Por Victor Lacombe (Folhapress)
Pela primeira vez, as Forças Armadas de Israel reconheceram na quinta (29) que pelo menos 70 mil palestinos foram mortos durante a guerra na Faixa de Gaza, reconhecendo que o número do Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas, está correto. O órgão palestino diz que 71.667 pessoas foram mortas durante os dois anos da guerra, que começou com o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023 e terminou com o cessar-fogo acordado em outubro do ano passado.
Até aqui, as Forças Armadas israelenses, apesar de questionar o dado do Ministério da Saúde, não haviam oferecido uma estimativa própria - a não ser quando disseram ter matado 22 mil terroristas do Hamas em Gaza entre 2023 e 2025.
Entidades internacionais como a ONU sempre disseram que, em geral, os números do Ministério eram confiáveis. Se estiverem corretos, isso significa que cerca de 3,5% da população do território palestino, que tem 2 milhões de habitantes, foi morta no conflito. Estudos independentes, entretanto, apontam que os dados do Ministério podem na verdade subestimar o real número de mortos em Gaza.
Em julho de 2025, quando a contagem oficial do Hamas era de 45 mil mortos, um estudo da Universidade de Londres estimou que o número verdadeiro era 65% maior, contabilizando 75 mil óbitos. Destes, 56% seriam mulheres, crianças ou idosos. O estudo apontou ainda cerca de 8 mil mortes não violentas a mais do que seria o esperado, indicando possíveis mortes por falta de tratamento médico adequado, remédios ou fome.
O governo Binyamin Netanyahu questionou a confiabilidade dos números do órgão ao longo de todo o conflito. Chamando a conta de "errônea", a diplomacia de Tel Aviv atacou por diversas vezes veículos de mídia que se baseavam na contagem do Ministério para reportar o número de mortos na guerra.
No anúncio desta quinta, as Forças Armadas israelenses não recuam da afirmação de que os dados do Ministério da Saúde têm problemas - eles não fazem distinção, por exemplo, entre combatentes e civis. Israel também nega que pelo menos 400 palestinos tenham morrido de fome, como afirma o órgão controlado pelo Hamas.
Em agosto de 2025, a ONU disse que 500 mil pessoas no território estavam em situação catastrófica de desnutrição.
Os militares israelenses dizem ainda que muitas das mortes não podem ser atribuídas diretamente a bombardeios contra terroristas. Ao mesmo tempo, autoridades de Israel ouvidas pela imprensa do país dizem que a taxa estimada da morte de civis é de dois a três para cada combatente morto.
Esses números fizeram com que a Anistia Internacional acusasse Israel de cometer genocídio em Gaza.