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Não sou obrigado a pensar apenas na paz, diz Trump a premiê da Noruega

Por Isabella Menon (Folhapress)

O presidente Donald Trump vinculou o fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz -vencido neste ano pela venezuelana María Corina Machado- à tentativa de anexar a Groenlândia, em mensagem ao primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Store.

"Considerando que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz... Eu não me sinto mais na obrigação de pensar apenas na Paz, embora ela sempre será predominante, mas posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América", escreveu Trump, que adicionou: "O Mundo não está seguro a não ser que tenhamos Controle Total e Completo da Groenlândia".

Store confirmou, na manhã desta segunda, a mensagem, relatada primeiramente pela rede PBS News. Ele afirmou que recebeu o texto de Trump após enviar mensagem ao presidente americano protestando contra o anúncio de que Washington imporiam tarifas na Noruega e outros países europeus por enviarem tropas à Groenlândia.

O comitê responsável pela premiação é norueguês e, segundo Oslo, independente. Autoridades militares da Noruega afirmaram que o país vive seu pior cenário de segurança desde a Segunda Guerra Mundial e anunciaram que proprietários de imóveis e embarcações podem ter seus bens requisitados, caso o país entre em guerra.

Na mensagem a Store, Trump questionou a posse da Groenlândia pela Dinamarca e afirmou que a Otan, aliança militar ocidental liderada por Washington e fundamental para a estratégia de política externa americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial, deveria fazer mais pelos EUA.

"A Dinamarca não pode proteger aquela terra da Rússia e da China, e em todo caso, por que eles têm o 'direito de posse? Não há documentos escritos, é só que um barco aportou lá há séculos, mas nós também tivemos barcos lá", escreveu Trump.

"Eu fiz mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde sua fundação, e agora, a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos", afirmou o presidente americano.

A mensagem é mais um passo da escalada, até o momento retórica, de Trump contra os principais aliados dos EUA.

Após um período em que a Europa tentou aplacar o ímpeto agressivo do americano, que em seu primeiro ano de mandato aplicou tarifas comerciais tanto a rivais quanto a aliados, líderes do continente agora se deparam com ameaças existenciais com o potencial de dinamitar a aliança que balizou a história política e militar do Ocidente depois da Segunda Guerra Mundial.

Neste domingo (18), europeus saíram em defesa da Groenlândia ao anunciar envio de tropas ao território dinamarquês em declaração assinada por oito países: além da própria Dinamarca, subscrevem o documento Finlândia, França, Alemanha, Holanda, Noruega, Suécia e Reino Unido.

"Como membros da Otan, estamos comprometidos em fortalecer a segurança no Ártico como um interesse transatlântico compartilhado", diz a declaração. "Ameaças tarifárias minam as relações transatlânticas e correm o risco de provocar uma perigosa espiral descendente", afirma ainda o texto, em referência à nova ameaça de Trump de impor tarifas a aliados que se opõem à proposta de anexação da Groenlândia pelos EUA.

Mais cedo nesta segunda, Trump havia afirmado em mensagem nas redes sociais que a Dinamarca não foi capaz de "afastar a ameaça russa da Groenlândia". A declaração foi publicada em sua rede Truth Social. No post, o líder cita a Otan e afirma que "agora é a hora" para uma ação ser feita.

"A Otan tem dito à Dinamarca, por 20 anos, que 'vocês precisam afastar a ameaça russa da Groenlândia.' Infelizmente, a Dinamarca não conseguiu fazer nada a respeito. Agora é hora, e isso será feito!!!", afirmou na publicação.

Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro do ano passado, Trump reiterou em várias ocasiões sua ambição de tomar o controle da Groenlândia, hoje território autônomo dinamarquês. Ele disse que conseguiria isto "de uma maneira ou de outra" para fazer contraposição à Rússia e à China no Ártico.

Tarifas de baixo impacto

As novas tarifas anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, aos países europeus contrários à anexação da Groenlândia devem ter um impacto baixo no PIB. De acordo com o banco Goldman Sachs, as tarifas anunciadas poderiam reduzir, em média, de 0,1% a 0,2% o PIB real desses países.

Entre os países afetados estão Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia. Trump afirmou que será cobrada uma tarifa de 10% sobre importações desses países a partir de 1º de fevereiro, aumentando para 25% caso não seja alcançado "um acordo para a compra completa e total da Groenlândia".

As exportações dos países afetados para os EUA somam cerca de 270 bilhões de euros (R$ 1,62 trilhões) por ano, o equivalente a aproximadamente metade das exportações totais da União Europeia para o país.

Se a tarifa de 10% for aplicada de forma geral a todos os produtos exportados, o impacto seria de 3% a 3,5% do PIB em países como Alemanha, Holanda e Finlândia, e de 1,5% a 2% do PIB caso seja aplicada apenas aos produtos atualmente sujeitos a tarifas reciprocas dos EUA.

Para a zona do euro como um todo, a expectativa é de uma redução no PIB seria de 1% a 1,5%, enquanto para o Reino Unido a estimativa é de 1% a 2%.

No caso do Reino Unido, o relatório indica que o país provavelmente optaria por uma abordagem diplomática, evitando medidas de retaliação imediata e buscando negociações diretas com a administração americana.

O relatório do Goldman Sachs ressalta que, embora o efeito direto sobre a inflação seja pequeno, a medida poderia gerar uma série de retaliações da União Europeia.

Entre elas estão o atraso na implementação do acordo comercial da UE com os EUA, a imposição de tarifas de retaliação sobre produtos americanos e a ativação do chamado Instrumento Anti-Coerção, que permite medidas econômicas mais amplas, como restrições de investimento e taxação de serviços norte-americanos.

Essas retaliações, de acordo com a imprensa internacional, já estão sendo analisadas. De acordo com a Bloomberg, legisladores da União Europeia estão prestes a suspender a aprovação do acordo comercial da UE.

Ainda segundo a publicação,Manfred Weber, presidente do Partido Popular Europeu, o maior grupo político do Parlamento Europeu, afirmou neste sábado (17) que um acordo com os EUA já não é possível.

O acordo comercial, firmado no ano passado, estabeleceu uma tarifa americana de 15% para a maioria dos produtos da UE em troca da promessa da UE de eliminar as tarifas sobre produtos industriais americanos e alguns produtos agrícolas. O acordo foi fechado na esperança de evitar uma guerra comercial declarada com Trump e já foi parcialmente implementado, mas ainda precisa da aprovação do Parlamento.

Outra medida de retaliação prevista é a imposição de tarifas de até 93 bilhões de euros (cerca de R$ 580 bilhões) sobre produtos dos EUA ou restrições a empresas americanas no mercado europeu, segundo o Financial Times. As ações estão sendo elaboradas para dar aos líderes europeus maior poder de negociação durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, que acontece nesta semana.