Teatro

Memória, moradia e vida coletiva na Baixada

Indicado ao Prêmio Shell, 'Cabeça de Porco - Retratos de um Território', do Grupo Código, ocupa o Teatro Gonzaguinha

Memória, moradia e vida coletiva na Baixada
O Grupo Código situa suas montagens no território da Baixada Fluminense Crédito: Higor Nery/Divulgaçao

O Grupo Código volta ao Rio com "Cabeça de Porco - Retratos de um Território", espetáculo que articula moradia, memória popular e vida coletiva a partir de experiências ligadas à Baixada Fluminense. A montagem ocupa o Teatro Gonzaguinha, no Centro, até sábado (19). Dirigida e escrita por Juliana França, indicada ao 36º Prêmio Shell de Teatro, na categoria Direção.

A companhia, com 21 anos de trajetória, encena uma obra que toma como ponto de partida uma crença popular: uma cabeça de porco enterrada impediria a prosperidade de um lugar. A imagem abre espaço para uma reflexão sobre precariedade, luta por moradia e os sonhos da classe trabalhadora. Mobiliza a memória do cortiço carioca Cabeça de Porco, demolido em 1893.

No palco, seis atores usam elementos do funk e do forró para acompanhar personagens que procuram erguer algo capaz de resistir ao tempo e à instabilidade numa encenação de poesia, política e afeto que discute os estigmas lançados sobre territórios periféricos. O foco está em processos coletivos de sobrevivência e na capacidade de imaginar outras formas de viver a cidade.

O Grupo Código nasceu em Japeri e soma 13 espetáculos e 67 prêmios. A Baixada emerge como lugar de circulação de saberes, afetos e tradições africanas, indígenas, nordestinas e mineiras, em contraste com leituras que associam a região somente à ausência de infraestrutura ou à violência.

Juliana França construiu a dramaturgia em diálogo com Cecília Ripoll, responsável pela interlocução dramatúrgica, e com o historiador Nielson Bezerra, interlocutor da pesquisa histórica. O trabalho também recorre a referências de Leda Maria Martins e ao Sistema Coringa, desenvolvido por Augusto Boal. A combinação aponta para uma cena interessada na transmissão de memória, na participação e na construção de sentidos a partir de experiências populares.

O espetáculo evita separar música, movimento e texto em compartimentos rígidos. A direção musical é de Bruno W. Medsta, e Camila Rocha assina direção de movimento e preparação corporal. No elenco coletivo, a proposta recorre às expressões populares para pôr em relação passado, presente e futuro. A cena, assim, se organiza como espaço de encontro entre a história social do Rio e as formas contemporâneas de criação produzidas fora de seus circuitos mais centrais.

A indicação de Juliana França ao Shell reforça a visibilidade de uma trajetória vinculada à Baixada. Mais que um selo de premiação, o dado ajuda a situar uma companhia que mantém atividade continuada e chega ao Centro com uma obra cujo tema não trata a periferia como margem simbólica. "Cabeça de Porco" aposta na força de grupos que constroem moradia, festa, linguagem e futuro em condições adversas.

SERVIÇO

CABEÇA DE PORCO

Teatro Gonzaguinha (Rua Benedito Hipólito, 125, Centro)

Até 19/9, quinta a sábado (19h)

Ingressos a partir de R$ 10