Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Danny Trejo: 'É inacreditável como ainda há muita coisa escondida no mundo'

Danny Trejo | Foto: Divulgação

Cerca de 16 anos depois de sua última passagem por uma prisão, com condenações por tráfico de drogas e pela mutilação de um marinheiro durante uma briga, o hoje octogenário Danny Trejo foi parar num set de filmagem, convocado para ajudar na reabilitação de um integrante da equipe em crise com sua dependência. O longa-metragem em questão: "Expresso Para o Inferno" ("Runaway Train", 1985), que valeu indicações ao Oscar para Eric Roberts e Jon Voight. O russo Andrei Konchalovsky era o diretor. O cineasta foi convencido a oferecer um papel àquele mau encarado e tatuado californiano, nascido em Los Angeles, de origem mexicana, que, depois de sair do xilindró, virou boxeador e voluntário em ações para ajudar dependentes químicos. Daquele trabalho em diante, Danny nunca mais parou de brilhar diante das câmeras.

Ferrabrás nato, foi o cara mau... o bandidão bicho solto... o ícone zapatista... foi de um tudo, em pontas ou papéis de coadjuvante, chegando a ser protagonista, numa obra que arranha uns 465 trabalhos. Há quem dia que ele fez "só" 250 longas, em 41 anos de profissão, incluindo "Living the Dream" (2006), do brasileiro Allan Fiterman, com Marília Pêra (1943-2015) e Dan Stulbach. O Internet Movie Database (IMDB) lista cerca de 460. É mais fácil a cinefilia se lembrar dele pelo cult "Machete" (2010), de Robert Rodriguez, que ganhou uma sequência pirada ("Machete Mata!") em 2013. Atualmente, com muitos trabalhos para tirar do forno, Danny bate ponto na TV, num programa que leva seu nome e passa no canal a cabo History.

Todo sábado, às 22h10, tem. Chama "Mistérios Inexplorados com Danny Trejo". Ele investiga casos inusitados que se passam pelo mundo, entre eles o vazamento de Césio 137 em Goiás, nos anos 1980. O Brasil entra no bolo numa temporada de forte adesão à América Latina, a terra natal do pai do ator, o operário Dionisio Tejo, que também passou pela cadeia.

"Não sei se você conhece meu passado, mas passei muito tempo na prisão, e lá você aprende a não demonstrar medo. Pode estar prestes a acontecer uma rebelião, mas você não pode parecer assustado. Acho que foi aí que aprendi a 'atuar'... ao saber que poderia morrer, mas não podia demonstrar medo", contou o ator numa entrevista via Zoom com o Correio da Manhã, onde explica a importância da televisão em sua vida.

Como se dá o seu processo de preparação para encarnar o posto de apresentador?

Danny Trejo - Acho que apresentar me permite ser eu mesmo. Os diretores sempre dizem: "Não atue". Daí eu digo: "Mas eu sou ator!". E eles: "Não, só seja você". Acho que atuar é fazer as pessoas acreditarem que você não está atuando. E nesse programa não tem atuação. Estou só contando uma história, sendo eu mesmo. Nem preparo muito. Só leio e... pronto!

Como esse conteúdo histórico sobre fatos inexplicáveis alimenta sua curiosidade sobre o que ocorre de mais inusitado na América Latina? Como o senhor se relaciona com o continente?

Eu amo a América Latina, e sempre tem coisa nova sendo descoberta. Da última vez que estive na Cidade do México, fui a uma igreja que já conhecia e, ao lado, tinham acabado de revelar um enorme templo asteca. É inacreditável como ainda há muita coisa escondida no mundo. E isso é o que eu gosto no programa: é algo que adultos e crianças podem ver juntos e se interessar. História foi a única matéria em que eu tirava nota boa, lá na quarta série, com a professora Finley. Ela falava do Rio Amazonas e eu pensava: "O que eu tenho a ver com isso? Estou em East LA!". Eu até zoava ela: "Ensina sobre o rio de Los Angeles!". Aí, 50 anos depois, eu me peguei fazendo o filme "Anaconda" (o original, de 1997) logo no Amazonas... e eu era o único que sabia alguma coisa sobre a região. A J-Lo (Jennifer Lopez), o Ice Cube, todo mundo do elenco ficava perguntando coisas sobre o local, e eu, ali, respondendo. Pensava: "Professora Finley, agora eu sou o inteligente do rolê".

Depois do filme "Machete" (2010), o senhor virou uma espécie de herói. Inclusive existem bonecos com a sua figura nesse cultuado longa. Isso mudou a sua forma de ver a carreira? E quanto de Machete - vigilante que defende a comunidade hispânica - existe em você?

Sempre que eu tentava atuar nesse set, (o cineasta) Robert Rodriguez me dizia: "Só faz do seu jeito". Ele é um diretor brilhante. O mais incrível foi ver, depois da nossa estreia, durante o Halloween, o Dia das Bruxas, várias crianças latinas vestidas de Machete. Não era Superman, não era Batman... era Machete. Aquilo me emocionou. O Robert deu pra gente um herói com quem a gente podia se identificar. A primeira vez em que Robert e eu trabalhamos juntos foi em "A Balada do Pistoleiro" ("Desperado", 1995), e eu nem tinha fala ali. Antonio Banderas, seu protagonista, ainda não era conhecido nos EUA, então todo mundo vinha pedir autógrafo pra mim. E o Robert disse: "Eles acham que você é o astro do filme". E eu respondi: "Eu também acho!". Viramos grandes amigos ali e depois descobrimos que somos primos de segundo grau. Ele já falava de Machete naquela época. Quando fez "Grindhouse" (um projeto de filme duplo de 2007, idealizado com Quentin Tarantino, unindo dois longas, "À Prova de Morte" e "Planeta Terror", e uma série de trailers falsos) colocou uma chamada para aquele personagem, o Machete. Era um trailer de mentirinha, mas tudo que estava ali virou filme depois. Robert já tinha tudo planejado. É um gênio.

"Machete" é a prova de que o senhor é um astro de cinema, mas qual é o papel da televisão na sua formação - como espectador, artista e profissional? A TV é um lugar de trabalho?

Olha, a televisão mudou muito. Quando eu era jovem, tinha programas para crianças e programas para adultos. Hoje está tudo meio misturado. Tem que se tomar cuidado com o que as crianças assistem, pois a violência está em todo lugar — na TV, no cinema. O que eu gosto no History é que a violência ali é histórica. Não é feita pra chocar. Está ali para a gente poder entender a Humanidade. Isso eu curto. As pessoas acham que eu sou violento, mas só sou violento se me provocarem. Fora isso, estou brincando com meus cachorros.