Por: Beatriz Matos

O confessionário de Vorcaro e a teia de poder do Caso Master

Conversas de Martha e Vorcaro expõem a teia de relacionamento do banqueiro | Foto: Reprodução/Instagram

O banqueiro Daniel Vorcaro transformou as conversas com a namorada, Martha Graeff, em uma espécie de confessionário diário. Nos diálogos trocados por aplicativo de mensagens, o dono do Banco Master relatava encontros, ligações e bastidores de sua rede de contatos em Brasília — uma agenda informal que percorre Executivo, Congresso e Judiciário.

Nas mensagens, Vorcaro comenta reuniões, articulações e contatos com figuras centrais da política nacional. Os relatos passam por ministros de tribunais superiores, parlamentares influentes e integrantes do governo federal.

A amplitude dos nomes citados impressiona. Nas conversas aparecem referências ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), além de menções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

O conteúdo reforça a percepção, dentro e fora das investigações, de que o banqueiro mantinha uma rede de interlocução política ampla, algo que agora se tornou peça central para compreender os desdobramentos do chamado Caso Master.

Bolsonaro

Em uma das trocas de mensagens, Vorcaro comenta uma publicação feita por Jair Bolsonaro sobre suspeitas envolvendo o banco.

Segundo o relato enviado à namorada, o ex-presidente teria publicado a informação após ser convencido de que o tema atingiria o Partido dos Trabalhadores (PT). A interpretação irritou o empresário.

“Alguém falou que era coisa do PT e ele postou”, escreveu Vorcaro.

Na sequência, o banqueiro se refere ao ex-presidente com termos pejorativos, chamando-o de “idiota” e “beócio”. A palavra, pouco usada no cotidiano, significa ignorante ou simplório.

Na conversa, ele também afirma que aliados — entre eles alguém identificado como “Ciro”, referência interpretada como o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, teriam tentado explicar a situação a Bolsonaro, mas que já não havia como retirar a publicação.

Procurada, a assessoria de Ciro Nogueira afirmou que o senador mantém diálogo com centenas de pessoas e que eventuais trocas de mensagens não significam proximidade. A nota também negou qualquer irregularidade e reiterou que o parlamentar está tranquilo quanto às investigações.

Moraes

Os diálogos também mencionam integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em 19 de abril do ano passado, Vorcaro informou à namorada que iria se encontrar com alguém identificado como “Alexandre Moraes”.

“Estou indo encontrar Alexandre Moraes aqui perto de casa”, escreveu.

Surpresa, Martha perguntou se o ministro estaria na cidade ou se teria ido visitá-lo. A resposta do banqueiro foi breve: “Ele está passando o feriado”.

Dias depois, em outra conversa, a namorada pergunta sobre uma chamada de vídeo e questiona quem era o primeiro interlocutor. Vorcaro responde novamente: “Alexandre Moraes”.

Há, porém, uma menção mais grave. Vorcaro teria conversado com Moraes no dia em que foi preso pela primeira vez, 19 de novembro. O banqueiro escreveu na ocasião: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Houve conversas também em 1o de outubro. Mas essas foram apagadas por ambos do celular. “O Ministro Alexandre de Moraes não recebeu essas mensagens referidas na matéria. Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”, respondeu, a respeito, Moraes, em nota para a jornalista Malu Gaspar, de O Globo.

STF

Em documentos analisados pela investigação também aparecem referências a outros integrantes do Judiciário. Em um arquivo apreendido pela Polícia Federal (PF) há anotações sobre ativos financeiros e precatórios que superariam R$ 16 bilhões.

Em um trecho, surge a anotação: “pegar lista Dino 15 bi”. A assessoria do ministro Flávio Dino informou que não se trata da mesma pessoa e que não existe processo de precatório nesse valor vinculado ao magistrado.

Lula

As conversas também mencionam um encontro de Vorcaro com o presidente Lula no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024.

Na troca de mensagens, o banqueiro relata que a reunião teria sido “ótima”. Segundo ele, o presidente teria convocado três ministros e Gabriel Galípolo, então indicado para assumir o comando do Banco Central (BC).

Na prática, participaram do encontro os ministros Rui Costa, da Casa Civil, e Alexandre Silveira, de Minas e Energia.

O teor da conversa não é mencionado nas mensagens. Posteriormente, Lula confirmou que recebeu o empresário no Planalto, afirmando que costuma se reunir com diversos representantes do setor empresarial.

Após a eclosão do escândalo envolvendo o Banco Master, no entanto, o presidente passou a criticar publicamente o banqueiro.

Operação

Enquanto os diálogos ampliam a dimensão política do caso, a investigação criminal também avança.

Daniel Vorcaro foi preso na quarta-feira (4) durante a terceira fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal. Também foram detidos o cunhado dele, Fabiano Zettel, o operador Luiz Phillipi Mourão Moraes — apelidado nas conversas de “Sicário” — e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.

A prisão ocorreu por volta das 6h da manhã, quando Vorcaro foi conduzido para a Superintendência da PF em São Paulo.

Na decisão que autorizou as medidas, o ministro do STF André Mendonça afirma que o empresário chefiava uma estrutura paralela de monitoramento, descrita como uma espécie de milícia privada destinada a vigiar adversários, autoridades e jornalistas.

A operação investiga crimes de lavagem de dinheiro, fraude processual e obstrução de justiça. No dia seguinte à prisão, Vorcaro foi transferido do Centro de Detenção de Guarulhos para a Penitenciária 2 de Potim, no Vale do Paraíba.

Carta

Entre os documentos apreendidos também aparece uma carta enviada por Vorcaro a um interlocutor identificado como Paulo, ligado ao Banco Central.

No texto, o banqueiro reclama de decisões técnicas do órgão regulador e pede uma reunião para discutir exigências impostas ao banco. Ele afirma ter aceitado todas as determinações feitas pela autoridade monetária, mas considera “injustos” alguns questionamentos sobre a estrutura de capital da instituição.

A carta também revela detalhes de operações financeiras realizadas pelo grupo, incluindo modelos de crédito consignado estruturado, operações imobiliárias e a criação de estruturas societárias envolvendo fundos e seguradoras.

Em um dos trechos, Vorcaro defende uma operação que teria gerado um “fee” de R$ 20 milhões em crédito associativo. Em outro, descreve a venda de um crédito imobiliário com deságio — de R$ 54 milhões por cerca de R$ 26 milhões — como um negócio legítimo de mercado.

O empresário argumenta ainda que as exigências do Banco Central estariam travando investidores interessados em aportar recursos na instituição.

Congresso

No Congresso Nacional, integrante da CPMI do INSS, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) afirmou que Vorcaro representa o núcleo central do esquema investigado.
“A prisão do Vorcaro e do Zettel atinge o coração do Banco Master”, declarou, referindo ao cunhado e sócio de Vorcaro, Fabiano Zettel.

Segundo o parlamentar, o cunhado do banqueiro teria atuado como operador político em movimentações financeiras que precisam ser esclarecidas pela comissão.

O senador Carlos Viana (Podemos-MG) afirmou que os episódios recentes exigem uma apuração independente e transparente, especialmente após a morte de uma pessoa considerada peça importante nas investigações.

“Diante de tudo que foi revelado, da capacidade financeira e da influência de Daniel Vorcaro, não podemos descartar nenhuma hipótese. Isso aconteceu dentro de uma sede pública da Polícia Federal e nós temos que exigir uma investigação isenta e muito transparente para todo o país”, declarou o parlamentar.

Segundo Viana, a comissão deve pressionar para que o caso seja investigado por equipes externas, inclusive com peritos de fora de Minas Gerais, para evitar qualquer suspeita de interferência ou conflito de interesse na apuração.

Consequências

Para especialistas, os efeitos do escândalo podem ultrapassar a esfera criminal. O professor de ciência política do Ibmec Brasília Leandro Gabiati afirma que o caso revela um problema estrutural no sistema político e financeiro.

“Não é uma investigação qualquer. Estamos falando de algo muito mais enraizado no sistema político”, diz.

Segundo ele, o impacto institucional ainda é imprevisível. “Não sabemos qual será a resposta institucional — se haverá uma solução negociada entre os poderes ou um conflito aberto entre eles.”

Para o analista, a proximidade das eleições também pode influenciar a forma como o caso será conduzido.

“A tendência é que os atores políticos tentem administrar o episódio para que ele não contamine diretamente a disputa eleitoral”, afirma.

Ainda assim, ele prevê que o escândalo deve entrar no debate público. “Corrupção será um dos temas centrais da campanha, e inevitavelmente o Caso Master estará associado a esse debate.”