Por Valentin Furlan e Gabriel Sá (Folhapress)
O futuro de Julio Casares será definido nesta sexta-feira, às 18h30 (de Brasília), no Morumbis. Com 254 conselheiros aptos ao voto, a destituição precisa de um quórum de presença de 191 votos e 171 votos favoráveis para ser aprovada.
Se aprovada, Casares seria afastado, e sua cadeira passaria a ser ocupada pelo vice, Harry Massis Júnior. A última instância, então, seria por maioria simples de uma Assembleia Geral com todos os sócios adimplentes.
A discussão em torno do impeachment do presidente do São Paulo, Julio Casares, escancarou uma ambiguidade relevante no Estatuto Social do clube: o potencial conflito jurídico entre os artigos 58 e 112.
Discussão
Embora ambos tratem da destituição do presidente, esses artigos o fazem sob lógicas distintas, o que abre margem para interpretações opostas sobre quórum e número de votos necessários. O artigo 58 exige "quórum qualificado de pelo menos 75% dos membros do Conselho", enquanto o 112 adota uma abordagem mais direta: a destituição depende do voto favorável de dois terços da casa.
Opositores entendem que o artigo 58 é claro quando trata a destituição "na hipótese de pratica de atos contrários ao Estatuto Social", que não é o caso do pedido protocolado. O fundamento da requisição é de 'falência política da gestão', e não de atos contraditórios ao Estatuto. Por isso, a base deveria ser o artigo 112, que trata em específico da destituição.
Aliados de Casares e o presidente do Conselho, Olten Ayres, porém, discordam. A avaliação, a reportagem ouviu, é fundamentada no princípio do in dubio pro reo: diante de uma contradição do Estatuto, deveria prevalecer a leitura que favoreça o acusado - no caso, o artigo que trata de um quórum maior, o de 75% da casa.
O que dizem os artigos?
Artigo 58: compete ao Conselho Deliberativo, observados os procedimentos deste Estatuto, do seu Regulamento Interno e do Regimento Interno do SPFC:
g) votar a destituição do Presidente e/ou Vice-Presidente Eleitos e dos integrantes do Conselho de Administração, na hipótese de pratica de atos contrários ao Estatuto Social, conforme procedimento descrito neste Estatuto e regulado no Regimento Interno do SPFC, sem prejuízo da competência legal da ratificação da destituição pela Assembleia Geral;
§2º Para aprovação das matérias constantes das letras "g", "r" e "s" acima, exige-se quórum qualificado de pelo menos 75% (setenta e cinco por cento) dos membros deste Conselho.
Artigo 112: o Presidente Eleito poderá ser destituído pelo voto favorável de pelo menos 2/3 (dois terços) da totalidade dos membros do Conselho Deliberativo.
Judicialização
A interpretação que prevaleceu na decisão liminar da Justiça foi a da oposição. Na liminar, a juíza Luciane Cristina Silva Tavares entendeu que não há incompatibilidade entre os artigos e que seriam necessários 75% dos conselheiros presentes para validar a reunião, mas apenas dois terços dos votos favoráveis para consumar a destituição.
Mas a discussão jurídica não parou no quórum. Outro ponto que vinha sendo alvo de debate era o modelo da reunião, 100% presencial ou híbrido.
Em entrevista à reportagem, o conselheiro de oposição Caio Forjaz afirmou que a votação híbrida amplia a participação dos conselheiros e reflete de forma mais fiel a vontade majoritária do clube, em um momento em que muitos estão de férias e longe da capital paulista. Forjaz acusou Olten Ayres, ainda, de favorecer Casares ao tentar esvaziar o quórum.
A reportagem contatou o presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres, que negou favorecimento a Casares, afirmou agir dentro do que rege o Estatuto e explicou que a defesa da votação 100% presencial se deve à alta sensibilidade do tema, para garantir maior controle e supervisão à votação e que, se optasse pelo modelo híbrido ou online, precisaria abrir o sigilo dos conselheiros no provável caso de contestação e, por conseguinte, recontagem dos votos.
A Justiça, porém, deu parecer favorável mais uma vez à oposição. Na mesma liminar que reduziu o quórum para aprovação do impeachment para dois terços do Conselho, a magistrada afirmou não ver incongruências de uma reunião híbrida com o Estatuto e autorizou o modelo de votação. O São Paulo apresentou um recurso contestando a decisão, mas teve agravo rejeitado, na manhã desta quarta-feira.
A reportagem apurou que o clube não deve apresentar um novo recurso, e a tendência é que a decisão seja, portanto, final: reunião híbrida.
Organizadas rompem com Casares
Duas principais torcidas organizadas do São Paulo FC, a Torcida Independente e a Dragões da Real anunciaram nos últimos dias o rompimento direto do apoio ao presidente Julio Casares e passaram a pedir publicamente sua renúncia ao cargo.
A insatisfação não é recente. Desde o fim de 2025, Casares vem sendo alvo constante da torcida em jogos do São Paulo, com cânticos ofensivos direcionados ao mandatário. O desgaste segue evidente e se estende a 2026: durante a Copa São Paulo de Futebol Júnior, nos quatro jogos disputados em Sorocaba, o presidente recebeu cânticos hostis de torcedores.
Protestos
Nesta quinta (15), o São Paulo fez sua primeira partida em 2026 diante de seu torcedor no Morumbis, contra o São Bernardo, pelo Campeonato Paulista. As organizadas realizaram novos protestos, com faixas, vaias e cânticos direcionados à diretoria, em especial ao presidente Casares.
Arrependimento
Um dos episódios que simbolizam a mudança de percepção da torcida é a história de Raphael Alves, músico e torcedor do São Paulo conhecido nas redes sociais como "Barrigudinho Tricolor".
Em 2023, após a conquista da Copa do Brasil, Raphael tatuou no corpo o autógrafo de Julio Casares e a frase "meu presida!", além de referências ao título e ao então técnico Dorival Júnior. Hoje, ele se posiciona abertamente a favor da saída do presidente.
Em contato com a reportagem, Raphael explicou a origem da tatuagem e o arrependimento que veio depois.
"Nunca fui muito ligado na política do São Paulo, a tatuagem foi uma aposta que fiz com amigos para o título da Copa do Brasil. Um prometeu raspar a cabeça, o outro a barba, e eu, emocionado, falei que tatuaria a taça da Copa do Brasil, o Dorival Júnior, a assinatura do presidente e ainda colocaria embaixo 'meu presida'".
Segundo ele, a decisão foi tomada no calor do momento, impulsionada pelo discurso da diretoria.
"Como torcedor iludido, obviamente eu acreditava muito. Principalmente pelo discurso. Ele fala bem, sabe articular. E eu como não conheço muito, meu negócio é dentro do campo, acabei acreditando".
A mudança de visão começou a partir de reportagens e bastidores que vieram à tona nos últimos dias. Hoje, Raphael faz questão de separar a emoção pelo clube da figura política e se diz arrependido.
"A cada matéria que ia saindo, eu já ia percebendo que ele não era o que eu imaginava. Desde o final de 2024 já deu pra ver que algo errado estava acontecendo. Eu me arrependo, obviamente. Não pela emoção que tive pelo time, aquilo eu gostei muito, mas acho que fui errado em levar até o político. O Casares brincou com os sonhos do são-paulino, isso faz eu me arrepender. Do Dorival, ele é profissional e eu sabia que alguma coisa poderia acontecer, dele eu não tenho arrependimento nenhum".
Ironizado por torcedores nas redes sociais, Raphael afirma que pretende tirar a assinatura do presidente da pele.
"A assinatura do Julio Casares eu com certeza pretendo cobrir a tatuagem. Sem sombra de dúvidas", afirmou.
Aliados aconselham renúncia
Com a organizada rompida, protestos recorrentes nos estádios e derrota na Justiça para as regras do processo de impeachment, Julio Casares vem sendo aconselhado por aliados políticos a renunciar.
O presidente, em primeiro momento, se mantém no poder e passará por votação que pode o destituir do cargo nessa sexta-feira (16), a partir das 18h30 no Salão Nobre do Morumbis.