Em 2025, o governo brasileiro desembolsou pela primeira vez na história R$ 1,5 trilhão em juros da dívida pública, um valor que corresponde a cerca de 8% a 9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Segundo dados do Tesouro Nacional e do Banco Central, o gasto com juros variou entre 7,9% e 8,9% do PIB, dependendo da metodologia utilizada.
O impacto foi direto sobre o endividamento bruto, que encerrou o ano em 78,7% do PIB.
Entre os fatores que explicam o salto estão:
- Taxa Selic elevada, mantida em torno de 15% durante boa parte do período.
- Déficit primário persistente, que ampliou a necessidade de financiamento.
- Crescimento contínuo da dívida e maior demanda por rolagem de títulos.
Comparação internacional
O peso dos juros no Brasil é um dos maiores do mundo. Enquanto os Estados Unidos gastaram cerca de 2% do PIB em juros em 2025, a Itália registrou 4% e o Japão apenas 1%, apesar de sua dívida colossal. O contraste evidencia o custo alto do endividamento brasileiro.
Especialistas alertam para uma armadilha: com juros tão elevados, o governo precisa emitir mais dívida apenas para pagar credores, alimentando um ciclo difícil de romper. Além disso, o espaço para investimentos em áreas como saúde, educação e infraestrutura fica cada vez mais restrito. A dependência da política monetária é outro ponto crítico — qualquer ajuste na Selic tem efeito imediato sobre as contas públicas. Procurados, o Ministério da Fazenda e o Banco Central não se manifestaram.
Estoque total da dívida
O estoque da Dívida Pública Federal encerrou 2025 em R$ 8,635 trilhões, dentro dos limites estabelecidos (entre R$ 8,5 trilhões e R$ 8,8 trilhões para o ano), conforme fixado na revisão do Plano Anual de Financiamento, em setembro do ano passado. O valor representa aumento, em termos nominais, de 1,82% sobre o estoque registrado ao final de novembro (R$ 8,480 trilhões), e de 18% sobre o estoque do final de 2024 (7,316 trilhões). A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) encerrou 2025 em R$ 8,309 trilhões, ante R$ 8,165 trilhões, em novembro passado, e R$ 6,966 trilhões, ao término de 2024, conforme informações do Tesouro Nacional, em entrevista na qual foram apresentados o Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026 e o Relatório Anual da Dívida (RAD) de 2025.
"Os indicadores ficaram dentro dos limites, após a revisão do PAF, fomentada pela boa demanda do mercado", apontou Ceron. Ele destacou o equilíbrio da distribuição da dívida por indexadores, todos dentro das bandas planejadas: prefixados (22%), índice de preços (25,9%), flutuantes (48,3%) e câmbio (3,8%). Foi um ano em que o nosso grande desafio era manter ou reduzir pouco a composição de prefixados e não deixar que taxa flutuante aumentasse demais. Essa foi a grande conquista que tivemos", explicou o secretário do Tesouro, Rogério Ceron.
"No ano passado conseguimos ter uma gestão mais equilibrada na emissão dos indexadores da dívida; com um bom balanço em todas as opções que foram postas", disse o subsecretário da Dívida Pública, Daniel Cardoso Leal, ao ressaltar que foi suprida de forma eficiente a missão de atender as necessidades de financiamento do governo sob a melhor equação entre custo e risco.
Projeções para 2026
O PAF 2026 estabelece limites para a evolução da Dívida Pública de 2026: entre o mínimo de R$ 9,7 trilhões e o máximo de R$ 10,3 trilhões, considerando o estoque no final do ano. Para este novo exercício, o Tesouro aponta a possibilidade de aumento da participação dos títulos prefixados; expectativa de estabilidade na composição de títulos com juros flutuantes; além de estrutura de vencimentos com baixa participação de dívida no curto prazo.
O plano projeta uma necessidade líquida de financiamento de R$ 1,677 trilhão para 2026. Esse valor decorre, segundo o Tesouro, dos vencimentos da dívida interna, que totalizam R$ 1,538 trilhão — a parcela mais significativa da DPF. A esse montante somam-se os vencimentos da dívida externa em poder do mercado e os juros da carteira do Banco Central, que, por determinação legal, não podem ser refinanciados.