Por: Jorge Vasconcellos

Em 1 ano, Trump faz história como artífice da desordem mundial

Imagem gerada por IA, o líder americano aparece conversando com líderes europeus no Salão Oval, com um mapa do Hemisfério Ocidental gerado por IA ao fundo | Foto: Truth Social

Em 20 de janeiro de 2025, um novo e desafiador capítulo da história começou a ser escrito com a posse de Donald Trump para um segundo mandato como presidente dos Estados Unidos – o primeiro foi entre 2017 e 2020.

Ao longo dos últimos doze meses, empunhando o mote ‘America First’ (‘América Primeiro’), o republicano adotou uma série de medidas que fizeram renascer, em todo o mundo, o medo da repetição dos episódios mais traumáticos da trajetória da humanidade.

O primeiro aniversário da posse de Trump coincide com a escalada de sua ameaça de anexar a Groenlândia – uma ilha autônoma do Reino da Dinamarca – aos Estados Unidos, no ápice de uma política expansionista e à semelhança de disputas que motivaram os maiores conflitos armados da história.

Trump insiste no argumento de que a Groenlândia é imprescindível para a defesa dos EUA contra a Rússia e a China, alimentando incertezas sobre o futuro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O Artigo 5º do Tratado da aliança militar prevê que, quando um de seus integrantes é agredido, os demais parceiros devem defendê-lo.

As tensões aumentaram depois que oito países da aliança militar enviaram tropas para proteger a Groenlândia – Dinamarca, Alemanha, França, Noruega, Suécia, Reino Unido, Holanda (Países Baixos) e Finlândia. Em resposta, Trump ameaça impor um novo tarifaço a esses países.

Antes da disputa envolvendo a Groenlândia, outras medidas adotadas pelo atual inquilino da Casa Branca também contribuíram para minar ordem firmada ao tempo da Segunda Guerra Mundial com os acordos de Bretton Woods - uma ordem que, apesar de constituir a hegemonia norte-americana nas relações internacionais, era relativamente baseada em institutos multilaterais.

Dentre essas medidas, destacam-se a guerra tarifária contra dezenas de economias, incluindo a do Brasil; ações militares contra diversos países à revelia do Congresso, além de interferência em assuntos internos de nações soberanas, baseada na Estratégia de Segurança Nacional de 2025, o chamado "Corolário Trump" (apelidado pelo presidente de "Doutrina Donroe").

O argumento de que os EUA têm o direito de intervir em outros países para garantir a estabilidade e impedir a influência de potências como China e Rússia faz da América Latina, chamada de "nosso quintal" pelo secretário da Guerra Pete Hegseth, um alvo preferencial, como demonstrado no ataque militar à Venezuela que resultou no sequestro do então presidente Nicolás Maduro – atualmente preso nos Estados Unidos – e na tomada do controle do petróleo do país sul-americano.

No âmbito doméstico, o país que sempre ostentou o título de ‘maior democracia do mundo’ também enfrenta os retrocessos da administração Trump, nos mais diferentes níveis.

O envio de tropas federais para estados governados por democratas, com o argumento de garantir a segurança, tornou-se uma arma política.

A perseguição, prisão e deportações em massa de imigrantes indocumentados, apontados pela Casa Branca como criminosos, têm inspirado comparações entre o ICE, a polícia de imigração dos EUA, com a Gestapo - polícia secreta da Alemanha Nazista que se tornou uma ferramenta crucial do terror e perseguição, responsável por prender opositores, judeus e outros grupos considerados inimigos do regime. A recente morte a tiros de uma cidadã americana gerou revolta e protestos, além de estimular a formação de milícias em um país dividido e em ebulição.

'Barca que tende a afundar'

O Correio conversou com especialistas e perguntou qual o papel de Donald Trump neste momento dramático da história mundial.

“Como historiador, eu esclareço: isso depende de quem detém a pena e o dinheiro na escrita da história, e eu vou responder como historiador de perspectiva crítica. Trump entra para a história como artífice da desordem mundial, do desarranjo da ordem firmada ao tempo da Segunda Guerra Mundial com os acordos de Bretton Woods”, disse Rodrigo Medina, chefe do Departamento de Relações Internacionais e professor de História das Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Para Medina, “Donald Trump é o timoneiro, digamos assim, de uma barca que tende a afundar”.

“Ele é o condutor de uma hegemonia em crise. Em que pese o fato de não ter havido perda de poderio militar e de poder econômico norte-americano, não há no sistema internacional reconhecimento quanto habilidades de liderança intelectual-moral do poder hegemônico. Trump domina, mas não lidera. Isso faz muita diferença”, avalia o docente.

“Portanto, ele está à frente de uma nova era de intervenções norte-americanas no sistema internacional. Muito assemelhada ao corolário Roosevelt da doutrina Monroe, a política do big stick, que consiste na síntese ‘fale brando enquanto carrega um porrete’”, pontua Medina, acrescentando que o presidente tenta recuperar a política da dissuasão que vigorou, por exemplo, no tempo da guerra fria.

“É uma própria disputa pela posição hegemônica que os Estados Unidos já não mais detém porque, repito, não exerce liderança sob o sistema”, sublinha o professor.

Ana Beatriz Zanuni, internacionalista e especialista em Comércio Internacional na BMJ Consultores Associados, afirma que os anos de Donald Trump no poder, incluindo o primeiro mandato, já resultaram em importantes marcos históricos, tanto na política norte-americana quanto no cenário internacional.

“Ainda assim, o ritmo adotado em 2025 demonstra como os próximos três anos de governo poderão influenciar a imagem futura de Trump e concretizar seus resultados”, avalia Ana Beatriz.

Na política comercial, segundo ela, a abordagem protecionista e as tarifas impostas por Washington surtiram efeitos na postura de outros países.

“Ao contrário de certas expectativas, a estratégia norte-americana não tem sido replicada. Frente à instabilidade na parceria comercial com os EUA, governos buscam a diversificação de mercados e a menor dependência de um único parceiro, o que pode gerar mudanças nos fluxos de comércio no médio e longo prazo. A União Europeia e o MERCOSUL ilustram um importante exemplo com a assinatura do acordo de livre comércio no último final de semana”, pontua a internacionalista.

Já para o próprio país, acrescenta Ana Beatriz, a participação de Trump no comércio será especialmente marcada pelo resultado das políticas implementadas em seu segundo mandato — que é um desdobramento da ‘Guerra Fria 2.0’ e das tarifas contra a China no primeiro.

“A expectativa do governo é que a política comercial resulte na reindustrialização e no crescimento das exportações norte-americanas, possibilitando maior dominância e independência produtiva. Contudo, incertezas na continuidade das políticas — que enfrentam questionamentos no Judiciário e no Legislativo — ainda têm prejudicado novos investimentos na indústria”, sublinha.

“Com isso, a possibilidade de o período ser notado como um momento de perda de confiança comercial nos EUA ainda deve ser tratada com atenção pela gestão republicana em suas negociações”, afirma a especialista.

Ana Beatriz destaca também que, em relação à América do Sul, a interferência dos EUA busca conter a presença chinesa na região, marcada por grandes investimentos e crescente participação comercial e econômica.

“O recém-publicado Plano Estratégico do Departamento de Estado americano consolida essa abordagem como um de seus principais objetivos. Garantindo cada vez mais aliados, como o argentino Milei e o chileno Kast, o crescimento da influência na região é estrategicamente relevante para Trump — reforçando sua percepção de polarização e ‘Guerra Fria’ contra a China”, afirmou a internacionalista.