Um dos erros mais comuns quando o assunto é finanças pessoais, especialmente para quem está começando a organizar as contas, é deixar para investir apenas "quando sobrar dinheiro". Isso porque, ao colocar em segundo plano a formação de patrimônio ou de uma reserva de emergência, por exemplo, o investidor fica mais propenso a gastar do que a guardar.
É pensando nessa tendência que especialistas ouvidas pela reportagem recomendam investimentos programados — isto é, aportes mensais fixos em um determinado produto, que, na prática, viram um compromisso financeiro como uma conta de luz ou um boleto de aluguel.
"Mexer com dinheiro é uma coisa muito mais psicológica do que racional, e quanto mais você busca sair da emoção, mais sucesso vai ter. Ao programar um investimento todo mês, você passa a tratar aquilo como mais uma conta a pagar, saindo do emocional e indo para o racional", diz Adriana Ricci, fundadora e chefe de operações da SHS Investimentos.
Não é preciso muito dinheiro para começar: estratégia é indicada para todas as faixas de renda, sobretudo para quem tem um orçamento apertado e dificuldade em poupar. Isso vale também para clientes que deixam o dinheiro parado na conta corrente. Além de mitigar as chances de que esses recursos sejam gastos, a aplicação automática evita a corrosão do poder de compra pela inflação ao longo do tempo.
A automatização do investimento, segundo as especialistas, é também um caminho para viabilizar projetos de curto, médio e longo prazo.
"Investir nada mais é do que adiar uma compra, seja porque o cliente precisa de mais recursos, seja porque ele precisa de mais tempo. Eu quero comprar uma bicicleta, um carro, uma casa? Quero fazer uma viagem? A partir do momento em que eu tenho um objetivo, eu faço uma pesquisa de preços e determino quando é que eu quero que esse desejo se realize", diz Cíntia Senna, educadora financeira da Dsop.
Ao definir o valor almejado e o prazo, o cliente calcula qual é o montante necessário para guardar todo mês até atingir o objetivo e usa aplicações programadas para isso, garantindo a consistência no investimento e a rentabilidade dos juros compostos para fazer o bolo crescer. Não à toa, é uma das formas mais usuais de aportes na previdência privada, em que a instituição financeira debita uma quantia mensal determinada pelo cliente, na data escolhida por ele, e aloca no modelo contratado.
Tendo o objetivo definido, o cliente precisa escolher o produto. Hoje, a maior parte dos bancos e corretoras oferece a ferramenta para aplicações que vão desde o Tesouro Direto até compra de cotas em fundos (veja mais no quadro abaixo). A escolha, porém, deve ser alinhada ao perfil de investimento do correntista — se conservador, moderado ou arrojado — ou à familiaridade dele com produtos financeiros.
Para quem está começando ou tem um perfil mais conservador, a recomendação é automatizar aportes em investimentos de baixo risco, como os da renda fixa. "Tesouro Direto, CDBs, fundos de renda fixa. Produtos assim são mais seguros e evitam perdas de patrimônio, o que é ainda mais importante ao considerar investidores iniciantes", diz Ricci.
A caderneta de poupança não está entre os produtos mais indicados por causa da baixa rentabilidade, hoje em 0,5% ao mês mais a variação da TR (Taxa Referencial), próxima a zero.
Já para clientes arrojados ou com maior familiaridade com o mercado financeiro, aportes recorrentes na renda variável podem ser uma forma de alavancar ganhos e, principalmente, mitigar a volatilidade de um determinado produto, como uma ação. Ao investir com frequência em um mesmo produto, o cliente o compra em momentos diferentes — ora mais valorizado, ora desvalorizado — e, assim, consegue fazer uma média de preço no longo prazo.
Perfis moderados podem apostar na combinação das duas cestas. A sugestão é que mais da metade dos aportes mensais seja programada em produtos de renda fixa, a fim de diminuir o risco de prejuízos, e o restante seja usado para aproveitar oportunidades de mercado.
Mas é preciso ter cuidado com as aplicações programadas. Um ponto de atenção é garantir que o investimento não comprometa outras contas básicas, como aluguel, e que o dinheiro esteja em conta antes do débito, evitando a entrada do cliente no cheque especial.
Por isso, a recomendação é datar o investimento para o dia em que a renda do cliente, seja ele trabalhador formal ou autônomo, irá pingar na conta.
Outro cuidado é revisitar o investimento no mínimo uma vez ao ano. "Muita gente diz que programa o investimento para — esquecer que ele existe. O objetivo não é esquecer, é não deixar de fazer. Você precisa ver se ele ainda está dentro do seu padrão econômico, se ainda é interessante, o quanto rendeu, o quanto está alinhado com o seu perfil e objetivo", diz.
Por Tamara Nassif (Folhapress)