crítica TEATRO | PRA TE VER FELIZ

Samba curativo

Samba curativo

Em 2013 a Cia. Dramática de Comédia, lançou o musical "Quando a Gente Ama", com músicas de Arlindo Cruz, e a trilogia "Dá samba" efetiva seu segundo espetáculo, "Pra Te Ver Feliz", sob a batuta do autor/diretor João Batista, numa produção/realização de Bruno Mariozz, da Palavra Z Produções Culturais. Propugnando uma atmosfera popular, a ótima montagem resgata pérolas de compositores brasileiros, sobretudo obras de Almir Guineto, sambista inovador, um dos grandes expoentes do samba de raiz.

O texto inspira-se numa ambiência suburbana carioca, amalgamando-se às músicas, que servem como complemento narrativo, estimulando o discurso das personagens, favorecendo as conexões amorosas e os embates de vidas modestas. Noite de natal, festa de aniversário, churrasco entre amigos, finitude de relacionamento, revelam um sotaque mais leve e despojado, aproximando à audiência. Tudo isso permeado de bom humor, no qual a dramaturgia reflete brasilidade.

O diretor estabelece uma homogeneidade aprazível. Para além dos conflitos dramatúrgicos, o espetáculo desagua num viés esperançoso, onde imagens são ordenadas no signo da felicidade. Ser feliz não é ausência de dor ou sofrimento e sim amar a vida, superando obstáculos, atesta Nietzsche. E toda a encenação harmoniosa reverbera um bem estar contagiante. Há uma limpeza conduzida pela direção que produz beleza e magia.

Por algum tempo, no teatro musical brasileiro, artistas negros, eram negligenciados. Felizmente a transformação, justíssima, desvela aqui um elenco talentoso, com ótima afinação, numa elegância rara, composto por Aline Borges, Elli Fêrreira, Jeniffer Dias, Thiago Thomé e Udylê Procópio, amparados pelos músicos: Carlos Rufino, Felipe D'Lélis, Fábio D'Lélis, Leo Antunes e Marlon Julio. Vilma Melo e Lucas da Purificação destacam-se, abarcados por um espectro teatral, que os torna eletrizantes, mesmo quando estão em silêncio. A atriz já no primeiro quadro abrilhanta-se como uma mãe de família, repleta de variações, como sempre. Possuinte de uma corporeidade exuberante, o ator trafega pulsante, valorizando o texto falado e cantado.

Estruturas claras e um tablado avermelhado compõem um adequado preenchimento cenográfico, de Doris Rollemberg, além de uma rotunda branca, que propicia a pintura que Renato Machado desenha sobre o palco. O figurino, de Mauro Leite, carrega camadas simbólicas, remetendo às manifestações populares, tradições afro-brasileiras, celebrações religiosas, ancestralidade e purificação. Apesar da predominância do branco, cada personagem possui oscilações de modelagem, textura e sobreposição, numa fluidez de tecidos que favorecem a eficiente direção de movimento, de Dani Cavanellas. Apropriada, a direção musical, de Marcelo Alonso Neves, corrobora para que a dinâmica de roda de samba dialogue com a dramaturgia.

Numa linguagem afetiva, o espetáculo valoriza o samba, beneficiando curar a alma.

SERVIÇO

PRA TE VER FELIZ

Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187 - Centro)

Até 9/8, às quintas e sextas (19h) e sábados e domingos (17h)