Aos 24 anos, Duda Santos está no seu terceiro papel de protagonismo em novelas da Globo
Maria Eduarda Santos Domingues estava com os nervos à flor da pele quando entrou nos Estúdios Globo, em Jacarepaguá. A sensação só aumentou após ela se ver cercada por atores oriundos das melhores escolas de teatro da cidade. "Já eu não tinha estudado teatro em lugar nenhum. O que eu estou fazendo aqui?"
Ela estava lá para disputar um papel em "Malhação" - a novela adolescente que foi por duas décadas a principal vitrine para os novos talentos da emissora. "Entrei para fazer o teste e pediram que eu escrevesse o meu nome artístico. Escolhi o primeiro que me veio à cabeça." Naquele teste, Maria Eduarda Santos Domingues se tornou Duda Santos, hoje um dos nomes mais requisitados da sua geração na TV.
A atriz de 24 anos está no ar atualmente em "A Nobreza do Amor", novela das 18h. Na trama, ela é Alika, princesa de um reino africano que se vê obrigada a assumir uma nova identidade para fugir de Jendal, vilão interpretado por Lázaro Ramos. É a sua terceira protagonista em menos de três anos.
Em 2024, ela colheu elogios ao viver a Beatriz, de "Garota do Momento" - personagem que unia docilidade, coragem e determinação. O desempenho valeu a ela a indicação de melhor atriz no Seoul Drama Awards, premiação sul-coreana que reconhece as melhores produções da televisão mundial.
Quando foi convidada para protagonizar "Garota do Momento", quase recusou o papel. "Tinha medo de não dar conta de viver uma protagonista. Pensava que não podia estar naquele lugar e que outra pessoa deveria ter sido escolhida." O fascínio pelo roteiro, no entanto, falou mais alto do que as inseguranças. "A gente precisava contar aquela história. Durante muito tempo, nos negaram a possibilidade de sonhar. Mas o sonho também é nosso direito."
A personagem principal confrontava os preconceitos do Rio de Janeiro da década de 1950 ao se tornar garota-propaganda de uma das maiores fábricas de sabonete do Brasil. É uma história que subverte o passado de um país que durante anos excluiu a população negra da publicidade.
"As pessoas têm direito de ligar a televisão às 18h e tirar um pouco os pés da realidade. Acho que o mais importante de tudo é se ver na televisão e sentir que o presente é possível", diz Santos. "Se essas novelas tivessem existido quando eu era pequena, teriam me poupado muitos anos de terapia."
Na trama, porém, nem tudo era cor-de-rosa. A heroína se via diante de embates raciais, problema que Duda enfrentou também na realidade.
Nascida na Vila da Penha, a atriz estudou numa escola particular em que era uma das poucas alunas negras. "Houve momentos muito cruéis. Eu não era parte daquele espaço", diz ela, acrescentando que era preterida pelos colegas. "Quando começou a época do primeiro beijo e dos namoricos, nem passava pela cabeça das pessoas me escolher. Já o meu cabelo era considerado feio, então comecei a usar tranças ainda muito jovem."
Além do racismo na escola, ela carregava outro fardo em casa. Diante do preconceito por sua mãe ter engravidado aos 17 anos, Duda diz ter transformado o estigma em motivação para desafiar as expectativas alheias. "Fui criada para ser a filha perfeita, mas entendo que essa era uma forma de a minha família me proteger."
Aos 16 anos, começou a trabalhar como modelo fotográfica para complementar a renda dentro de casa, ofício que levou a jovem para a teledramaturgia.
Em 2019, produtores de elenco a chamaram após terem visto imagens suas em uma agência de talentos. Na mensagem, eles a convidavam para participar de um teste para "Malhação".
Sem experiência como atriz, ela ficou surpresa quando passou na seleção para viver a estudante Paula. A alegria, porém, não durou muito. Em razão da pandemia, "Malhação" foi cancelada de forma abrupta. "Achei que nunca mais ia conseguir realizar meus sonhos. Ali, eu perdi a esperança."
Aproveitou o período de reclusão para aprimorar a técnica, antecipando-se a possíveis convites. Após fazer figuração em "Amor de Mãe", uma nova chance apareceu em "Travessia", de 2022, novela em que deu vida à Isa, adolescente que via a família desmoronar em razão da dependência digital do irmão caçula.
Depois, Duda encarnou a personagem que se tornou um divisor de águas em sua carreira. À época, ela participou do remake de "Renascer" na pele de Maria Santa, personagem que protagonizou a primeira fase do folhetim. Jovem meiga e ingênua, ela morreu após dar à luz seu filho com José Inocêncio, interpretado na primeira fase por Humberto Carrão.
Em meio à euforia de viver sua primeira protagonista, a artista se viu diante do medo de fracassar. "Um dia antes da estreia, eu falei 'amanhã vão descobrir que eu não sou atriz e que enganei todo mundo.'" Aconteceu justamente o contrário. Sua interpretação foi considerado um dos pontos altos dos primeiros capítulos da trama.
Criada em um lar matriarcal, Duda diz que as figuras femininas de sua família servem de inspiração para construir personagens. "Todo trabalho que eu faço tem um pouquinho de cada uma delas. As mulheres da minha família criaram meninas que são donas de si."
Liberdade e independência, aliás, são predicados de Alika, a princesa de "A Nobreza do Amor". Duda considera que tramas como oferecem um retrato multifacetado sobre as populações negras. "O audiovisual está mostrando que a gente ama, erra, vive vilões e mocinhos", diz a artista. "Quero que meninas parecidas comigo se vejam em qualquer lugar e sejam o que quiserem ser", afirma.