Por: Jorge Vasconcellos

Candidato de Milei às eleições argentinas é investigado por suspeita de ligação com narcotráfico

O deputado José Luis Espert e o presidente Javier Milei | Foto: Reprodução

Após as recentes denúncias de corrupção envolvendo Karina Milei, irmã do presidente argentino Javier Milei, um novo escândalo abala as estruturas da Casa Rosada. A menos de um mês das eleições legislativas, uma investigação realizada nos Estados Unidos aponta ligações do economista e deputado José Luis Espert - principal candidato do presidente e de seu partido A Liberdade Avança - com operações de narcotráfico e lavagem de dinheiro.

Apesar de o deputado descartar as acusações e falar de uma "campanha suja", a ministra da Segurança e também candidata, Patricia Bullrich, do mesmo partido, exigiu, nesta quarta-feira (1º), "esclarecer a situação agora".

"Não podemos aceitar o comportamento de pessoas que receberam dinheiro dos traficantes de drogas", disse a secretária durante entrevista, segundo a imprensa argentina.

Patricia Bullrich antecipou que o Poder Executivo solicitará explicações sobre o que aconteceu durante a campanha presidencial do atual candidato a deputado do partido em 2019.

"É importante esclarecer a situação de Espert agora", insistiu. "É preciso uma explicação, é algo de 2019. Temos que ver que explicação ele deu naquela época e o que ele apresentou, é isso que precisamos saber. Ele pode ter apresentado uma explicação para a Justiça Eleitoral, que pode ou não ser válida, é importante saber", disse Bullrich.

O escândalo foi desencadeado após a divulgação de um relatório judicial dos EUA que revelou uma ligação financeira direta entre o deputado José Luis Espert e o empresário Alfredo ‘Fred’ Machado, atualmente detido em Río Negro, na Argentina, e com um pedido de extradição dos EUA por tráfico de drogas e fraude.

Conforme as investigações do governo dos EUA, o principal candidato libertário nas eleições de 26 de outubro recebeu uma transferência de US$ 200 mil em 1º de fevereiro de 2020, de um fundo de Machado.

Questionado pela imprensa argentina, Espert tem repetido que o caso não passa de uma "campanha suja" e nega ter recebido a qualquer valor de Alfredo ‘Fred’ Machado.

Nos últimos dias, ele só admitiu ter viajado em um avião que pertence a Machado. "Obviamente eu agradeci a ele", disse ele, mas esclareceu: "Se eu soubesse que essa pessoa era (suposto traficante de drogas e fraudador), não estaria agradecendo a ele”.

A mesma linha tem sido adotada pelo presidente Javier Milei, que falou de "fofocas de cabeleireiro". "É a mesma operação que havia sido feita em 2019. 6 anos se passaram, estava sujo em 2019, estava sujo em 2021; é recorrente. Faz parte da metodologia", disse o presidente.

No entanto, além da ministra Bullrich, outras vozes também já começam a ser ouvidas dentro do A Liberdade Avança exigindo uma explicação clara para as reclamações e que Espert desista de sua candidatura.

Irmã de Milei

Esse escândalo acontece apenas um mês após a irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, Karina Milei, ser apontada como suposta beneficiária direta de um esquema de corrupção envolvendo a devolução de verbas por meio da Andis (Agência Nacional para a Deficiência).

A investigação, que está sendo conduzida sob sigilo pela Justiça Federal, ocorre após uma reportagem do canal de streaming local Carnaval revelar gravações de áudio nas quais Diego Spagnuolo, ex-diretor da Andis, teria sido ouvido discutindo um esquema de propina em uma conversa privada que supostamente envolve Karina Milei e um de seus colaboradores mais próximos, o subsecretário de Gestão Institucional, Eduardo ‘Lule’ Menem, parente do falecido ex-presidente Carlos Menem.

Nos áudios, Diego Spagnuolo afirma que havia uma rede de cobrança de propinas na Andis, com exigência de até 8% sobre o faturamento das farmacêuticas para garantir contratos com o governo – o negócio renderia até US$ 800 mil mensais (cerca de R$ 4,3 milhões).

Segundo ele, Karina Milei recebia a maior fatia do faturamento, entre 3% e 4% do valor arrecadado e poder decisivo nos bastidores.

Eduardo ‘Lule’ Menem é apontado como o principal operador do esquema, com apoio de empresários ligados à distribuidora Suizo Argentina.

Militares dos EUA na Argentina

O recente escândalo envolvendo denúncias de tráfico de drogas acontece na mesma semana em que o Javier Milei autorizou a entrada de militares norte-americanos no país. A autorização foi concedida por meio de um decreto presidencial.

De acordo com a agência de notícias Telesur, as tropas irão participar de exercícios militares em parceria com Chile e Argentina.

O primeiro, chamado "Solidariedade", será realizado entre 6 e 10 de outubro, em Puerto Varas, no Chile. O objetivo é treinamento para situações de desastres naturais, conforme prevê acordo de cooperação entre os países, firmado em 1997.

O outro exercício, denominado "Trident", ocorrerá na Argentina, no período de 20 de outubro e 15 de novembro, nas bases navais de Mar del Plata, Usuaia e Puerto Belgrano, para simulações de defesa naval e assistência humanitária.

Ações contra Venezuela

No momento, um grande aparato militar enviado pelo presidente Donald Trump está em prontidão no Mar do Caribe sob o pretexto de combater cartéis do narcotráfico atuantes na Venezuela. Nas últimas semanas, o presidente Donald Trump divulgou em sua rede social vídeos de supostos bombardeios a barcos com drogas por forças americanas.

Conforme reportagem publicada pelo jornal The New York Times em agosto, o presidente Donald Trump assinou secretamente uma diretriz para o Pentágono começar a usar força militar contra certos cartéis de drogas na América Latina vistos pelo governo como organizações terroristas.

A decisão cria uma base oficial para a possibilidade de operações militares diretas em solo estrangeiro. Autoridades militares dos EUA, segundo o The New York Times, já começaram a elaborar opções sobre como poderiam perseguir os grupos.