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Falta de integração complica deslocamento na RMC

Por Raphaela Cordeiro

Morar em uma cidade e trabalhar em outra é uma realidade para milhares de pessoas na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Municípios do entorno concentram moradores que se deslocam diariamente até Campinas em busca de emprego, estudo e serviços, tornando o transporte intermunicipal parte essencial da rotina da região.

Apesar disso, a falta de integração entre os sistemas de transporte público, aliada à escassez de informações claras ao usuário, tem tornado esse deslocamento mais complexo. Tarifas diferentes, cartões distintos e regras que variam conforme o local de embarque estão entre os principais fatores que impactam diretamente quem depende dos ônibus para circular entre as cidades.

Essa realidade foi vivenciada pela própria autora desta reportagem, jornalista recém-transferida da TV Correio da Manhã, em Petrópolis (RJ), para o Correio da Manhã Estado de São Paulo, em Campinas. Morando em Valinhos e trabalhando em Campinas, os primeiros dias de deslocamento entre as duas cidades evidenciaram, na prática, a dificuldade enfrentada diariamente por milhares de trabalhadores da região para entender quais ônibus utilizar, quais cartões são aceitos e qual tarifa é cobrada em cada situação.

Valinhos como exemplo

O trajeto entre Valinhos e Campinas é atendido por diferentes linhas intermunicipais que fazem o percurso nos dois sentidos ao longo do dia. Embora o deslocamento seja curto, o funcionamento do sistema de cobrança varia conforme o ponto de embarque.

Em Valinhos, quem utiliza essas linhas saindo de dentro do Terminal Rodoviário paga a tarifa municipal, atualmente em R$3,70. Esse valor corresponde à passagem do transporte urbano da cidade e não à tarifa real do ônibus intermunicipal.

Por outro lado, quem embarca nessas mesmas linhas em pontos de rua — mesmo que o ponto esteja ao lado do terminal — paga a tarifa intermunicipal, que no trecho Valinhos-Campinas é de R$6,50. Na prática, o mesmo ônibus pode cobrar valores diferentes no mesmo trajeto, dependendo exclusivamente do local de embarque.

Por que a tarifa é mais barata?

Embora essas linhas sejam intermunicipais e tenham tarifa definida pela ARTESP, quem embarca dentro do Terminal Rodoviário de Valinhos paga a tarifa municipal porque o espaço funciona como uma área tarifária do sistema urbano da cidade.

Ao acessar o terminal, o passageiro passa pela catraca do transporte municipal de Valinhos e paga a tarifa local. A partir desse ponto, ele pode embarcar em qualquer ônibus que opere ali, inclusive os intermunicipais, que são mais caros. Fora do terminal, essa lógica não se aplica, e vale a tarifa integral da linha intermunicipal.

O passageiro não paga a diferença entre os valores. A compensação ocorre dentro dos acordos operacionais e do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão, envolvendo município, Governo do Estado e empresas operadoras, sem cobrança posterior ao usuário. Embora o modelo acabe sendo mais vantajoso para quem conhece o sistema, ele gera confusão para novos moradores, trabalhadores e turistas, já que o critério de cobrança não está claramente explicado ao público.

Sistemas e tarifas diferentes

O deslocamento entre Valinhos e Campinas envolve três sistemas distintos, cada um com regras próprias de operação e bilhetagem: o transporte municipal de Valinhos, operado pela SOU Valinhos (cartão SOU Valinhos); o transporte intermunicipal, sob responsabilidade da antiga ARTESP (cartão BUS ); e o transporte municipal de Campinas, administrado pela prefeitura por meio da EMDEC/Transurc (cartão Bilhete Único).

Essa fragmentação exige que o passageiro compreenda não apenas o trajeto, mas também qual sistema está utilizando em cada etapa do deslocamento e qual cartão é aceito naquele ponto específico, o que nem sempre é claramente informado. Caso não queira pagar em dinheiro, o passageiro precisará de, pelo menos, dois cartões, um para os ônibus municipais e outro para os intermunicipais. No caso de Campinas, a tarifa municipal não pode ser paga em dinheiro, sendo necessário um terceiro cartão.

Reajuste na tarifa

Desde o dia 6 de janeiro, entraram em vigor os novos valores das tarifas do transporte intermunicipal metropolitano na região de Campinas. Os reajustes foram definidos pelo Governo do Estado com base em critérios contratuais, considerando custos operacionais como combustível, manutenção da frota, pedágios e despesas com pessoal. Mesmo com o reajuste, quem embarca nos ônibus intermunicipais dentro do Terminal de Valinhos, por exemplo, continua pagando R$3,70, valor referente à tarifa municipal. A regra beneficia o usuário, mas reforça a sensação de incoerência no sistema, já que a tarifa aplicada não corresponde ao valor real da linha fora do terminal.

Em Valinhos, o acesso ao transporte municipal também apresenta particularidades. Apesar de o cartão da SOU Valinhos ser gratuito, ele não pode ser solicitado presencialmente no Terminal Rodoviário. O pedido deve ser feito por meio de atendimento via WhatsApp, e o usuário precisa aguardar retorno para dar início ao processo de emissão. Somente após a liberação o cartão pode ser retirado no terminal. Enquanto isso, passageiros que dependem do transporte diariamente precisam recorrer ao pagamento avulso da tarifa municipal ou administrar diferentes cartões para conseguir completar o trajeto entre Valinhos e Campinas. Isso significa sair de Valinhos, sentido Campinas, pagando R$3,70 e retornar de Campinas para Valinhos pagando R$6,50.

Realidade dos trabalhadores

Com o custo de vida mais elevado em Campinas, morar em cidades do entorno se tornou uma alternativa comum para trabalhadores da região, seja por questões financeiras, de segurança ou qualidade de vida. Ainda assim, a mobilidade regional segue sendo um desafio cotidiano.

Segundo Ayrton Camargo e Silva, ex-presidente da EMDEC, o problema está ligado à ausência de uma gestão metropolitana efetiva. "Falta um modelo de gestão compartilhada de poder, que construa coletivamente a solução em função de algo comum entre os municípios. E que utilize melhor os recursos que estão disponíveis" Para ele, a fragmentação administrativa se reflete diretamente no bolso e na rotina do usuário. "No fim, você vai pagar diversas tarifas já que existem diversos sistemas diferentes na mesma região. O gestor não se vê como usuário, por isso ele não entende esse problema."

Enquanto não há integração plena entre os sistemas municipais e metropolitanos, passageiros continuam lidando com múltiplos cartões, tarifas distintas, canais de atendimento fragmentados e informações pouco padronizadas — uma realidade que se repete diariamente para quem cruza os limites entre cidades para trabalhar.

Referência de outros modelos

A dificuldade de adaptação ao sistema de transporte da Região Metropolitana de Campinas também se explica por experiências em outros estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, o transporte público é amplamente integrado por meio do RioCard Mais.

Com um único cartão, o passageiro pode circular por diferentes cidades e modais, tendo a tarifa descontada conforme o transporte utilizado. A inexistência de um sistema semelhante de integração plena na região de Campinas amplia a sensação de desorientação, especialmente para quem chega de fora e não está familiarizado com a fragmentação entre os sistemas municipais e intermunicipais.

"A Região Metropolitana têm problemas comuns e interdependências de especificidades. Num país de quinto mundo, não existe uma estrutura de gestão madura e compatível para administrar esses problemas comuns. O problema não é a falta de dinheiro, os cofres municipais tem dinheiro. Mas ele é gasto sem planejamento", afirmou o ex-presidente da EMDEC.

Em nota, a ARTESP informou que as linhas intermunicipais entre Valinhos e Campinas possuem integração tarifária conforme o local de embarque. Essa é uma prática adotada há vários anos e definida por convênios firmados entre o governo e o município. A aplicação da tarifa municipal para embarques realizados no Terminal de Valinhos tem o objetivo de favorecer a integração dos sistemas e ampliar o acesso da população ao transporte. A agência informou que abriu processo de revisão e reavaliação dos convênios das integrações.