Teatro

Tarsila muito além do 'Abaporu'

Claudia Raia volta à cidade com musical que relaciona a pintora, ícone do modernismo brasileiro, às questões de seu tempo

Tarsila muito além do 'Abaporu'

Claudia Raia volta a viver Tarsila do Amaral esta semana no Rio, com sessões até domingo (13) no Vivo Rio. A nova passagem do musical "Tarsila, a Brasileira" teve duas sessões no Theatro Municipal, em agosto, e condensa num palco de grande formato uma vida que o imaginário brasileiro costuma resumir a algumas das telas da pintora paulista como "Abaporu", "A Negra", "Operários" e a paisagem de cores intensas asociadas ao movimento modernista de 1922.

Para Raia, que protagoniza e produz a montagem, a escolha de Tarsila não se limita à homenagem a uma artista consagrada. "Arte e cultura são fundamentais porque carregam nossa história, contam mais sobre nós, sobre nossa identidade coletiva", afirma, ressaltando que a produção usa a biografia da pintora para discutir a imagem de Brasil que ela ajudou a formular. Raia também associa a obra de Tarsila à capacidade nacional de criação e renovação, e à necessidade de revisitar o passado para transformá-lo em matéria nova.

"Tarsila, a Brasileira" acompanha os anos 1920 e 1930, quando a artista circula entre São Paulo e Paris e procura uma pintura capaz de enunciar o Brasil sem a obrigação de parecer europeia. Essa busca, que na história da arte costuma chegar ao público por rótulos como "Pau-Brasil" e "Antropofagia", recebe dimensão biográfica: a artista em meio a amigos, paixões, viagens, disputas e perdas.

O texto e as letras são de Anna Toledo e José Possi Neto, que também assina a encenação e a direção de arte. Guilherme Terra responde pela direção musical. O desenho situa Tarsila no centro de uma narrativa em que a invenção estética não está separada dos afetos nem das condições materiais da vida. O relacionamento com Oswald de Andrade, vivido por Jarbas Homem de Mello, é uma das linhas de força da trama. Ao lado de Anita Malfatti, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, os dois integram o ambiente que ficou conhecido como Grupo dos Cinco, núcleo decisivo para a renovação artística brasileira na Semana de 1922.

Em entrevista ao programa Roda Viva, Raia resumiu a escala do desafio. "A história dela daria para fazer três musicais", disse na ocasião ao falar de levar cinco décadas a uma montagem de duas horas e meia.

Para a dramaturgia atingir esse poder de síntese, a montagem mostra o percurso de uma artista que ajudou a deslocar a pergunta sobre o que o país poderia representar por meio de sua arte. A brasilidade deixa de ser cenário e passa a ser problema, escolha e linguagem.

A segunda parte da narrativa se afasta da aura de celebração que frequentemente envolve a Semana de 22. A Crise de 1929 provoca a perda da fortuna da família; Tarsila enfrenta a ruptura com Oswald, depois de sua aproximação com Patrícia Galvão, a Pagu, e viaja para Moscou. O roteiro acompanha também a mudança de sua pintura, quando as figuras de trabalhadores e a questão social passam a ocupar o primeiro plano. A prisão durante o governo de Getúlio Vargas, sob suspeita de atividade revolucionária após a viagem à Rússia. O percurso de Tarsila se move do brilho dos salões da sociedade para as tensões políticas de seu tempo.

A Tarsila que o espetáculo propõe atravessa sucessos e reveses, a morte da filha e da neta, novas relações e a velhice. O encontro com o jornalista Luis Martins, 24 anos mais jovem, e os últimos anos marcados pela espiritualidade entram como partes de uma vida cuja permanência não se explica somente por uma obra célebre.

Claudia Raia enfrenta uma personagem que exige mais do que a reconstituição de uma figura histórica. Tarsila é apresentada como alguém capaz de se reinventar diante das mudanças do próprio país e das perdas privadas.

SERVIÇO

TARSILA, A BRASILEIRA

Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo)

Até 13/9, sex (21h), sáb (16h e 21h) e dom (19h)

Ingressosa partir de R$ 50 e R$ 25 (meia)