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Ex-atletas e treinadores preveem novos recordes na maratona

O recorde da maratona estabelecido no domingo (26) em Londres pelo queniano Sabastian Sawe -que tornou-se o primeiro homem a correr 42,2 km abaixo de duas horas em uma prova oficial- inaugura uma nova etapa para a elite do atletismo mundial. Segundo ex-maratonistas e treinadores ouvidos pela reportagem, os "supertênis", calçados especiais - e caros - pensados para melhorar a performance nas pistas têm papel fundamental na evolução do tempo de conclusão do percurso.

Sawe e o segundo colocado, o etíope Yomif Kejelcha - recordista da meia-maratona e que disputava sua primeira prova de longa distância -, além da etíope Tigst Assefa, vencedora na categoria feminina, calçavam o Adizero Adios Pro Evo 3, da Adidas, que pesa apenas 97 gramas.

O tênis ainda não está disponível no mercado brasileiro e é comercializado no exterior por cerca de US$ 500 (R$ 2.500).

Lançados no mercado em meados de 2017 com placas de carbono na entressola para aumentar a estabilidade e espumas especiais de amortecimento, os "supertênis" prometem reduzir em até 4% o tempo de corrida de atletas profissionais.

"Quebrar o recorde mundial é algo com que sonho há muito tempo, e alcançar isso significa muito para mim e para o esporte da corrida. Isso reflete o trabalho duro feito nos bastidores, o apoio da minha equipe e o papel da inovação em me ajudar a ir além dos limites", declarou Sawe em comunicado.

Apesar da leveza dos pisantes, corredores ressaltam que eles não são a única razão que ajuda a explicar o ganho de velocidade dos atletas.

Desenvolvimentos nas frentes de nutrição e nos próprios treinamentos esportivos também são apontados pelos especialistas, que preveem que novas quebras de recorde não devem demorar.

Bicampeão da Maratona de Nova York e tricampeão da São Silvestre, Marílson Gomes dos Santos afirmou que o tempo de 1 hora, 59 minutos e 30 segundos alcançado por Sawe inaugura uma "nova era" no atletismo.

"É um novo marco na história das maratonas. Era algo que, se a gente fosse pensar há 10, 15 anos, era praticamente impossível de ser feito", afirmou Marílson.

Aposentado das pistas desde 2016, o brasiliense fez seu melhor tempo justamente na Maratona de Londres, em 2011, quando terminou na quarta colocação com 2h06min34.

Marílson acrescentou que a marca sub-2h passou a ser vista como possível de ser alcançada após o queniano Eliud Kipchoge, bicampeão da maratona olímpica, completar o percurso em 1h59min40s, em 2019.

A marca não foi homologada por não cumprir os requisitos de uma prova oficial, mas abriu o horizonte quanto a essa possibilidade para os atletas de ponta, assinalou o ex-maratonista brasileiro.

"A gente já sabia que isso ia acontecer. Só não sabia em qual maratona que seria", disse Marílson.

"Isso se deu graças a evoluções em todas as áreas do esporte. A nutricional, a de treinamento esportivo, a tecnológica com os novos tênis. Foi a junção de tudo isso que permitiu que chegássemos nesse ponto", acrescentou.

Ex-treinador de Marílson, Adauto Domingues afirmou que a marca de Sawe deve provocar uma motivação adicional em outros atletas da elite, com o tempo muito provavelmente sendo gradualmente baixado ao longo dos próximos anos.

"As marcas causam todo esse alvoroço e acho que vamos viver novos tempos com toda essa tecnologia. Os atletas, quando veem os adversários competindo e fazendo essas marcas, se sentem capazes de fazer também. Acho que muito rapidamente vamos ter outros atletas correndo abaixo de duas horas", afirmou Domingues.

O treinador acrescentou que, para que novas marcas sejam estabelecidas, é fundamental que os atletas busquem companheiros de treino que sejam capazes de elevar seu próprio nível.

"O sarrafo dos treinos deles é muito alto", disse Domingues. "Quando você põe muita gente boa reunida, em condições ideias, com material, com tecnologia apropriada, os resultados chegam", acrescentou o treinador.

Por Lucas Bombana (Folhapress)