Por Fred Soares
Especial para o Correio da Manha
Há qualquer coisa de sagrado na água do Morro de São Carlos. E hoje, depois da apuração que consagrou o quarto título da Viradouro, a quarta estrela bordada na bandeira, essa certeza se impõe como fato. A vitória conquistada nesta tarde não começou agora. Ela nasceu na pedra, no vento, na poeira daquela ladeira da favela que há décadas forma gigantes.
Entre esses, um deles me foi dado para conviver de perto: você, Ciça.
Eu não pude estar junto de tantos outros que fizeram história. Mas com você estive. Vi a obra nascer na palma da sua mão. Vi a carreira sendo erguida como um tamborim que encontra a afinação perfeita. E hoje, ao ouvir o resultado ecoar na Cidade do Samba, eu soube: nada foi acaso.
Vi você enobrecer não apenas as escolas que defendeu, mas a própria instituição chamada Carnaval - algo maior do que o desfile, maior do que a competição. O Carnaval como linguagem de um povo. E você, como tradutor e mensageiro.
Você conseguiu ser aquilo que todo carioca, amante de samba, sonha lá no fundo: viver todos os papéis. Foi passista, foi mestre-sala, até brincou de cantar. Fez de tudo um pouco. Experimentou os lugares que compõem essa grande máquina da alegria fundamental pra nossa existência.
Até que um dia, como se estivesse escrito muito antes de qualquer nota aberta no módulo de jurados, encontrou-se com o surdo, com o repique, com a batida essencial do gênero criado por Ismael. Nesse encontro, nasceu o Mestre Ciça.
E o que era trajetória virou destino.
O quarto título da Viradouro não é apenas número com você na condição de protagonista. É coroamento. É a confirmação de um trabalho que atravessa décadas. É a quarta estrela que não pesa - ilumina. É o reconhecimento de uma bateria que não apenas acompanha o desfile, mas faz ritmo em forma de poesia. A marcação precisa, a cadência firme, o pulso que não vacila. Quando a nota veio, ela apenas confirmou aquilo que a avenida já havia gritado.
O mesmo Ciça que eu vi ser consagrado em madrugadas de escolha de samba é o mesmo que hoje levanta mais um troféu histórico. O mesmo sujeito que se senta pra resenhar com a gente é o maestro que conduz milhares ao ápice. Brilha do mesmo jeito no asfalto da avenida e no chão da ladeira que dá acesso ao morro. Nos quiosques ou no palco da glória, você é o mesmo: homem comum e, ao mesmo tempo, pleno protagonista. Simples como um gole de cerveja, gigante como o grito da Viradouro atravessando a Sapucaí rumo ao título.
É o homem comum, o homem simples, o homem do povo. Mas também é o homem gigante, o homem especial, o homem fenomenal. Você prova, com a própria vida, o potencial desse povo quando trabalha, quando se doa, quando faz do talento uma forma de fé. E hoje essa fé virou taça. Virou estrela. Virou história oficial.
Você não precisou partir para virar mito. Virou mito respirando, suando, regendo. Milagre raro: entrar na eternidade enquanto ainda pisa firme no chão da quadra.
Imagino que lá de cima Ismael, Melodia, Gonzaguinha tenham assistido à apuração com um sorriso tranquilo. Porque quando o resultado confirmou o campeonato, não foi apenas a escola que venceu. Foi uma linhagem. Foi a tradição do São Carlos que mais uma vez desceu para governar a avenida.
Ciça, você não é apenas enredo. Você é tambor, é batida, é cadência. É a tradução viva do que significa o povo chegar ao topo - e permanecer lá com trabalho e justo reconhecimento.
Hoje, quando a bateria rufa campeã, não é só o seu nome que ecoa. É o nome de todos nós. Porque em você, Ciça, o povo inteiro virou samba.