Teatro

A volta do Barão da Ralé

Diretor Jorge Farjalla revela a criação de montagem da 'Ópera do Malandro' que mistura música, teatro e referências da ancestralidade brasileira

A volta do Barão da Ralé
Ópera do Malandro Crédito: Adriano Doria

Faltavam poucos dias para a estreia quando o palco do Teatro Multiplan ainda era tomado pelos ensaios. A orquestra, já afinadíssima, nos últimos ajustes, atores repetiam marcações e o diretor Jorge Farjalla circulava entre o elenco distribuindo orientações, abraços e palavras de incentivo. Foi nesse ambiente, acompanhado com exclusividade pelo Correio da Manhã, que nasceu a nova "Ópera do Malandro"', espetáculo que estreia nesta quinta-feira (6) temporada no Teatro Multiplan Village Mall apresentando ao público uma leitura inédita do clássico de Chico Buarque.

A história acompanha Max Overseas Navalha, contrabandista carismático que mantém um casamento secreto com Teresinha, filha de Duran e Vitória Régia, donos de uma rede de bordéis e ambiciosos comerciantes que sonham em ascender socialmente. Ao descobrir a união, o casal decide destruir o genro, mas acaba preso à mesma rede de corrupção que envolve o delegado Chaves, o Tigrão, parceiro dos negócios ilegais. Entre chantagens, disputas de poder, traições e jogos de interesse, a trama revela um universo onde malandros, prostitutas, policiais e empresários se misturam em uma sociedade sob o signo da contradição.

A montagem celebra quase cinco décadas da obra original, mas o caminho percorrido por Farjalla para chegar até ela começou muito antes. Nascido em 1978, o mesmo ano em que o musical estreou, o diretor conta que cresceu ouvindo as canções compostas por Chico para o filme de Ruy Guerra. "Minha mãe me apresentou esse universo quando eu tinha apenas um ano de idade. Sempre carreguei esse desejo de montar a obra e levá-la para o lugar onde eu acreditava que ela sempre pertenceu: a rua", afirma.

Foi justamente dessa ideia que nasceu uma das principais marcas da montagem. Em vez de apenas transportar a história para os dias atuais, Farjalla construiu uma encenação que dialoga com a cultura popular e incorpora referências às entidades do povo da rua da umbanda. Pombagiras, Exus, Zé Pilintra e outras figuras simbólicas povoam a estética do espetáculo, estabelecendo um diálogo entre a dramaturgia de Chico, a tradição popular e a religiosidade brasileira.

Além das canções presentes na peça original, o diretor incorporou músicas escritas por Chico para o filme, ampliando significativamente o repertório do musical. Também surgem discretas referências contemporâneas que aproximam a narrativa da realidade atual e atualizam a figura do malandro. "O universo marginalizado mudou. Se antes o samba ocupava esse espaço, hoje existem outras manifestações culturais. Eu queria provocar essa reflexão sem abandonar a essência da obra", explica.

Para Farjalla, a força da "Ópera do Malandro" permanece exatamente porque suas contradições continuam atuais. Inspirada em "A Ópera dos Mendigos", de John Gay, e posteriormente recriada por Bertolt Brecht em "A Ópera dos Três Vinténs", a versão brasileira mantém viva uma discussão que atravessa séculos. "A sociedade mudou muito pouco. Mudaram os celulares, a tecnologia, mas a natureza humana continua praticamente a mesma."

Essa visão também aparece na construção dos personagens. Segundo o diretor, não existem heróis nem vilões. "Todos vivem à margem. Não há para quem torcer. Cada personagem carrega suas próprias contradições."

Durante o ensaio acompanhado pela reportagem, outro detalhe chamava atenção: a relação próxima entre o diretor e o elenco. Antes da retomada dos trabalhos, Farjalla reuniu os artistas para agradecer o empenho da companhia. Ele conta que essa forma de conduzir os ensaios nasceu de um ensinamento da atriz Rosa Maria Murtinho. "Ela me disse que um diretor nunca pode ser inimigo do ator. Precisa acolhê-lo. Teatro é ofício, é trabalho, e quem está aqui precisa sentir que faz parte dessa construção."

Com direção musical de Gui Leal, produção da Palco 7 Produções e Solo Entretenimento, e apresentação da Petrobras, a montagem reúne José Loreto e Tiago Barbosa, em alternância como Max, além de Totia Meireles, Carol Costa, Edgar Bustamante, Amaury Lorenzo, Valéria Barcellos e Marya Bravo.

Macaque in the trees
A atriz trans Valéria Barcellos vive Geni em uma interpretação histórica | Foto: Adriano Doria

Antes mesmo de subir ao palco, Geni já carregava uma história de resistência. Personagem criada por Chico Buarque em "Ópera do Malandro", ela atravessou décadas como símbolo da exclusão, do preconceito e da hipocrisia social. Nessa montagem do musical, ganha uma interpretação histórica: pela primeira vez em uma grande produção da obra, uma atriz trans assume o papel. Para Valéria Barcellos, é a realização de um encontro que levou dez anos para acontecer.

"Essa personagem é o personagem da minha vida", afirma a atriz, em entrevista ao Correio da Manhã. "Eu estudo essa personagem há 10 anos para chegar nisso que eu cheguei agora."

A preparação para o papel foi uma imersão que ultrapassou o texto original. Valéria buscou compreender as diferentes camadas da personagem, mergulhando nas referências que deram origem à obra de Chico Buarque. Mais do que reproduzir uma imagem já conhecida pelo público, a atriz quis construir uma Geni humana, com suas contradições e fragilidades. "Eu consigo dizer o que ela significa na minha vida. É uma mudança completamente imensa, de direcionamento de carreira, de coisas. Eu quero trazer uma humanidade para Geni. Uma Geni mais humana, mais próxima das pessoas", explica.

Na visão de Valéria, a força da personagem está justamente na mistura de opostos. Geni é forte e vulnerável, decidida e insegura, alguém que carrega marcas de uma sociedade que muitas vezes rejeita aquilo que depois precisa para sobreviver.

A atriz também destaca a relação entre personagem e experiência pessoal. Para ela, o processo não está apenas em se aproximar de Geni, mas também em conseguir se afastar dela para enxergar novas possibilidades. "É muito doido pensar que eu sou um pouco dela e tenho coisas dela, mas não tenho ao mesmo tempo. Eu coloquei um pouco da minha vivência em tudo isso."

Macaque in the trees
Tiago Barbosa retorna ao país após quatro anos na Europa para interpretar Max Overseas | Foto: Divulgação

Ao lado de Valéria está Tiago Barbosa, que retorna ao Brasil após quatro anos trabalhando na Europa para interpretar Max, papel que divide com José Loreto. Carioca, o ator celebra a oportunidade de voltar à cidade natal justamente com uma obra profundamente ligada à identidade do Rio. "É uma delícia voltar ao Brasil para fazer uma obra brasileira. Depois de tantos anos fazendo grandes clássicos de fora, voltar para o meu país, para a minha cidade, fazendo uma obra como essa, é um grande privilégio", afirma.

Para Tiago, "Ópera do Malandro" possui uma conexão especial com o Rio de Janeiro. A história, ambientada em uma atmosfera de boemia, contravenção e música popular, carrega elementos que remetem diretamente à cidade, especialmente à região da Lapa e às manifestações culturais que formam a identidade carioca. "Acho que a Ópera do Malandro é muito Rio de Janeiro. Ela tem essa cara da Lapa, essa cara da comunidade, essa cara do povo brasileiro", diz.

Na construção de Max, o ator destaca a possibilidade de apresentar um personagem cheio de nuances. Apesar de ser um contraventor, Max não representa apenas a figura tradicional do malandro. Ele conquista pela inteligência, pela palavra e pela capacidade de transitar entre diferentes mundos.

Tiago também ressalta a liberdade criativa da montagem dirigida por Farjalla, que mantém o espetáculo em constante movimento. "Se ele tem alguma coisa que quer modificar, ele vai mudar até o último dia de apresentação. É um olhar que está em movimento."

Para o ator, o público encontrará uma obra divertida, mas também carregada de significado. "É um show leve, mas muito político. É importante. Coloca a mulher em um lugar muito bonito, é inclusivo, tem diferentes corpos e uma galera com muito talento", comenta.

 

Macaque in the trees
Musical fará curta temporada no Teatro Multiplan, somente até dia 30 de agosto, com sessões de quinta a domingo | Foto: Adriano Doria

Inspiração que veio de John Gay e Bertold Brecht

Inspiração que veio de John Gay e Bertold Brecht
Marieta Severo e Otávio Augusto na primeira montagem de 'A Ópera do Malandro' Crédito: Reprodução

Por Affonso Nunes

A "Ópera do Malandro", escrita por Chico Buarque em 1978 e inicialmente dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa pela recém-fundada produtora Teatro dos 4, nasceu de uma conversa com o cineasta moçambicano Ruy Guerra. A ideia era adaptar para o Brasil duas obras que, à época, já formavam uma linhagem: "A Ópera do Mendigo" (1728), de John Gay, e "A Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

A cadeia genealógica começa em Londres, quando John Gay estreou sua obra no Lincoln's Inn Fields Theatre. Tratava-se de uma ballad opera — peça com diálogos falados intercalados por canções populares — que parodiava a ópera italiana importada e, sobretudo, satirizava a política inglesa, com alusões claras ao então primeiro-ministro Robert Walpole. O herói, Macheath, era um bandoleiro charmoso, e a obra enchia os palcos com prostitutas, ladrões e informantes, questionando a fronteira entre criminalidade e a sociedade inglesa.

Duzentos anos depois, Brecht e Weill transformaram o material de Gay numa obra nova, com libreto baseado na tradução de Elisabeth Hauptmann. "A Ópera dos Três Vinténs" deslocou a ação para uma Londres vitoriana e introduziu o aparato do teatro épico brechtiano: distanciamento, canções de comentário, e a crítica marxista à hipocrisia burguesa. Mackie Messer (Mack the Knife) tornou-se símbolo da violência capitalista disfarçada de elegância. A partitura de Weill, com suas referências de cabaré, dizia tanto quanto o texto de Brecht.

Chico Buarque, por sua vez, leva sua dramaturgia para o Rio de Janeiro da década de 1940, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Segunda Guerra Mundial. O bandoleirismo inglês agora é malandragem carioca; a ópera parodiada virou samba, bolero, marchinha... e a crítica à burguesia europeia assume ares de denúncia ao capitalismo burocrático brasileiro e sua modernização entreguista. "O nosso trabalho tem a estrutura da peça de Gay, o enfoque crítico de Brecht, mas é essencialmente brasileiro", disse Chico à época.

A ressignificação é profunda. O casamento que em Gay e Brecht selava a aliança entre crime e polícia torna-se, em Chico, a formalização do contrabando pelo Estado Novo — o casamento de Teresinha com Max Overseas. A figura de Geni, a travesti que "só serve para apanhar", é criação original, sem equivalente direto nas obras anteriores.

O musical usava o passado varguista como espelho da ditadura militar dos anos 1970 — ardil que permitiu a Chico driblar a censura. Quase cinquenta anos depois, a "Ópera do Malandro" segue com sua crítica radical aos valores (ou falta de) da sociedade brasileira.