Exaltada pelo Ocidente como símbolo de insubmissão feminina, Sherazade nunca foi nada disso, sustenta a escritora libanesa Joumana Haddad em "Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria". É essa leitura que Carolina Chalita transforma em monólogo no palco do Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ), em curta temporada.
Indicada ao Prêmio APTR, a peça percorre cidades fluminenses em tour e tem dramaturgia assinada pela própria protagonista, direção de Miwa Yanagizawa, direção musical de Beto Lemos e música ao vivo de Maria Clara Valle.
O espetáculo questiona até onde as realidades vividas pelas brasileiras e pelas mulheres árabes se distanciam? No palco, Carolina — que tem ascendência libanesa — narra as confissões de uma árabe enfurecida pela maneira como a mulher é vista por seu próprio povo e pelo olhar preconceituoso do Ocidente.
"Desenvolvemos uma dramaturgia que oferece a possibilidade de investigar as fronteiras entre os olhares árabe e ocidental sobre as mulheres. Joumana Haddad nos apresenta um caminho para a libertação da hipocrisia da cultura patriarcal", conta.
O caminho, na obra de uma das escritoras mais influentes do mundo árabe, passa por uma crítica feroz à personagem de "As mil e uma noites", compilação de histórias populares originárias do Oriente Médio e do sul da Ásia em língua árabe a partir do século IX. Para Joumana, ao ludibriar o sultão com fábulas que maquiam sua transformação, Sherazade não rompe com o sexismo — o perpetua.
"O sultão, que, a cada noite, matava uma virgem de seu reino como vingança por ter sido traído por sua primeira esposa, fica curioso com as fábulas de Sherazade, o que, para o mundo ocidental e para os próprios árabes, significa que a personagem não é submissa. É exatamente isso que Joumana questiona" detalha a atriz, que atua desde os oito anos e já inegtrou companhias como a Amok Teatro e Cia Teatro Esplendor.
Joumana Haddad é poeta, jornalista e ativista de direitos humanos, eleita pela Arabian Business Magazine uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo e citada pela ONG Apolitical entre as 100 pessoas mais influentes na política de gênero. Fundou a Jasad, revista erótica trimestral em língua árabe especializada em artes e literaturas do corpo, o Joumana Haddad Freedoms Center, em Beirute, e, em parceria com o Institut Français do Líbano, o primeiro Festival Internacional de Feminismos do Oriente Médio, lançado em 2020.
Foi a ascendência libanesa que a levou Carolina, em 2013, a assistir a uma leitura dramatizada de uma adaptação do livro assinada por Clarisse Niskier. "Quando acabou a leitura, procurei a Clarisse e disse que, se ela não fosse montar, de fato, o texto, eu me interessaria. Depois de um ano, ela me liberou e procurei a Joumana", revela.
SERVIÇO
EU MATEI SHERAZADE, CONFISSÕES DE UMA ÁRABE EM FÚRIA
Centro Cultural do Poder Judiciário - CCPJ (Av. Erasmo Braga, 115, Centro)
De 6 a 14/10, terças e quartas-feiras (18h)
Grátis, com ingressos no www.sympla.com.br
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