Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Domingos Oliveira presente...e eterno

Glorinha (Priscilla Rozenbaum) e Cabral (Domingos Oliveira) vivem um amor que passa por uma gangorra em 'Separações' (2002) | Foto: Divulgação

TV Brasil exibe na despedida de sua grade cinéfila de 2025 a comédia cult 'Separações', numa espécie de esquenta para a celebração dos 90 anos do realizador e dramaturgo

Perpétuo tanto na arte quanto na saudade da gente, Domingos de Oliveira (1936-2019) inspira várias celebrações em 2026. Tem a comemoração dos dez anos de "BR716", uma dramédia memorialista que lhe rendeu o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado de 2016. Tem a celebração dos 60 anos de seu cult supremo, "Todas As Mulheres Do Mundo", coroado com o troféu Candango no Festival de Brasília de 1966. Tem os festejos (merecidos) de seus 90 anos, a serem completados em outubro, que hão de ser comemorados postumamente com a alegria característica de sua vida e sua obra.

Em meio a essas efemérides todas, a TV Brasil se antecipa e abre brecha, na televisão aberta, para um dos maiores sucessos que o dramaturgo, diretor teatral, ator e cineasta emplacou: "Separações" (2002). Nesta terça, às 21h, numa despedida com status de excelência de um ano no qual ofereceu à população brasileira uma grade cinéfila invejável, a rede pública (e educativa) de TV transmite a história de amor (auto)biográfica que acompanha a luta do multiartista Cabral (Domingos) para reaver o benquerer de Glorinha, papel de Priscilla Rozenbaum.

Dedicada hoje à pesquisa de uma peça teatral sobre Jean-Luc Godard (1930-2022) com José Karini e Felipe Vidal, ela foi companheira de vida e de obra do realizador e é guardiã de seu legado. "Cinco anos depois da separação real, resolvemos escrever o roteiro (que gerou o filme)", conta a atriz, que também é produtora e diretora. "Fizemos a escaleta, cada um com uma versão um pouco diferente do outro, pois a realidade é pura ficção. Fomos indo aos acontecimentos: a cronologia da separação. A tal escaleta: os fatos, pois memória é ficção".

Lançado no Festival de Gramado em 2002, "Separações" ampliou o prestígio de Priscilla ao assegurar a ela o Kikito de Melhor Atriz num ano em que "Durval Discos", de Anna Muylaert, fez a festa na Serra Gaúcha. Suzana Saldanha, destaque no elenco de Domingos, no papel de uma amiga das antigas de Cabral, recebeu o troféu de Melhor Coadjuvante.

"Sempre toquei cinema de ouvido. Penso que o valor de uma obra de arte está diretamente ligado ao benefício prático do espectador. Se o filme te ensina algo que você pode usar dali por diante, ele é bom, muito bom, ótimo, genial", disse Domingos, em sua derradeira entrevista ao Correio da Manhã, ao passar sua trajetória em revista, afirmando ser movido por sentimento de grupo... e pela paixão. "Nada me faz mais feliz do que ver a Priscilla sair premiada".

Coerente com suas palavras, Domingos entrou em erupção em Gramado quando sua estrela foi laureada. O Cabral de "Separações" carrega muito dele. No filme, embora ele seja caidinho por Glorinha (vivida por sua musa e parceira), sofre com a inquietude filosófica de que "amar é querer o bem do outro". Em dado momento, esse querer passa a jogar contra ele, uma vez que o impede de curtir outras vivências. Por isso, ele vive propondo "folga" à sua amada. Em meio a um hiato desses, o casal tromba com o arquiteto Diogo (Fábio Junqueira), que foi aluno de Cabral e tem um romance inacabado na gaveta. O sujeito acaba por flechar o miocárdio de Glorinha, que se afasta do companheiro. Essa ruptura afeta ainda o encenador Ricardo (papel de um hilário Ricardo Kosovski), ex-namorado de Glorinha, que tem um romance com a jovem Maribel (Nanda Rocha); a atriz Júlia (Maria Ribeiro, em exemplar interpretação), filha de Cabral; e Laura (a já citada Suzana Saldanha), confidente do atormentado artista.

"Domingos teve a ideia de comparar a separação ao sofrimento da morte, às cinco fases de um doente terminal. Partiu de um livro que Maria Clara Machado tinha dado pra ele, da (psiquiatra suíça Elisabeth) Klüber-Hoss, chamado 'Sobre a Morte e o Morrer'. Isso fechou a dramaturgia", diz Priscilla. "Depois, ele escreveu o monólogo 'O Homem Lúcido', que fecha o filme, mas não contou a ninguém que era um texto dele. Disse que era um documento achado nas escavações antigas de uma época pré-histórica. Todos acreditaram. Só eu sabia que não. Transformamos toda aquela dor em dramaturgia. Era um roteiro, mas como não tínhamos dinheiro para fazer cinema, pois cinema é caro, fizemos primeiro no teatro, no palco do Planetário da Gávea, que nós construímos e estávamos ocupando na época. Era a nossa casa".

A peça foi um enorme sucesso, como conta a atriz: "Naquela época se lotava teatro com gente sentada na escada. Na sequência, nós nos unimos à produtora Raccord e à Cara de Cão, que adiantaram um dinheiro e filmamos tudo em uma semana, pra valer, na ordem. Montamos desse material uns 15 ou 20 minutos, e com esse trecho de corte entramos em um edital da Petrobras e ganhamos. Baixo orçamento, como sempre. Acho que foi um milhão, na época. Filmamos intensamente o que faltava por mais 21 dias. O filme foi feito no nosso apartamento alugado no Leblon. Lembro do último dia, no bar Garcia & Rodrigues. Começamos quando o restaurante fechou e fomos até a manhã seguinte. Abrimos a champanhe comemorando o aniversário de Glorinha minha personagem. Domingos gritou: 'Viva a Priscila!'. E a câmera foi para os refletores mostrando a filmagem. Tenho a impressão que foi puro jazz".

Lançado comercialmente em janeiro de 2003, "Separações" venceu o Festival de Mar Del Plata, na Argentina, de onde saiu com os prêmios de Melhor Filme e Ator, para Domingos, que viveu com intensidade a fase designada como Retomada (1995-2010) da produção audiovisual do país. Depois de um hiato estimado em 18 anos sem filmar para o cinema, dedicado à TV Globo e aos palcos, Domingos saiu da seca cinematográfica em 1998, com "Amores", vencedor do Kikito de Júri Popular em Gramado que abre uma porteira para pastos verdíssimos onde o realizador carioca viria a semear a essência estética de uma nova fase dramatúrgica. Priscilla esteve sempre ao seu lado nessa travessia.