Dados levantados pelo projeto Cultura na Faixa ajudam a compreender a realidade racial de territórios periféricos da Baixada Fluminense e evidenciam a importância do acesso à cultura para juventudes negras.
Levantamento realizado em janeiro de 2026 pela assessora de Pesquisa Social do projeto Cultura na Faixa, Viviane Gonzales, no bairro Geneciano, em Nova Iguaçu, traça um retrato da população local e aponta características centrais do território: predominância de moradores negros e forte vínculo com o bairro.
Nova Iguaçu possui cerca de 786 mil habitantes e concentra um dos maiores contingentes de população negra do estado do Rio de Janeiro, com mais de meio milhão de moradores pretos e pardos. Nesse contexto, o Geneciano sintetiza, em escala de bairro, a centralidade da população negra na Baixada Fluminense. De acordo com os dados coletados na região,75% dos moradores que responderam à pesquisa se autodeclararam pretos ou pardos, sendo 46% pardos e 29% pretos. Pessoas brancas representam 25% do total. Na Baixada Fluminense como um todo, cerca de 69% da população se declara preta ou parda, o que faz da região o principal polo negro do estado.
Para Viviane Gonzales, o conjunto das informações revela um território formado majoritariamente por famílias negras e jovens, cujas condições de vida são atravessadas por desigualdades estruturais, mas também por vínculos comunitários consolidados.
"Esse enraizamento se dá em um município de médio desenvolvimento humano e renda per capita relativamente baixa, onde estudos apontam que a população preta e parda está mais exposta a violações de direitos, precariedade urbana e insegurança socioeconômica", disse.
Sobre essa realidade, Geraldo Bastos, pesquisador e gerente do projeto Cultura na Faixa enfatiza que em março de 2026, fazem exatamente 21 anos da conhecida Chacina da Baixada Fluminense que matou dezenas de jovens negros na região em 2005. Para ele, a Baixada Fluminense, como diversos outros territórios, não pode ser analisada em seu contexto psicossocial a partir de um único parâmetro. É uma área de intenso contraste social e produção de resistências.
"Não obstante uma parte dos dados trazidos em nossas observações a partir da vivência e pesquisa revela que diante da realidade da população afrodescendente da Baixada Fluminense, há uma conjuntura social que torna uma rotina comum eliminar pessoas negras", afirmou.
É nesse contexto de resistências que iniciativas culturais comunitárias ganham relevância. O Cultura na Faixa, projeto da ONG Se Essa Rua Fosse Minha (SER), por meio de convênio com a Transpetro, desenvolve atividades culturais e formativas voltadas principalmente para crianças, jovens e famílias de territórios populares.
As ações incluem oficinas culturais, atividades educativas e iniciativas que dialogam com temas como identidade, cultura afro-brasileira e direitos sociais. Para jovens que vivem em territórios periféricos, o acesso à cultura pode ampliar repertórios, fortalecer vínculos comunitários e abrir caminhos de participação social e proteger a vida de pessoas negras.
A data instituída pela Organização das Nações Unidas reforça a necessidade de ampliar políticas públicas e iniciativas sociais voltadas à promoção da igualdade racial. Em territórios como o Geneciano, a presença de projetos culturais comunitários contribui para fortalecer identidades, preservar práticas culturais e ampliar o acesso a direitos.
Os dados foram coletados a partir de formulários aplicados junto à comunidade no contexto das atividades do projeto Cultura na Faixa.