As contas externas do Brasil pioraram em março, mas ainda sem sinal de risco imediato para a economia. Dados divulgados pelo Banco Central mostram déficit em transações correntes de US$ 6 bilhões (R$ 30 bilhões) no mês, acima do resultado negativo de US$ 2,9 bilhões (R$ 14,5 bilhões) registrado em março de 2025. Mesmo com a piora, o país segue amparado por reservas internacionais elevadas e pela entrada de investimento estrangeiro direto. Esses valores consideram cotação aproximada de R$ 5,00 do dólar.
Nos 12 meses encerrados em março, o déficit em transações correntes somou US$ 64,3 bilhões (R$ 321,5 bilhões), o equivalente a 2,71% do Produto Interno Bruto (PIB). O nível ainda é considerado administrável, principalmente porque o Brasil continua recebendo recursos externos de longo prazo.
Exportações x Importações
A principal mudança em relação ao ano passado veio da balança comercial. O saldo positivo de bens caiu de US$ 7,2 bilhões (R$ 36 bilhões) para US$ 5,6 bilhões (R$ 28 bilhões). As exportações cresceram 9,5%, chegando a US$ 31,7 bilhões (R$ 158,5 bilhões), mas as importações avançaram ainda mais, 19,9%, e somaram US$ 26,1 bilhões (R$ 130,5 bilhões).
Gastos com serviços
Também pesaram no resultado os gastos com serviços. O déficit nessa conta subiu para US$ 4,8 bilhões (R$ 24 bilhões), puxado por maiores despesas com viagens internacionais, tecnologia, transporte e uso de propriedade intelectual.
Lucros enviados pra fora
Outro fator de pressão foi a conta de renda primária, que inclui remessas de lucros, dividendos e juros ao exterior. O déficit chegou a US$ 7,4 bilhões (R$ 37 bilhões) em março, acima dos US$ 6,3 bilhões (R$ 31,5 bilhões) de um ano antes.
Investimento estrangeiro
Apesar disso, o investimento direto no país continuou forte. Entraram US$ 6 bilhões (R$ 30 bilhões) em março e US$ 75,7 bilhões (R$ 378,5 bilhões) no acumulado de 12 meses, o equivalente a 3,18% do PIB. Como esse valor supera o déficit externo, o país depende menos de capital de curto prazo.
Reservas internacionais
As reservas internacionais fecharam março em US$ 362 bilhões (R$ 1,81 trilhão), mesmo após queda no mês. Esse volume é visto como uma proteção importante em momentos de instabilidade no câmbio ou no mercado global.
Para o professor de Economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, essa piora no cenário externo merece atenção, mas ainda não configura um risco imediato para a economia brasileira. "O déficit em transações correntes praticamente dobrou em relação ao ano anterior porque as importações cresceram mais do que as exportações, e porque houve um aumento significativo tanto nos gastos com serviços quanto nas remessas de lucros para o exterior. E que esse movimento está ligado ao ciclo global " - explicou.
"O déficit acumulado em 12 meses — equivalente a 2,71% do PIB — permanece em um nível administrável, considerando padrões internacionais. Países começam a sentir maior vulnerabilidade quando ultrapassam a faixa de 4% a 5%. Além disso, vale reforçar que o Investimento Direto no País continua robusto, superando o próprio déficit externo e reduzindo a dependência de capital volátil. Da mesma forma, as reservas internacionais, atualmente acima de US$ 360 bilhões, funcionam como um seguro importante contra choques externos." - completa Silva.