Relações diplomáticas

Argentina descarta retaliação após crise diplomática com Brasil

Governo de Javier Milei afirma que não responderá ao rebaixamento das relações diplomáticas e critica decisão do Itamaraty após escalada de tensão entre os países

Argentina descarta retaliação após crise diplomática com Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e Reprodução/YouTube

O governo da Argentina afirmou nesta quarta-feira (5) que não adotará medidas de retaliação após a decisão do Brasil de reduzir o nível das relações diplomáticas entre os dois países. A declaração foi feita pelo ministro das Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, durante entrevista coletiva, um dia após Buenos Aires criticar oficialmente a postura do governo brasileiro.

A manifestação ocorre em meio ao agravamento da crise diplomática entre os dois países, iniciada após declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na terça-feira (4), o Itamaraty anunciou que o embaixador brasileiro em Buenos Aires permanecerá no Brasil enquanto Milei mantiver ataques ao governo e ao presidente brasileiro. A medida representa um rebaixamento das relações diplomáticas, embora não rompa oficialmente os laços entre os países.

Governo argentino critica decisão do Itamaraty

Em nota oficial, a chancelaria argentina classificou a decisão brasileira como uma iniciativa unilateral motivada por "questões puramente ideológicas". O governo de Javier Milei também informou que o Itamaraty solicitou o retorno do embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi.

Diplomatas brasileiros, no entanto, destacaram que a medida não configura expulsão do representante argentino, mas faz parte do novo nível de relacionamento diplomático estabelecido entre os governos.

Ainda no comunicado, Buenos Aires afirmou que as relações entre Estados devem ser conduzidas com base em interesses permanentes das nações e não subordinadas às circunstâncias políticas dos governantes.

A chancelaria argentina também argumentou que divergências políticas entre autoridades dos dois países já ocorreram em outras ocasiões, mas, segundo o governo, nunca haviam sido transformadas em incidentes diplomáticos dessa natureza.

Declarações de Milei ampliaram tensão

A atual crise teve início após a participação de Javier Milei na convenção nacional do PL, realizada em São Paulo no dia 25 de julho, quando o presidente argentino participou da oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Durante o evento, Milei fez duras críticas ao presidente Lula, chamando-o de "presidiário". Nos dias seguintes, voltou a elevar o tom ao afirmar, em entrevistas concedidas à imprensa argentina, que o Brasil lideraria uma suposta campanha contra a Argentina e teria interferido nas eleições presidenciais argentinas de 2023 em favor do então candidato Sergio Massa.

No último domingo (2), em nova entrevista, Milei voltou a atacar Lula, chamando-o de "ladrão" e "corrupto". O presidente argentino também questionou as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que anularam as condenações do petista relacionadas à Operação Lava Jato.

Ao comentar a reação do governo brasileiro, Milei afirmou que não considera suas declarações ofensivas e classificou as falas como "palavras espontâneas".

Itamaraty reagiu aos ataques

Após as primeiras declarações de Milei, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador argentino em Brasília para manifestar o descontentamento do governo brasileiro e, simultaneamente, chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires para consultas.

Na ocasião, o Itamaraty classificou o episódio como "sem precedentes". O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a situação era grave, mas indicou inicialmente que não seriam adotadas medidas mais severas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou comentar os primeiros ataques, mas posteriormente endureceu o discurso. Em evento político, classificou como uma "patacoada" a participação de Milei na convenção do PL e afirmou que não aceitará interferências externas na política brasileira.

Apesar do aumento da tensão diplomática, o anúncio do governo argentino de que não pretende retaliar o Brasil sinaliza uma tentativa de evitar um agravamento ainda maior da crise entre os dois principais parceiros do Mercosul.