Teatro

Linguagens cruzadas no palco

2º Festival de Teatro do Rio entra na segunda semana com várias opções

Linguagens cruzadas no palco
Lilia Cabral em cena de 'Rita Lee: A Balada da Louca' Crédito: Cauê Moreno/Divulgação

Se a primeira semana do Festival de Teatro do Rio serviu para afirmar o que o evento quer ser — um retrato do melhor da cena teatral brasileira recente —, a segunda leva, que ocupa os Teatros Riachuelo Rio e TotalEnergies, expande essa pois, mais do que apresentar espetáculos consagrados, a programação desenha um mapa de cruzamentos: entre a literatura e o palco, a música e a memória, o humor e a ferida política.

O palco do Riachuelo recebe quatro montagens que cobrem um espectro notável de registros. Lilia Cabral encarna Rita Lee em "Rita Lee: Balada da Louca", monólogo baseado na segunda autobiografia da roqueira, com texto de Guilherme Samora e direção de Beatriz Barros. Rita nos deixou em 2023, após tratamento contra o câncer.

"Mulher em Fuga", com Malu Galli, traz a primeira adaptação brasileira de Édouard Louis para os palcos. A peça acompanha Monique, mãe do autor francês, em diferentes momentos de vida, gesto literário ao mesmo tempo íntimo e político, que expõe as engrenagens sociais que silenciam mulheres da classe trabalhadora. Louis participa em voz off, numa cena de telefonema.

Fábio Porchat fecha a programação do Riachuelo com "Histórias do Porchat", em sua quinta e última temporada. Depois de 89 cidades brasileiras, 12 países e um emirado, o espetáculo de stand-up se despede dos palcos — ano de virada para o comediante, cada vez mais dedicado a projetos audiovisuais.

Já "A Pediatra" adapta o romance homônimo de Andréa Del Fuego, vencedora do Prêmio José Saramago por "Os Malaquias" em 2011. Debora Lamm interpreta Cecília, uma médica que paradoxalmente odeia crianças — "vilã de humor vil" que problematiza classe, gênero e ética profissional com mordacidade rara. A adaptação e direção são de Inez Viana, e o romance, traduzido para sete idiomas, foi considerado uma das melhores leituras de 2022 pela crítica.

No TotalEnergies, a programação se inclina para a investigação cênica. "Meu Corpo Está Aqui", de Julia Spadaccini e Clara Kutner, parte das experiências de atores e atrizes com deficiência para discutir afeto, desejo e corporalidade — vencedor dos prêmios FITA e APTR e indicado ao Shell, o espetálogo confirma a urgência do tema num circuito que ainda resiste à representação plena.

"O Motociclista no Globo da Morte" leva à cena a espiral de violência que envolve um matemático numa tarde qualquer, numa reflexão sobre as formas de brutalidade que atravessam a vida em sociedade.

"Deserto", primeira encenação brasileira baseada em fragmentos das obras e memórias de Roberto Bolaño, chega triplamente indicada ao APTR e ao Shell, com direção de Luiz Felipe Reis e atuação de Renato Livera. O espetáculo ilumina a jornada criativa do chileno — considerado o maior autor latino-americano da virada do século.

A mostra Nova Cena completa o recorte com duas apostas. "O Dinossauro de Plástico", primeiro solo de Rafael Saraiva, aborda a hiperconectividade e a solidão da Geração Z com humor e leveza. "Aqueles que Deixam Omelas", baseado no conto homônimo de Ursula K. Le Guin nunca publicado no Brasil de forma autônoma, apresenta uma fábula moral sobre uma sociedade utópica que depende do sofrimento de uma criança. O espectador é convidado a perguntar até que ponto seu conforto se sustenta na invisibilidade alheia.

SERVIÇO

2º FESTIVAL DE TEATRO DO RIO

Até 16/8

Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, 38 — Centro) e Teatro TotalEnergies (Rua do Russel, 804 — Glória)

Programação completa: www.festivaldeteatrodorio.com.br

Ingressos pelo site www.ingresso.com