Teatro

Pedras que rolam e se eternizam

Coletivo teatral comemora seus 25 anos de pesquisas cênicas numa ocupação do Sérgio Porto, com encenação de quatro peças, exposição e oficina

Pedras que rolam e se eternizam
O Grupo Pedras pavimentou seu caminho artístico pesquisando gesto, verbo, luz e dramaturgia sob o veio da transcedência Crédito: Divulgação

Encantado pelas progressões aritméticas, geométricas e poéticas da verdade cênica no palco, o Grupo Pedras pavimentou, 25 anos atrás, um caminho para fazer da pesquisa de gesto, verbo, luz e dramaturgia um veio de transcendência. Juntou uma patota pelo caminho: Adriana Schneider, Anna Secco, Helena Stewart, Georgiana Góes, Camila de Aquino, Diogo Magalhães, Luiz André Alvim e Marina Bezze.

Agora, ao completar um quarto de século de parceria e de invenção, essa companhia carioca organizou uma ocupação artística no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, de 7 a 31 de agosto. Na programação, estão espetáculos, roda de conversa, oficina e apresentação musical, que revisitam diferentes momentos da história do coletivo e mostram uma trajetória marcada pela criação colaborativa, pesquisa cênica e maneiras inovadoras de interação com o público.

As atrizes e os dois atores se desdobram em várias funções além da atuação. O grupo apresentará quatro espetáculos: os adultos "Céu de Agora" e "Restin" e os infantis "Rosa e a Floresta" e "Rosa e a Semente". Haverá também as exposições "Pedras 25 anos", com objetos que recontam a história do grupo, e "Esplêndidas", de Luciana Grether, e o show Bailecito pelo grupo Gesta.

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Georgiana Góes em 'Céu de Agora' | Foto: Pedro Martins/Divulgação

"O grupo foi construindo uma identidade estética que se desenvolve na maneira em como a gente se relaciona com o público. A companhia se propõe a fazer um espetáculo 'com' e não 'para' o público", explica Georgiana Góes. "No primeiro espetáculo, que foi o 'Restin', a gente se relacionava de uma forma muito próxima porque foi feito num casarão em que o público ficava espalhado por nichos, muito próximos à cena. Na segunda peça, 'O Muro', a plateia era dividida por um muro que era construído no reino do mar sem fim. A gente brincava com a ilusão do público, usando teatro de bonecos, então, já era uma forma em que a plateia continuava a criar as imagens para contar essa história".

A atriz lembra que, em "Mangiare", três grandes mesas eram postas no palco e as cenas se desenrolavam em volta. Já "Incomum" tinha uma cena de um escalda-pés, por exemplo, em que o público também dava o seu depoimento.

"Os nossos infantis foram feitos para a rua, também com uma relação do ator muito próxima ao público. O teatro acontece ali à distância de um braço. 'Céu de Agora' foi criado, inicialmente, como um espetáculo itinerante, em que o público também é convidado a se deslocar no espaço. Então, temos uma marca dessa relação do ator-espectador. A gente tem essa marca de que o ator é a pedra fundamental do jogo teatral, né? Então, atores, em algumas das peças, também têm essa função de contadores de história. A gente pactua com a plateia: 'agora eu vou contar uma história. Vem comigo!'. Então, tem essa relação de dar o braço para o público se relacionar.

O Pedras é fruto do primeiro governo Lula, em que houve uma mudança na política cultural. "Começamos a ter muitos editais, e nós ganhamos. Os nossos espetáculos todos foram frutos de editais. E isso diminuiu muito de lá para cá, né?", lembra Georgiana. "A gente chegou a ter momentos de muita escassez de edital. Não à toa, a gente também fez dois espetáculos de rua nesse momento. Essa mudança foi, principalmente, no governo Bolsonaro, quando a cultura foi realmente colocada de lado, em que a gente perdeu o Ministério da Cultura e a classe foi muito rechaçada por fake news, por desinformação. Foi muito difícil reverter esse quadro só nesses últimos quatro anos".

O ethos do Pedras na ocupação é a percepção de que o teatro tem poder de transformar pelo encantamento, pela poesia.

"Ele consegue limpar o nosso olhar, sensibilizar o olhar ao redor do mundo. Então, o eixo estético dessas nossas peças tem a ver com essa relação do ator com o espectador", diz Georgiana. "Tudo se conversa entre esses espetáculos".

SERVIÇO

GRUPO PEDRAS: 25 ANOS DE TEATRO

De 7 a 31/8

Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto (Rua Visconde de Silva s/nº, ao lado do nº 292 - Humaitá)

CÉU DE AGORA

De 7 a 24/8, sextas e sábados (20h) e domingos (19h). R$ 70 e R$ 35 (meia)

RESTIN

De 28 a 30/8, sextas e sábados (20h) e domingos (19h). R$ 70 e R$ 35 (meia)

ROSA E A SEMENTE

De 8 a 16/8, sábados e domingos (16h30). R$ 60 e R$ 30 (meia)

ROSA E A FLORESTA

De 22 a 30/8 de agosto, sábados e domingos (16h30). R$ 60 e R$ 30 (meia)