Por: Martha Imenes

Crise no Oriente Médio dispara petróleo e ameaça economia brasileira

Ofensiva dos EUA e Israel que matou lideranças iranianas provoca uma onda de instabilidade | Foto: U.S. Navy, Public domain, via WC

A ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, no final de semana, que matou lideranças iranianas – como o aiatolá Ali Khamenei, além de chefes militares –, provoca uma onda de instabilidade nos mercados globais. O petróleo tipo Brent iniciou o dia em alta de 5,87%, a US$ 76,53, e às 18h32, estava em US$ 78,33, o dólar ganhou força e os reflexos já chegam ao Brasil, que importa parte dos derivados de petróleo, o que pode significar pressão direta sobre os preços da gasolina e do diesel no mercado interno. A Petrobras, entretanto, ainda não se pronunciou.

A expectativa é que se o preço internacional do petróleo disparar por causa de bloqueios no Estreito de Ormuz, a Petrobras terá de decidir entre: o repasse integral (aumentar os preços conforme a paridade internacional, o que encarece gasolina e diesel no Brasil) ou a suavização (segurar parte do impacto, como já fez em outros momentos, para evitar pressão inflacionária e desgaste político).

Especialistas alertam que o risco maior para o Brasil está em uma guerra prolongada, capaz de comprometer exportações e frear o crescimento econômico brasileiro. 

César Queiroz, especialista do mercado financeiro e CEO da Queiroz Investimentos e Participações, chama atenção para os reflexos do conflito no mercado financeiro: "Quando a mesa de negociação é abandonada e o cenário evolui para confronto bélico, o que acontece é aumento da incerteza – e mercado não gosta de incerteza", e pontua que "sempre que os EUA entram diretamente em conflito armado, há maior volatilidade e pressão negativa nas bolsas.”

Ele avalia que "ainda é cedo para conclusões definitivas. Se houver retomada das negociações, o impacto pode ser contido. Se houver prolongamento, o mercado tende a permanecer mais nervoso" e explica a pressão sobre o dólar. Segundo o especialista, "em momentos de crise, investidores buscam ativos considerados seguros, e a moeda norte-americana tende a se fortalecer frente ao real" – a moeda estadunidense abriu a segunda-feira (2) cotada a R$ 5,15. No fechamento a moeda ficou em R$ 5,16.

Inflação

Com combustíveis mais caros e câmbio desfavorável, a inflação deve ser impactada e ganhar força. O impacto é sentido no transporte e na logística, refletindo nos preços de alimentos e produtos básicos. O Banco Central pode ser obrigado a manter os juros elevados por mais tempo, dificultando crédito e investimentos. A autoridade monetária ainda não se pronunciou sobre o conflito.

Especialistas alertam que, se o conflito se prolongar, o Brasil enfrentará desafios maiores como a redução da demanda por commodities, afetando exportações do agronegócio e da mineração.

Especialista alerta para efeitos sistêmicos

O ataque contra o Irã, somado ao precedente da remoção de Nicolás Maduro do poder na Venezuela, pode desencadear efeitos sistêmicos na ordem internacional. A avaliação é de João Alfredo Lopes Nyegray, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Segundo Nyegray, o debate vai além da dimensão militar imediata. “Quando grandes potências recorrem ao uso da força sem autorização clara de mecanismos multilaterais, o impacto ultrapassa o teatro de operações. A mensagem transmitida é que as normas podem ser relativizadas conforme o poder do ator envolvido”, afirma.

O professor alerta para um risco indireto: países com disputas territoriais ou agendas revisionistas podem interpretar tais ações como sinal de enfraquecimento das barreiras jurídicas e políticas que historicamente limitaram o uso da força. “Não é um ‘sinal verde’ explícito, mas uma erosão gradual da percepção de custo político. Em ambientes de competição estratégica, percepções são determinantes”, destaca.

No campo econômico, os efeitos não se limitam ao petróleo. “Conflitos dessa natureza elevam o prêmio de risco global, pressionam cadeias logísticas, encarecem seguros marítimos e impactam decisões de investimento. A consequência é uma fragmentação econômica ainda mais acentuada, com aumento do custo de capital para mercados emergentes”, observa.

Apesar dos riscos, Nyegray ressalta que ainda existem freios institucionais relevantes — como interdependência econômica, alianças regionais e mecanismos diplomáticos — que dificultam uma liberalização total do uso da força.

No entanto, alerta que a repetição de precedentes pode alterar cálculos estratégicos no médio prazo. “Geopolítica é, em grande medida, gestão de expectativas. Se a percepção global for de que as normas são flexíveis para alguns e rígidas para outros, o sistema tende a se tornar mais volátil e menos previsível. E volatilidade sistêmica tem custos econômicos e políticos que ultrapassam qualquer fronteira regional”, conclui.