Teatro

Os filhos da decadência industrial

'Querer ficar, mas ter que partir', criação da Cia Cria do Beco, reúne artistas com vínculos com favelas cariocas

Os filhos da decadência industrial
O espetáculo reúne em seu elenco Jeff Melo, Natália Brambila, Anderson Oli e Taty Aleixo, jovens artistas negros, universitários e moradores de favelas cariocas Crédito: Leo Lima/Divulgação

Omovimento de chegada e permanência de trabalhadores no Jacarezinho orienta "Querer ficar, mas ter que partir", espetáculo que estreia nesta quinta (17) no Teatro II do Sesc Tijuca. Idealizada por Natália Brambila, a montagem leva ao palco uma investigação sobre migração, trabalho, pertencimento e as transformações urbanas de um território decisivo para a história industrial da Zona Norte.

A dramaturgia de Pedro Emanuel parte de pesquisas sobre o crescimento do Jacarezinho desde os anos 1960, período em que o Complexo Industrial do Jacaré atraiu pessoas de várias regiões do país. Em torno das fábricas, formaram-se moradias, relações de trabalho, comércio e redes comunitárias. A peça observa o que essa dinâmica construiu e também as marcas deixadas pelo declínio industrial sem, no entanto, reduzir a favela a um retrato de carências.

A memória familiar de Natália entra como um dos fios do projeto. Sua mãe, Elida, saiu de Minas Gerais aos 14 anos para procurar trabalho no Rio e conseguiu seu primeiro emprego em uma fábrica do Complexo Industrial do Jacaré. A experiência atravessa a criação da peça e aproxima a história particular de outras trajetórias de deslocamento que ajudaram a constituir o bairro.

"O fechamento das fábricas, as crises econômicas e o desemprego alteraram profundamente a dinâmica do território, deixando marcas de abandono, pobreza e violência. Mas, para além das perdas, a montagem se interessa pelas formas encontradas pela população para recriar, resistir e produzir novos sentidos para o lugar", afirma Natália. "A cultura surge, assim, como uma das principais ferramentas de reinvenção e afirmação da comunidade", explica.

Realizado pela Cia Cria do Beco, o espetáculo reúne Jeff Melo, Natália Brambila, Anderson Oli e Taty Aleixo, jovens artistas negros, universitários e moradores de favelas do Rio, muitos deles ligados a experiências de migração.

Na encenação, o Jacarezinho aparece como território de memória e de criação. A história da Unidos do Jacarezinho, fundada em 1966 por Dona Andressa Moreira da Silva, integra esse campo de referências, assim como artistas associados ao lugar, entre eles Lacraia, MC Serginho e MC Nem do Jacarezinho. "Estamos preparando um terreno onde a potência da criação é também uma forma de construir território e afeto", destaca o diretor Rei Black, para quem a favela "não aparece apenas como cenário ou lugar de carência, mas como cosmos: um território vivo, complexo, criador de mundos, relações, tecnologias de sobrevivência e modos próprios de existir". A imagem do rio, presente no projeto, funciona como passagem, fronteira e memória, em paralelo aos deslocamentos das personagens.

Com 80 minutos de duração e classificação para maiores de 12 anos, "Querer ficar, mas ter que partir" oferece um recorte de teatro documental e ficcional ancorado em pesquisa, memória familiar e experiência coletiva.

SERVIÇO

QUERER FICAR, MAS TER QUE PARTIR

Teatro II do Sesc Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539)

De 17/9 a 11/10, quinta a sábado (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 30, R$ 27 (sócios Sesc), R$ 15 (meia) e grátis (PCG)