Por Pedro Sobreiro
Nesta sexta-feira (1º), enquanto o mundo celebra o Dia do Trabalhador, o Brasil ainda chora seu luto por um de seus filhos mais célebres: Ayrton Senna. Morto no GP de Ímola, na Itália, naquele dia 1º de Maio de 1994, o piloto de Fórmula 1 viu sua Williams sair da pista da curva Tamburello, colidindo com tudo contra o muro.
Ao longo desses 32 anos, a morte de Senna ganhou novos capítulos que mostraram ainda mais o inegável talento que o consagrou para muitos como o maior piloto de todos os tempos. Ayrton vinha de uma temporada de adaptação ao carro, que havia sofrido modificações por ordem da FIA, e não estava feliz com o desempenho. Ainda assim, em Ímola, o brasileiro pretendia "virar a chave" na temporada. Na sétima volta do GP, Senna havia conseguido fazer a melhor volta do circuito, abrindo vantagem sobre Schumacher, até sofrer o acidente. A telemetria viria a revelar ainda que em seus últimos momentos, Ayrton ainda tentou evitar a batida, já que entrou na curva a cerca de 300 km/h e ainda assim conseguiu reduzir, nessa fração de segundos, a velocidade do carro para aproximadamente 200 km/h no momento do impacto.
Além disso, Ayrton carregava no carro uma bandeira da Áustria. A ideia do brasileiro era vencer a prova e prestar uma homenagem a Roland Ratzenberger, piloto da Simtek que faleceu na Curva Villeneuve do mesmo GP, um dia antes da partida de Senna. Infelizmente, a homenagem nunca aconteceu.
Comoção nacional
Em 2020, quando Diego Armando Maradona faleceu na Argentina, Buenos Aires literalmente parou para realizar o cortejo do lendário camisa 10, com o povo lotando as ruas para ver o caixão de Diego passar. Na época, uma pergunta que tomou conta da imprensa brasileira era se algum ídolo nacional receberia uma homenagem tão impressionante no Brasil quando falecesse. Dois anos depois, a morte de Pelé mostrou que muito dificilmente algo assim se repetiria. Isso porque a identificação de Maradona com a Argentina transcendia o esporte, ele era uma representação do próprio povo. Pelé, por outro lado, optou por uma vida mais polida e diplomática, então acabou conquistando uma idolatria mais restrita ao âmbito esportivo.
Porém, esse cortejo de parar ruas já havia acontecido no Brasil, e isso ajuda a dar uma dimensão do tamanho de Ayrton Senna para este país. Após o país afundar em luto, o corpo de Ayrton chegou ao Brasil para ser sepultado no Cemitério do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo. Do aeroporto de Guarulhos, ele foi levado ao Hall Monumental da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para o velório, que durou cerca de 20 horas.
Em 5 de maio de 1994, antes do enterro, o corpo de Ayrton foi levado para dar uma volta final por São Paulo. A comoção popular era tamanha que o governo do estado decretou ponto facultativo para que os brasileiros pudessem se despedir do ídolo. Escoltado pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Ayrton teve um rito funerário que costuma ser adotado apenas para presidentes nacionais falecidos, com direito a salva de 21 tiros de canhão e chuva de pétalas. Pelas ruas, brasileiros de todas as idades eram vistos chorando e rezando, buscando um espaço em meio a multidão para dar seu último adeus a Ayrton Senna.
Estima-se que aproximadamente 3 milhões de pessoas tenham enchido as ruas de São Paulo para acompanhar a despedida. Uma prova sem igual do tamanho da idolatria que Ayrton Senna construiu no país. Diferentemente de outros esportistas, Senna conseguiu transcender o próprio esporte. Com sua personalidade vencedora e gana de sempre melhorar, ele sintetizou o espírito brasileiro de não desistir e de sempre buscar provar ao mundo seu valor. Senna despontou para o país durante os anos de crise da Ditadura Militar. A pobreza imperava e a falta de perspectiva tomava a nação, enquanto a inflação levava a fome para os lares brasileiros. Enquanto o povo vivia seus piores anos, sofrendo com uma autoestima praticamente inexistente, Senna adentrou a Fórmula 1, um esporte predominantemente europeu, e mostrou que o Brasil podia, sim, confrontar os melhores do mundo.
Levando valores inegociáveis mundo afora, Senna fez com que o povo sentisse orgulho de ser brasileiro. Ele fazia questão de carregar a bandeira em suas vitórias e de usar sua influência para chamar atenção para as causas que assolavam o país, principalmente no que dizia ao sucateamento da educação e da necessidade de proporcionar condições básicas de sobrevivência para as crianças. Tudo isso sendo um rapaz bem-humorado e querido pelo povo, um 'molecão' que fez o brasileiro acordar cedo para vê-lo encantar o mundo durante as madrugadas brasileiras com suas vitórias e ultrapassagens de tirar o fôlego.
Ayrton construiu sua idolatria na época de vacas magras do Brasil. E esses ídolos que conseguem fazer o povo sentir orgulho, mesmo vivendo a pior época da vida, sempre vão ser lembrados com mais carinho pelo povo. Em tempos de desamparo, Senna ousou olhar com zelo para seus compatriotas e mostrou para todos que o mais importante da vida era nunca desistir e sempre acreditar em si, porque de alguma forma você chegaria ao sucesso. 32 anos após a morte de Ayrton Senna, o Brasil ainda chora sua partida, enquanto sonha com outro fenômeno capaz de fazer com que todos se sintam representados mundo afora.