Por: Gabriela Gallo

Guerra é no Oriente Médio, mas terá repercussões na vida brasileira

Ofensiva dos EUA e Israel que matou lideranças iranianas provoca uma onda de instabilidade | Foto: U.S. Navy, Public domain, via WC

Apesar de geograficamente distantes do território brasileiro, os conflitos no Oriente Médio devem repercutir no Brasil nos próximos dias. E o conflito se estende nas próximas semanas, já que nesta segunda-feira (2), terceiro dia da guerra entre os Estados Unidos da América (EUA) e Israel contra o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump (Republicano), avaliou que nada deverá se resolver em menos de quatro ou cinco semanas, com chances de se estender mais.

Considerando o ano eleitoral brasileiro, a previsão é que os principais pré-candidatos à Presidência da República em outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acabem se manifestando sobre o tema. E provavelmente com visões divergentes sobre o conflito. Enquanto o presidente Lula deve se manifestar contrário aos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que retrucou os bombardeios nos dias seguintes, Flávio Bolsonaro tende a apoiar os norte-americanos e Israel.

Termos simbólicos

Em conversa com o Correio da Manhã, o especialista em política internacional e pesquisador da Universidade Helsinque (Finlândia) Kleber Carrilho destacou que os impactos dos conflitos no Oriente Médio devem repercurtir no Brasil, não necessariamente com impactos diretos físicos, “mas em termos simbólicos”.

Ele ainda reiterou que, ainda que haja divergências entre os presidenciáveis sobre o tópico, “a tendência é que Lula não tenha uma posição tão evidente de apoio ao Irã pela reaproximação com os Estados Unidos” e, principalmente, com o presidente norte-americano, Donald Trump (Republicano).

Vale destacar que os chefes de Estado estão articulando um encontro presencial nos Estados Unidos desde 26 de janeiro e, com o retorno do presidente brasileiro de suas viagens pela Índia e pela Coreia do Sul, a reunião entre Lula e Trump deve acontecer ainda em março.

“Ele [Lula] provavelmente não vai deixar esse discurso de aliança com os Estados Unidos somente para o Flávio Bolsonaro. Acredito que a tendência é que haja um impacto menor do que em outros momentos, a não ser que haja um revés no contato entre Lula e o Trump, o que eu acho difícil que aconteça neste momento”, disse Carrilho.

Nova polarização

A reportagem ainda conversou com a advogada especialista direito internacional Hanna Gomes, que completou que “podemos esperar a polarização na política externa brasileira”, tal como nas movimentações internas.

“Certamente, a guerra EUA X Irã vai ser incorporado ao debate político interno. Temas internacionais são usados como marcadores ideológicos, sinalizando, por exemplo, quais setores estão mais alinhados para apoiar os EUA e Israel. Enquanto isso, setores e classes profissionais mais críticos à política externa americana tendem a defender uma posição mais próxima do multilateralismo e do diálogo, que é a vertente pública do atual governo brasileiro”, detalhou ao Correio da Manhã.

Para Hanna, “o assunto pode reacender discussões sobre qual deve ser o eixo da política externa brasileira, se mais próxima aos EUA ou continuar na busca por maior autonomia estratégica, defendendo o multilateralismo”.

Segurança

No meio dessa discussão, o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), destacou que a segurança dos brasileiros será o foco das discussões sobre o tema na comissão.

“É fundamental que o Brasil mantenha interlocução diplomática com todos os países do Oriente Médio, tendo em vista a necessidade de proteger os milhares de brasileiros que vivem ou que estejam atualmente na região. Aspecto adicional de preocupação são os impactos do conflito para o comércio internacional de petróleo e de outros produtos que utilizam rotas na região, com potencial de efeitos negativos de amplo alcance, inclusive no Brasil”, manifestou o senador, por meio de nota à qual o Correio da Manhã teve acesso.

Cautela

No Ocidente, a diplomacia brasileira tem se manifestado de maneira cautelosa, visando não cortar relações com o Irã, tampouco com os Estados Unidos. No primeiro dia dos bombardeios, neste sábado (28), o Ministério de Relações Exteriores emitiu uma nota condenando os ataques, reiterando a necessidade do diálogo para tentar manter a paz entre os países. O posicionamento é coerente com o histórico da diplomacia brasileira.

“O governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados hoje [28/2] por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã. Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”, manifestou o Palácio do Itamaraty.

No terceiro dia do conflito, nesta segunda-feira, o embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, agradeceu publicamente ao posicionamento brasileiro contrário ao conflito. “Recebemos a declaração do governo brasileiro sobre os ataques contra o Irã e agradecemos a condenação do ato de agressão dos EUA pelo governo do Brasil. Vemos essa ação como valorosa, pois dá atenção aos valores humanos, à soberania e à independência dos governos”, disse Abdollah em entrevista a imprensa local, na Embaixada do Irã no Brasil.

Além disso, o Palácio do Itamaraty comunicou que o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, realizou contato telefônico com o ministro de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed Al Nahyan. Segundo o Itamaraty, na conversa, os chanceleres “trataram da atual situação no Oriente Médio e do fechamento do espaço aéreo na região, que tem impacto direto para turistas brasileiros que atualmente visitam o país ou estão retidos nos aeroportos de Dubai e Abu Dhabi”.

Nessa linha, Kleber Carrilho destacou que a diplomacia brasileira seguirá cautelosa.

“O único problema é que para o Brasil fica em uma situação um pouco complexa em não se posicionar porque o Brasil e o Irã têm uma aproximação razoável nos últimos anos, inclusive como um país associado aos BRICS. Então isso é um desafio para o Brasil em tentar não se colocar em rota de colisão com o Trump. O que é importante é que haja uma análise muito clara de riscos, afinal, embora o Irã seja um parceiro dos Brics, não é um parceiro comercial tão relevante para o Brasil”, ele completou para a reportagem.

Apesar de concordar que a diplomacia brasileira seguirá em um discurso favorável à paz entre os países, Hanna Gomes ponderou que “o presidente Lula pode sofrer pressão para se posicionar publicamente sobre as justificativas da guerra e acabar se indispondo com aliados, como a China”. Ela ainda não descarta a possibilidade do Brasil se colocar à disposição para servir como um mediador entre os países envolvidos no conflito.

“Historicamente, a diplomacia do Itamaraty segue alguns princípios constitucionais previstos na Constituição brasileira, tais como a defesa da paz, autodeterminação dos povos e a solução pacífica dos conflitos. Por isso, enquanto expoente do Sul Global e membro do BRICS, a tendência é defender desescalada e negociação diplomática para por fim ao conflito”, completou Hanna para a reportagem.

Entenda

No último sábado, Israel e os Estados Unidos atacaram cidades iranianas. Um dos ataques dos EUA mataram o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, além de outros chefes religiosos. Apesar do Irã ter um presidente, este está subordinado ao “Aiatolá”, que é o nome adotado ao líder supremo do país, que concentra poder sobre Forças Armadas, Judiciário e política externa.

Os ataques ocorreram após semanas de tensões diplomáticas entre os países. Segundo Donald Trump, ele ordenou o ataque aos militares dos EUA para impedir o desenvolviemento nuclear em Teerã (capital iraniana) e um programa de mísseis balísticos. Os Estados Unidos e Israel dizem que o país persa está buscando enriquecimento de urânio com a intenção de fabricar armas nucleares, especialmente bombas atômicas. O Irã nega as acusações, declarando que a produção nuclear tem a intenção exclusiva de produzir energia nuclear.

Com o ataque, que resultou uma série de protestos iranianos contra os EUA e Israel, o país persa formou um órgão colegiado para substituir Khamenei e prometeram contra-atacar. Segundo a imprensa local, no domingo (1º), a Guarda Revolucionária do Irã comunicou que lançou 4 mísseis balísticos contra o porta-aviões norte-americano USS Abraham Lincoln. Para além dos três países, o conflito se estende para outros países do Oriente Médio, como o Líbano.

Segundo o Comando Central do Exército dos Estados Unidos, seis militares norte-americanos foram mortos em conflito com o Irã, nesta segunda-feira. De acordo com o Movimento Internacional Crescente Vermelho, ao menos 555 iranianos morreram desde o começo do conflito. E a tendência é que os números cresçam ainda mais.