Domingo à noite, sob um frio de 12 graus, corações cariocas que pulsavam em Gramado deram um solavanco diante do retrato das aves de rapina de nossa cidade levado à serra gaúcha por Douglas Soares em sua estreia na direção de longas-metragens de ficção: "Papagaios". Toda vez que Leo Jaime entrava em cena, atacando de ator (e mandando benzão) numa interpretação de si mesmo, os olhares da plateia do Palácio dos Festivais não tinham outro foco. Dizem até que o Kikito de Melhor Coadjuvante será dele - merecidamente, a julgar pelo que já se viu.
O desempenho deste cantor, compositor (e ator) é um dos muitos acertos desse concorrente que expõe carências morais do Rio em relação a um de seus patrimônios (outrora) mais louvados: a televisão. Como título dá a entender, é uma trama sobre "papagaios de pirata", aquela turma que adora um holofote nas coberturas dos telejornais. Esse papel cabe a um Gero Camilo em ponto de bala. A partir de seu personagem, Tunico, o festival mais popular do país entendeu como a mídia enfeitiça e como seus feitiços produzem abutres. O bonito foi ver uma reflexão tão madura nascer da première de um diretor de veia autoral, que carrega ecos de "O Rei da Comédia" (1982), de Martin Scorsese.
"Esse filme se passa numa época que a gente não diz qual é, para que o público pudesse sentir um tempo em transição, onde a televisão ainda está num lugar de potência que depois foi roubado pela internet, pelas redes sociais, mas é um mesmo Brasil, que é muito midiático", diz Douglas Soares, conhecido antes por curtas como "Contos da Maré" (2013) e pelo .doc "Xale", de 2016.
Vitaminado pela montagem de Allan Ribeiro, que alterna humor e suspense com um grau de humanismo similar ao já citado cult de Scorsese com Jerry Lewis e Robert De Niro, "Papagaios" acompanha Tunico (Gero) com problemas de saúde, mas ainda empenhado em correr atrás de flashes. Vai a enterros para os quais não é chamado, caça tragédias que atraem repórteres e se assanha todo ao saber de uma homenagem a Leo Jaime nas cercanias de Curicica. Esse tributo ao cantor ocorre no momento em que ele acolhe um jovem sem eira nem beira, Beto (Ruan Aguiar), em seu lar, fazendo dele uma espécie de Robin para sua Gotham City da Zona Oeste. Só não contava com o caráter torto do rapaz. Beto chega a seduzir o motorista de Leo, Clau (papel do diretor teatral Erneto Piccolo, em firme atuação), para ter o que almeja.
Antes de "Papagaios", no sábado, Gramado viu "Nó". Primeiro dos seis concorrentes ao Kikito de longas de ficção a cruzar o Palácio dos Festivais em 2025, o drama dirigido por Laís Melo desata as incongruências do capitalismo ao se instaurar (e bem) numa genealogia lusófona recente que inclui as produções anglo-portuguesas "On Falling", de Laura Carreira (prêmio de Melhor Direção em San Sebastián, em 2024) e "Listen", de Ana Rocha (que ganhou cinco prêmios no Festival de Veneza, em 2020). São longas centrados na opressão de mulheres em ambientes laborais. Sua protagonista (e coautora do roteiro com Laís), a atriz Saravy (antes chamada Patrícia Saravy), deslumbrou a serra gaúcha com seu minimalismo.
Glória, sua personagem, é operária numa fábrica de alimentos, que faz aqueles pipocões doces do saco rosa. Tem três filhas, tem amizades fidelíssimas e tem fé no Santo, batendo cabeça pras entidades que lhe abrem caminho, no Paraná. Mudou para o Centro, com o intuito de dar às suas meninas uma vida melhor, próxima da escola. No emprego, ela engata em um processo seletivo que pode lhe assegurar um aumento... de tarefas e de salário. Tudo parece bem, mas parecer e ser... na linhagem de filmes em que Laís insere sua bela longa... não são sinônimos. Há um ex-marido chato... abusador... que almeja a guarda da prole de Glória. Na labuta, essa potencial promoção, que depende de uma escolha da chefia, cria desavenças entre e náuseas afetivas. A toxicidade está no ar que essa mãe coragem respira.
O notável desenho de som de Tulio Borges permite que os silêncios de Glória se agravem na percepção da plateia, da mesma forma como exponencia a majestade de sua gargalhada com prazeres fugazes, na cervejinha com suas camaradas, na alegria de ver a dedicação da filha às provas de Física. Nos enquadramentos, a fotografia de Renata Corrêa jamais carrega nas tintas, para não resvalar no melodrama, e deixar a centelha neorrealista da dramaturgia vingar sem excessos.
Nesta terça, a disputa oficial de longas de Gramado segue via DF, com "A Natureza das Coisas Invisíveis", que Rafaela Camelo exibiu na Berlinale, em fevereiro, na seção Generation. Em seu enredo, conduzido com serenidade, a menina Glória, de 10 anos (vivida por Laura Brandão), acompanha a mãe, a enfermeira Antônia (Larissa Mauro), no trabalho, em um hospital. A garota já conhece o local e costuma explorá-lo sozinha. Um dia, ela conhece Sofia (Serena), da mesma idade, que está lá por causa de sua avó, uma curandeira espiritual que sofre de Alzheimer. Uma relação de cumplicidade vai nascer ali. Na sequência, na seleção de curtas rola a produção carioca "Samba Infinito", de Leonardo Martinelli, que levou Gilberto Gil (como ator) à telona da Semana da Crítica de Cannes, em maio.
Gramado, encerra suas atividades neste sábado, dedica parte da noite desta terça a um tributo à atriz Marcélia Cartaxo, estrela de "A Hora da Estrela" (1985) e "Pacarrete" (2019). Ela recebe o troféu Oscarito, honraria simbólica destinada a profissionais que redesenharam a brasilidade no cinema.