sydney.
A visita, porém, causou indignação em manifestantes, que acusam o presidente israelense de ser cúmplice da destruição da Faixa de Gaza - no final de janeiro, Tel Aviv admitiu que 25 mil civis palestinos foram mortos em bombardeios durante a guerra de dois anos.
Grupos pró-Palestina organizaram protestos em cidades de todo o país na noite de segunda. Em Melbourne, um protesto no centro da cidade pedia o fim da ocupação israelense dos territórios palestinos. Já em Sydney, milhares de pessoas se reuniram em uma praça no centro comercial da cidade.
"O massacre na praia de Bondi foi terrível, mas da nossa liderança australiana não houve nenhum reconhecimento do povo palestino", disse Jackson Elliott, um manifestante de 30 anos. "Herzog se esquivou de todas as perguntas sobre a ocupação e diz que esta visita é sobre as relações entre Austrália e Israel, mas ele é cúmplice."
Havia uma forte presença policial, com um helicóptero circulando e agentes patrulhando a cavalo - autoridades locais declararam a visita de Herzog um evento de grande porte e foram autorizadas a usar poderes raramente invocados, incluindo a capacidade de separar e mover multidões, restringir a entrada em certas áreas e revistar veículos.
Em Sydney, a polícia reprimiu os manifestantes e usou a força até mesmo contra alguns membros da imprensa, segundo a agência de notícias AFP, que contou pelo menos 15 ativistas presos. Durante o confronto, grupos de pessoas tentaram romper linhas de segurança e avançar, e a polícia usou spray de pimenta e gás lacrimogêneo.
A mais de um quilômetro dos protestos, milhares de membros da comunidade judaica, autoridades governamentais e políticos de partidos de oposição receberam Herzog em um evento em homenagem às vítimas do ataque de Bondi.
"Todos nós lembramos dos boicotes, das ameaças, dos colegas que viraram as costas para seus amigos judeus (...) isso foi o prelúdio de Bondi", disse ele a uma grande multidão no Centro de Convenções Internacional de Sydney, segundo reportagem da emissora americana ABC News.
A visita de quatro dias começou mais cedo, com uma cerimônia na praia de Bondi, uma das mais famosas do mundo. Foi ali que, em dezembro, Sajid Akram, um homem de 50 anos de nacionalidade indiana, e seu filho Naveed, um australiano de 24 anos, abriram fogo durante uma comemoração do Hanukkah, uma festividade judaica, que reunia mais de mil pessoas.
Akram foi desarmado pelo refugiado sírio Ahmed al-Ahmed e morto a tiros pela polícia. Seu filho permanece detido, acusado de terrorismo e 15 homicídios.
Herzog depositou uma coroa de flores em um memorial às vítimas do ataque no local. Ele também se encontrou com sobreviventes e familiares das vítimas.
"Este também foi um ataque a todos os australianos. Eles atacaram os valores que nossas democracias prezam: a santidade da vida humana, a liberdade religiosa, a tolerância, a dignidade e o respeito", disse Herzog. "Os laços entre pessoas de bem de todas as crenças e nações permanecerão fortes diante do terror, da violência e do ódio."
O político ainda celebrou o que considera "passos positivos" tomados pelo governo australiano para combater o antissemitismo após o ataque, com leis mais severas contra a posse de armas e o discurso de ódio.
A presença de Herzog dividiu a comunidade judaica no país. Em um comunicado, o codiretor executivo do Conselho Executivo dos Judeus Australianos, Alex Ryvchin, disse que a visita de Herzog "elevará o ânimo de uma comunidade enlutada".
Já o Conselho Judaico da Austrália, um crítico vocal do governo israelense, divulgou uma carta aberta assinada por mais de 1.000 acadêmicos e líderes comunitários judeus pedindo a Albanese que revogasse o convite a Herzog e afirmando que o líder não era bem-vindo devido à "destruição contínua de Gaza".