Teatro

Memória apagada pelo chumbo

Em solo autoral com cinco indicações ao Prêmio Shell, Matheus Macena revisita a morte de Edson Luís para imaginar a vida que a história não registrou

Memória apagada pelo chumbo

Amorte de Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista assassinado pela Polícia Militar no restaurante Calabouço, no Centro do Rio, em março de 1968, tornou-se marco de uma sequência de mobilizações contra a ditadura. A imagem do jovem carregado por outros estudantes atravessou o país e ajudou a deflagrar a Passeata dos Cem Mil.

Mas o que veio antes daquele instante — a família migrante, a pobreza, o analfabetismo, os trabalhos que realizou e as possibilidades de futuro interrompidas — ocupa menos espaço na memória pública. É nesse vazio que Matheus Macena instala "Edson", solo que chega ao Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa nesta sexta-feira (9).

Escrito, dirigido e interpretado pelo artista, o espetáculo não pretende reconstituir os fatos, mas construir ficções possíveis em torno da família Lima Souto. A dramaturgia alterna o dado histórico e a fabulação, aproximando Pai, Mãe, Irmã e Edson de uma experiência mais ampla: a de famílias de trabalhadores de base que, no Brasil, atravessam deslocamento, exclusão e o apagamento de suas próprias narrativas. "Edson" é o primeiro monólogo de Macena e também seu primeiro trabalho em que concentra dramaturgia, direção e atuação.

Macena procurou o que a versão mais conhecida da história deixa de fora. "É inadmissível que a história do jovem assassinado pela ditadura militar e que se tornou o pivô da histórica Passeata dos Cem Mil permaneça sem ser contada", critica.

Para ele, a invisibilidade de Edson Luís também é atravessada por classe, origem e escolaridade: o estudante, vindo de uma família de trabalhadores do Pará, morou no Calabouço e participava de um protesto por melhores condições de alimentação quando foi morto.

A pesquisa começou após o assassinato de Marielle Franco, em 2018. Ao notar que os dois crimes ocorreram em março, separados por 50 anos, o autor encontrou um espelho temporal para investigar permanências do país. "A necessidade de contar a perspectiva e história do Edson se torna urgente, porque é recontando o passado que formulamos um futuro", diz.

A aproximação não equipara trajetórias, mas traz um questionamento sobre quais vidas mobilizam arquivo, comoção e elaboração pública — e quais continuam reduzidas a uma fotografia, um nome ou uma efeméride.

O processo incluiu meses de consulta a periódicos na Biblioteca Nacional, notas de rodapé e reportagens publicadas sob censura. Diante das lacunas, Macena escolheu não simular uma biografia definitiva. "Conforme o processo artístico caminhava, notei que a justiça dos fatos não era suficiente. Era necessário fabular. Afinal, para um espetáculo teatral é através da poesia que se descobre dignidade", explica.

A encenação também evita o peso do depoimento. A direção musical e a guitarra de Pedro Nego atravessam a cena; dança, performance e humor abrem respiros no relato de violência. Essa dimensão híbrida acompanha a trajetória de Macena, que passou por trabalhos da Aquela Cia., como "Caranguejo Overdrive" e "Encantado", antes de vencer o Prêmio Shell de Melhor Ator em 2024 por "Musical Pré-Fabricado".

A reestreia carioca vem depois de temporadas no Rio, em São Paulo e de uma passagem por Buenos Aires, e é acompanhada por cinco indicações ao 37º Prêmio Shell de Teatro: duas para Macena como ator, pelas temporadas carioca e paulista, e outras para dramaturgia, música e cenografia.

SERVIÇO

EDSON

Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa (Rua Prudente de Morais, 824)

De 9/10 a 1/11, sextas e sábados 20h) e domingos (19h)

Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia).