Por:

Portugal faz operação contra neonazistas

Por João Gabriel de Lima (Folhapress)

A Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária de Portugal desencadeou, na terça (20), uma das maiores ações contra grupos neonazistas já realizadas no país. Batizada de Operação Irmandade, a ação prendeu 37 pessoas até a publicação da reportagem. As investigações começaram no início de 2024 e devem prosseguir por mais alguns meses.

Todos os detidos pertencem ao grupo ultranacionalista 1143 -o número remete ao ano de fundação de Portugal. Seu líder, Mário Machado, o neonazista mais notório do país, está detido numa prisão de Lisboa desde maio de 2025, por incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda. Ele ainda comande o 1143 de dentro da prisão -o que pode agravar sua pena de 2 anos e 10 meses.

Em seu comunicado sobre a Operação Irmandade, a Polícia Judiciária portuguesa afirmou que os detidos "adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e à extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias e etnias, designadamente imigrantes". Durante as prisões foram apreendidas armas e material de propaganda.

Desde quarta (21) os detidos estão sendo submetidos a interrogatório.

As investigações sobre neonazismo em Portugal se intensificaram por pressão da União Europeia. Divulgado em junho passado, um relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (Ecri) registrou "um aumento acentuado do discurso de ódio [em Portugal], que visa, sobretudo, os migrantes, os ciganos, a comunidade LGBTQIA e as pessoas negras". De acordo com o relatório, as queixas judiciais contra os crimes de ódio em Portugal quintuplicaram de 2019 para 2024.

Em suas redes sociais, o neonazista Bruno Silva se diz um apoiador do partido político Chega -cujo líder, André Ventura, é candidato à Presidência de Portugal. Em novembro passado, o vice-presidente da sigla, Pedro Frazão, enviou um vídeo para o congresso do grupo Reconquista, que defende o mesmo ideário do 1143 e também tem integrantes presos por crimes de ódio.

No vídeo, Frazão defendeu uma das causas caras aos extremistas portugueses, a "remigração" -deportação forçada de imigrantes mesmo que estejam com os documentos em dia. "É a única política capaz de restaurar a ordem, a segurança e a esperança no nosso país", disse o deputado do Chega na gravação exibida no congresso. O partido mantém uma relação dúbia com os grupos extremistas. André Ventura já criticou Mário Machado, líder do 1143. "Não tem o perfil que se enquadra no Chega. Tenho freado esse tipo de pessoas que fazem a apologia da violência", disse em entrevista dada há cinco anos ao semanário Sol.