Altos e baixos. Foi assim que o GP da Austrália se desenrolou. A primeira corrida com o novo regulamento teve amplo domínio da Mercedes e da Ferrari, que ocuparam as quatro primeiras posições por toda a prova, mas quem roubou a cena foi novamente Max Verstappen, da Red Bull. Eleito piloto do dia, o holandês largou em 20º e terminou a corrida em sexto.
A corrida foi uma catástrofe para os australianos antes mesmo da largada. Oscar Piastri, da McLaren, passou o fim de semana inteira recebendo tratamento de herói, e havia uma grande expectativa de que ele quebrasse o tabu de um piloto local nunca ter conseguido um pódio no circuito. Porém, não foi dessa vez que a escrita foi quebrada. Piastri perdeu o controle na volta de apresentação e bateu no muro. Ele teve de abandonar antes mesmo do início da prova, causando grande frustração para os torcedores locais.
Domínio da Mercedes
Como era esperado pelo desempenho na qualificatória, o GP da Austrália foi vencido por George Russell. O piloto da Mercedes perdeu a liderança em uma largada assombrosa da Ferrari, que tomou a P1 com um verdadeiro "coice" do monegasco Charles Leclerc, com quem travou interessantes batalhas nas primeiras voltas da prova. Tudo indicava que seria uma "batalha particular" entre os dois. Porém, no fim das contas, prevaleceu a superioridade do carro alemão, que está um foguete, sem exagero algum. Russell tomou a dianteira e não saiu de lá. Em segundo lugar, o italiano Kimi Antonelli, também da Mercedes, sofreu na largada, perdendo sua p2. Em sétimo, o garoto de 19 anos fez uma boa prova de recuperação e terminou em p2. A terceira colocação ficou com Charles Leclerc, em um tipo de prêmio de consolação para a Ferrari, que chegou a sonhar com o lugar mais alto do pódio.
Ferrari tem esperança
Após uma temporada catastrófica em 2025, a Ferrari pode voltar a sonhar em 2026. Ao menos, foi isso que a primeira etapa do Mundial indicou. Para a felicidade dos pilotos, o carro desse ano mostrou ser muito bom. A superioridade do SF-26 nas largadas definitivamente é um trunfo que fará a diferença ao longo da temporada. O "coice" de Leclerc chamou atenção porque deu a ele a liderança na primeira curva, mas a largada de Lewis Hamilton também foi excepcional. O piloto britânico pulou de sétimo para quarto na primeira curva e conseguiu fazer uma corrida "dos velhos tempos". Ele incomodou as Mercedes e vislumbrou um pódio, mas acabou terminando em quarto devido a um velho problema da escuderia: a estratégia.
Era nítido que a Mercedes tinha um carro superior. Então, mesmo com um grande carro, a chance da Ferrari tomar os dois lugares mais altos do pódio era traçar uma estratégia perfeita para batalhar pelas posições. Porém, a equipe optou por não ir aos boxes na primeira bandeira amarela, quando o carro de Isack Hadjar deu problema, obrigando o piloto da Red Bull a deixar a prova. A estratégia foi alvo de críticas de Hamilton, que viu a Mercedes voltar melhor e facilmente retomar suas posições. Na segunda bandeira amarela, quando Valtteri Bottas, da Cadillac, teve de deixar a prova, a Ferrari não conseguiu aproveitar por conta do fechamento do pit lane. Um golpe de azar que acabou punindo ainda mais o erro de não ter aproveitado a primeira bandeira amarela para fazer o pit-stop.
Mas talvez a maior vitória da Ferrari nesse primeiro circuito tenha sido anímica. Quem acompanhou a temporada passada certamente lembra dos olhares sem esperança e frustrados de Leclerc e Hamilton. Em 2026, com bom carro e pilotos motivados, a Ferrari tem tudo para entrar na briga por pódios, basta melhorar as estratégias e parar de desperdiçar oportunidades.
Largada perigosa
Como era esperado, a largada dessa "nova era" foi demasiadamente perigosa. Com diferentes tempos e velocidades de partida, a F1 ficou por um triz de registrar uma tragédia em sua corrida inicial. Extremamente problemática, a largada viu Kimi Antonelli perder energia e, por consequência, posições. Mas o que chamou atenção mesmo foi um quase incidente entre Liam Lawson, da Racing Bulls, e o argentino Franco Colapinto, da Alpine. O carro de Lawson simplesmente parou na largada, obrigando o argentino a fazer uma manobra de escapa de milésimos de segundo para escapar. O reflexo de Colapinto deixou o vencedor da prova, George Russell, estupefato no pós-corrida, em vídeo que viralizou nas redes sociais. Por muito pouco o público não presenciou um acidente gravíssimo. E se nada for feito pela FIA, a tendência é que episódios do tipo voltem a acontecer. Não adianta nada a federação falar em segurança e ignorar um problema, vindo do novo regulamento, que coloca a vida dos pilotos em risco em um dos momentos cruciais das corridas, que é o arranque inicial.
Mario Kart
A "nova era" da Fórmula 1 começou. O controverso regulamento está em jogo e o que se viu foi uma modalidade completamente diferente. Foram registradas 120 ultrapassagens no GP da Austrália 2026. Em nível de comparação, o mesmo GP teve 45 ultrapassagens na edição do ano passado. Porém, os números frios impressionam mais do que a realidade da corrida. Muitas dessas ultrapassagens ocorreram devido à gestão ou esgotamento de baterias, e ao uso do Modo Ultrapassagem, que dá ganho de velocidade aos carros nas retas.
O Modo Ultrapassagem, por sinal, foi comparado ao videogame Mario Kart por dois destaques da prova: Charles Leclerc e Max Verstappen. Pelo rádio, o piloto da Ferrari teve uma reação extremamente sincera ao usar a ferramenta pela primeira vez: "parece o cogumelo do Mario Kart". No jogo, o cogumelo dá ao piloto um "boost" de dois segundos. Já Verstappen usou o videogame para reforçar suas críticas ao novo regulamento. "É meio caótico, porque você ultrapassar nas retas, mas podem te ultrapassar logo em seguida. Felizmente, tive mais velocidade nas curvas, então não conseguiram contra-atacar, mas o pelotão do meio parecia Mario Kart", disse o holandês. Ao ViaPlay, Max complementou a frase, novamente citando o videogame: "Se vocês gostaram disso [ultrapassagens 'vazias'], está tudo bem. Mas esse é o tipo de coisa que eu faço em casa, jogando Mario Kart. Pessoalmente, não gostei. A forma como estamos correndo [perdendo velocidade por conta de bateria] não está certa", concluiu.
Abandonos
A prova também contou com muitos abandonos. Piastri sequer começou a corrida. Isack Hadjar (Red Bull), Valtteri Bottas (Cadillac), Fernando Alonso (Aston Martin) e Nico Hülkenberg (Audi) abandonaram a prova. Como era de se esperar, a Aston Martin, que fez sofrendo com o novo carro, entrou na pista só para não sofrer punições. Além de Alonso, que abandonou, o outro piloto da escuderia, Lance Stroll, não concluiu a prova.
Fizeram o que podiam
Campeã de tudo em 2025, a McLaren começou em baixa. Além do abandono de Piastri, o atual campeão mundial Lando Norris conseguiu "apenas" uma quinta colocação, o que, neste cenário de ampla superioridade de Mercedes e Ferrari, pode ser algo a se comemorar na temporada 2026. Por outro lado, como Hülkenberg abandonou a corrida, Gabriel Bortoleto entrou para a história da Audi ao conquistar os primeiros pontos da história da escuderia. O brasileiro terminou em nono e deu sinais de que pode crescer bastante na temporada.
No fim, a corrida de abertura da temporada passou aquela sensação de que a F1 2026 já está decidida. O domínio da Mercedes e o potencial desafiador da Ferrari são as grandes promessas de emoção de 2026, com um Max Verstappen correndo por fora, mais ou menos como na temporada passada.
A próxima etapa é o GP da China, no circuito de Shangai, que terá o primeiro Sprint da temporada e acontecerá entre 13 e 15 de março.