Em meio ao palco, piso sagrado e consagrado por artistas e suas performances, uma luz paira sobre o meio. Um foco se acende, a plateia que em silêncio mergulha na forma em que os artistas se entregam traz consigo ainda o privilégio de prestigiar o grupo em cena. É no palco, em meio ao silêncio e às luzes ainda que cegantes, é onde Vinícius de Castro se encontra. Desde pequeno, ainda nos primeiros momentos, é na fala e no corpo que ele começa a se expressar.
No Dia Mundial da Síndrome de Down, celebrado neste sábado, 21 de março, histórias como a de Vinícius de Castro, 20 anos, trazem uma reflexão sobre a importância da inclusão, do acolhimento e sobre como a arte pode ser uma ferramenta transformadora.
O amor de Vinícius pelo teatro não é recente, ele carrega consigo desde que deu os primeiros passos. Ele passou pelas aulas de capoeira, de circo e até teatro infantil. Fabiana Paula, mãe do artista, relembra com carinho que ele encenava situações, vestia fantasias, criava personagens, imitava pessoas de forma muito espontânea.
Trissomia 21
Assim, é onde a história de Vinícius começa. Ele nasceu com Trissomia 21, conhecida popularmente como Síndrome de Down, e desde cedo, encontrou na arte um espaço de expressão e desenvolvimento.
Em 2015, Vinicius começou a fazer aulas de teatro regulares e começou a se dedicar com mais afinco. O apoio da família foi essencial para que Vinícius pudesse crescer dentro da área e seguir a carreira como algo além de apenas um hobby.
Fabiana comenta sobre o momento mais marcante enquanto mãe e admiradora do próprio filho. “Quando ele começou a se dedicar de verdade, a decorar textos, a entender cena, a se posicionar no palco com segurança. Ali eu percebi que não era só interesse, era compromisso, era paixão. Ele se envolvia com o processo inteiro, e isso mostrava o quanto aquilo fazia sentido pra ele. Quando o vi no palco pela primeira vez, todo seguro e empoderado, se apresentando para inúmeras pessoas que ele nunca tinha visto na vida, tive a certeza de que o Vini tinha nascido para o palco”.
Em 2019, aos 13 anos, ele ingressou no Espaço Cultural Mapati, onde participou de cursos de iniciação teatral e outras modalidades. Desde então, Vinícius se dedicou ao teatro com uma paixão inexplicável, comentam pessoas próximas. Posteriormente, ainda na escola, Vinícius tornou-se aluno da companhia de teatro Néia e Nando, grupo conhecido na cena cultural de Brasília. Com o grupo participou de diferentes montagens, entre elas Tarzan e Peter Pan, apresentadas em 2023. No ano seguinte, integrou também os espetáculos Sonho de Uma Noite no Sertão e o musical Abracadabra, contribuindo para suas experiências em cena.
Um grande passo
Este ano, Vinícius começa um novo ciclo e inicia uma nova fase ainda maior em sua história. Ele foi aprovado para iniciar a faculdade de Artes Cênicas, no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb).
"O que mais me surpreendeu na faculdade até agora foi saber trabalhar com meu corpo, atuar e improvisar", explica Vini, como prefere ser chamado. O ambiente universitário também marca seu primeiro contato com uma formação acadêmica mais profunda e com outros artistas da cena.
Por se tratar de um curso que exige prova prática para o ingresso acadêmico, Vinícius se preparou e estudou de acordo com as exigências da prova específica. “Como ele não fez o Enem, o processo de ingresso aconteceu de outra forma: por meio da apresentação de um monólogo e da escrita de uma redação. E foi justamente nesse caminho que ele pôde mostrar, de forma tão genuína, tudo o que é capaz de fazer. Ele estudou, treinou, contou com apoio, mas principalmente com muita vontade”, explica a mãe.
Na prova, Vini interpretou um trecho do personagem Xicó, de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.
Com a aprovação, o clima foi de festa e muita comemoração. Não foi só apenas sobre a entrada, mas sim sobre uma conquista incrível que se torna mais uma barreira social rodeada de preconceitos que foi superada. Fabiana e Vini explicam que é uma oportunidade única que confirma o fato de que o céu é o limite quando se trata de sonhos, pois não é a deficiência que define um ser humano, e sim quem ele é em sua totalidade e individualidade.
“O maior desafio sempre foi o preconceito e as baixas expectativas da sociedade. Muitas vezes, o que limita não é a pessoa com síndrome de Down, mas o olhar do outro. As pessoas se sentem inseguras, não acreditam e por isso deixam de dar oportunidades para as pessoas com síndrome de Down. Além disso, também enfrentamos a falta de oportunidades estruturadas e acessíveis. Tivemos que buscar, insistir e abrir caminhos. Mas cada conquista mostra que vale a pena”.
Ferramenta transformadora
Para Vini, pessoas com Síndrome de Down podem estar onde elas quiserem, assim como pessoas neurotípicas. Ele ainda afirma que é na arte que ele se encontrou e é o que deseja fazer pelo resto da vida. “Eu amo fazer teatro, porque no palco eu posso ser tudo. A faculdade é muito importante pra mim, porque eu tô aprendendo, crescendo e mostrando que a gente pode ocupar qualquer lugar. Eu quero continuar atuando, fazendo arte, fazendo meus filmes. Eu quero viver da arte!”, exclama.
Sua mãe acrescenta que a arte serviu como uma ferramenta transformadora para o filho em diferentes esferas. Neste meio, ela comenta que a inclusão acontece de uma forma natural e espontânea, e que na arte, existem oportunidades e chances oferecidas ao filho que não foram encontradas em nenhum outro lugar.
“A arte tem um poder transformador. Ela rompe barreiras, muda olhares e cria conexão entre as pessoas. No caso do Vinícius, o teatro não é só expressão artística, é também um espaço de pertencimento, empoderamento, de autonomia e de visibilidade. É no palco que ele se afirma, se reconhece e mostra ao mundo toda a sua potência. A arte humaniza, aproxima e mostra que todos têm lugar. E é exatamente isso que torna a inclusão verdadeira: quando ela deixa de ser discurso e passa a ser vivida, sentida e reconhecida”, afirma.