Africana da Costa da Mina, escravizada e depois liberta, quitandeira em Salvador, Luiza Mahin é símbolo da resistência negra no Brasil escravocrata. O filho que ela perdeu aos sete anos, Luiz Gama, converter-se-ia em um dos maiores abolicionistas da história do país. Em 1880, numa carta ao jurista Lúcio de Mendonça, Gama a recriou ao descrever sua mãe como "suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito".
Em julho de 2025, as pesquisadoras Wlamyra Albuquerque e Lisa Castilho encontraram no Arquivo Público da Bahia documentos inéditos — testamento, escrituras, registro de batismo — que confirmam o vínculo entre os dois. Ao mesmo tempo, os achados lançam nova luz sobre a história: não há evidências de que Mahin tenha participado ativamente da Revolta dos Malês (1835) ou da Sabinada (1837), como a tradição passou a sustentar a partir de um romance de Pedro Calmon, um século depois dos fatos.
Sua prisão, acreditam as historiadoras, teria ocorrido no rastro do levante malê, quando a polícia baiana vivia em estado de alerta permanente, prendendo africanos sob qualquer pretexto. "Não duvidamos que Luiza tenha sido presa", explica Wlamyra. "Mas não há nada que indique que ela tenha lutado nessas revoltas." O silêncio dos arquivos, contudo, não apaga sua figura. Em 2019, Luiza Mahin foi inscrita no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
É essa força simbólica que a atriz Cyda Moreno coloca em cena a partir desta quinta-feira (6) no Teatro Correios Léa Garcia, no Centro. A montagem "Luiza Mahin... Eu ainda continuo aqui" retorna à cidade após cinco anos de circulação por dez cidades paulistas — de Arthur Alvim a Sorocaba, passando pelo Sesc Pinheiros — e por outras seis no interior fluminense. O reencontro acontece em sintonia com o Agosto Lilás, campanha nacional pelo fim da violência contra a mulher.
A dramaturgia de Márcia Santos tece dois fios: a carta de Luiz Gama sobre a mãe e testemunhos verídicos de mulheres que perderam filhos para o extermínio da juventude negra nas periferias brasileiras.
Cyda Moreno é o centro gravitacional da obra. Mineira, doutoranda pela UniRio e mestre em Ensino de Artes Cênicas, construiu trajetória teatral dando vida a figuras de forte densidade histórica e social — a escritora Carolina Maria de Jesus, que revelou as desigualdades das periferias em seus diários, e Nina Simone, símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Na televisão, tornou-se conhecida do grande público como Vó Yara na novela "Dona de Mim", da TV Globo. Leciona numa escola pública da Mangueira, onde desenvolve projetos culturais e educativos. Quando fala da peça, não separa o palco da rua.
"É uma violência contra a mulher negra quando seus filhos são exterminados na periferia", afirma. "Trazer Luiza Mahin de volta ao Rio, após cinco anos, é destacar que essa história não terminou e permanece viva na cidade carioca, sobretudo nos morros e favelas. A personagem simboliza todas as mulheres negras que seguem lutando pela sobrevivência de seus filhos. O que está em cena é o presente do Brasil."
A trajetória da montagem carrega marcas de um percurso deliberado. Nasceu como performance no Festival 2ª Black, em 2020, ainda sob o título "Eu ainda continuo aqui". Em março de 2021, em plena pandemia, estreou como espetáculo completo no Teatro Petra Gold, no Leblon, em formato duplo com "Luiz Gama: Uma Voz pela Liberdade". Na ocasião, dois debates ampliaram o alcance da obra. O primeiro, on-line, reuniu a ativista Jurema Werneck, a dramaturga Leda Maria Martins, a pesquisadora Mônica Cunha e o curador Guilherme Diniz. O segundo, presencial, trouxe Conceição Evaristo, Paulo Lins, Jeferson De, Isabel Fillardis e a historiadora Mônica Lima. Depois, a produção seguiu para o Teatro Laura Alvim e rumou a São Paulo e ao interior fluminense.
O elenco reúne Cyda Moreno, Márcia Santos, Tais Alves, Joe Jonathan e Marcia do Valle como atriz convidada. As vozes dos policiais ficam a cargo de Thelmo Fernandes, Marcelo Escorel e Gedivan de Albuquerque. Deo Garcez dá voz a Luiz Gama. A ficha técnica inclui ainda edição de vídeo de Madara Luiza, fotografia de Cláudia Ribeiro e assessoria de imprensa de Clóvis Corrêa.
A escolha do Teatro Correios Léa Garcia adiciona uma camada simbólica que a própria temporada não precisa anunciar em voz alta. O espaço, fechado desde 2018, foi reinaugurado em janeiro de 2024 com o nome da atriz carioca Léa Garcia (1933-2023), uma das primeiras mulheres negras a romper barreiras na televisão e no cinema brasileiros, ligada ao Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento. A missão declarada da casa é se consolidar como polo de valorização do Teatro Negro e das tradições dos povos originários. Luiza Mahin, que o filho descreveu como formosa e cuja existência a pesquisa recente ajudou a confirmar com documentos de arquivo, encontra ali um espelho do que sempre foi: não uma relíquia do passado, mas uma voz que insiste em ser ouvida — no palco, nos morros, nas periferias. "O que está em cena é o presente do Brasil", repete Cyda. E o presente não espera.
Serviço
LUIZA MAHIN: EU AINDA CONTINUO AQUI
teatro Correios Léa Garcia (Rua Visconde de Itaboraí, nº 20, Centro)
De 6 a 29/8, quinta a sábado (19h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)
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