Gessyca Guerra e Michel Pessanha iniciaram o mês de dezembro como vencedores do Prêmio Paralímpicos 2025 no remo. Dias depois, porém, receberam a notícia de que o Flamengo, clube que defendiam, iria cortar a modalidade do planejamento de 2026.
O remo era, até então, a única pasta a ter atletas com deficiência em seu escopo. A partir deste ano, o Rubro-Negro não conta mais com esportes paralímpicos.
"O Flamengo fala sobre inclusão, representatividade em todos os aspectos do esporte. Diz que apoia e compra essa cultura, esse legado, mas isso não é verídico, tanto que extinguiram o pararemo", afirma Gessyca.
"Foram 12 anos servindo o Flamengo. Achava que merecíamos algumas explicações, mas não foi assim. Acabou e acabou. O Flamengo tem um departamento social, diz que apoia diversas causas, inclusive a da pessoa com deficiência... Como apoia se não quer no clube?", diz Michel.
Diana Barcellos e Valdenir Junior, outros integrantes da delegação, também foram desligados do clube. O Rubro-Negro oficializou o movimento em nota oficial publicada na terça, no mesmo documento em que informou o fim da canoagem.
Gessyca, diagnosticada com paralisia cerebral, pratica a modalidade há quatro anos e começou, justamente, no Flamengo. Natural de São Gonçalo, ela, inclusive, morava no alojamento do clube.
Michel, que tem sequelas da poliomielite na perna e nádega, ambas do lado direito, também iniciou no pararemo do Rubro-Negro, onde estava prestes a completar 13 anos - ele trabalhava como mecânico antes de se tornar atleta.
A dupla, em junho, conquistou a medalha de ouro no PR2 Double Skiff Misto na Copa do Mundo, em Varese, na Itália. Também foram campeões brasileiros e ficaram na quinta colocação no Mundial de Xangai.
À reportagem, eles relataram que, nos bastidores, já havia sinais de que haveria cortes, mas o fim da modalidade não era esperado.
"Havia conversas de que haveria mudanças. Nós buscávamos uma resposta mais concreta sobre a situação, mas os gestores nunca davam. Imaginávamos que teriam cortes, mas acabar com a modalidade toda nos pegou de surpresa", conta Gessyca.
"Nestas tentativas de conversas, cada hora indicavam uma coisa. Em um momento haveria cortes porque estávamos onerando o clube, em outro porque a diretoria não queria mais esporte adaptado. Após o anúncio do Flamengo, falou-se muito em custos: eu ganhava um salário mínimo. E, desde quando comecei, em 2020, fui campeã de tudo pelo Flamengo, remando sozinha ou em conjunto."
Michel não escondeu a frustração com a forma que o Rubro-Negro conduziu o tema e questionou a decisão da diretoria.
"Eu nunca perdi um título pelo Flamengo no Brasileiro. Eu estou invicto desde quando entrei no departamento. Já ganhei Mundial, nos Estados Unidos, vestindo a camisa do Flamengo. Tenho resultados em Copas do Mundo e Mundiais pela seleção", lembrou.
Os atletas apontaram uma diferença de tratamento da atual diretoria do Flamengo em relação a gestões anteriores do clube.
Os remadores relataram que, ao longo do ano, houve atitudes que foram avaliadas como um certo boicote. Os nomes dos paratletas, por exemplo, vez ou outra, não constava na lista do café da manhã oferecido a todos do departamento após os treinos, no refeitório do clube.
"O Flamengo está passando por alguma crise financeira que não possa manter os atletas? Não é isso, mas eles também não chegaram e sentaram conosco para conversar e explicar o real motivo. Tinha atleta que recebia um salário mínimo. O real motivo acredito que seja o fato dessa diretoria não querer trabalhar com atletas com deficiência", afirma.
Por Alexandre Araujo (Folhapress)