Tesouro literário no entroncamento cultural do Brasil com o Líbano, Salim Miguel (1924-2016) combinou o rigor com a notícia - inerente a seu trabalho como jornalista, em revistas de êxito como "Manchete", "Fatos & Fotos" e "Ficções" e no JB - com a ouriversaria poética da palavra de seu ofício de escritor, inaugurado em 1951, com "Velhice e Outros Contos".
Radicado em Santa Catarina, com passagens pelo Rio de Janeiro, ele firmou prestígio na prosa com 30 livros, conquistando o prêmio de melhor romance de 1994, no voto da União Brasileira de Escritores, com "Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia". Na parceria com sua companheira de vida, a tradutora e escritora Eglê Malheiros (1928-2024), presenteou o Jornalismo com um dos mais respeitados críticos de música do país, Antonio Carlos Miguel, um de seus cinco filhos.
A trajetória de Salim pelas artes, que inclui roteiros para o cinema, tem, na ótica da crítica, um ponto (mais) alto chamado "Nur na Escuridão" (1999), cujas páginas vão se transformar em peça de teatro a partir deste 1° de agosto, sob a direção da atriz Simone Kalil.
Estrelado por Pedro Máximo, o espetáculo, com dramaturgia de Muna Omran, terá sessões nos dias 1, 2, 8 e 9 de agosto, no Teatro Ruth de Souza (R. Murtinho Nobre, 169), em Santa Teresa. O texto de Salim é seu pavimento. Em seu mais conhecido e premiado romance, o autor tratou de forma ficcional sua chegada do Líbano ao Brasil, acompanhado dos pais, de suas duas irmãs menores e de um tio materno, em 1927, quando tinha 3 anos. Talvez inconscientemente, há muito da literatura árabe na forma da narrativa. Palavras árabes são utilizadas, sem tradução ou notas de pé de página, acompanhando o processo de aprendizado dos imigrantes e sua adaptação à cultura, aos costumes e ao idioma da nova terra. A edição original é da Topbooks. Em 2008, foi lançada nova edição do livro pela Editora Record. O romance também conta com tradução para o árabe, realizada por Youssef Mousmar, sendo lançado no Líbano em 2013, pela Editora Dar Saër el-Mashrek.
"Eu descobri a obra de Salim Miguel, através da professora Muna Omran, uma das mais conceituadas professoras e pesquisadoras sobre Cultura e História do Oriente Médio no Brasil", explica Simone. "Ela me falou sobre as comemorações do centenário de Salim e da sua vontade de divulgar o livro 'Nur na Escuridão' para as mais diversas pessoas, em especial, para os jovens. Fomos selecionadas para uma imersão literária pelo edital SESC Pulsar. Realizamos palestras, oficinas de criação literária a partir da gastronomia libanesa e uma leitura dramatizada de 'Nur' com o ator Pedro Máximo. Devido ao sucesso da leitura, decidimos levar o projeto adiante com uma peça de teatro. Esse projeto artístico foi viabilizado através do Edital Literatura do Rio ao RJ, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio. Desde então, mergulhei na escrita de Salim Miguel e me encantei com a preciosidade das imagens que ele é capaz de criar. É como se sua narrativa naturalmente desdobrasse a minha imaginação em um leque de possibilidades", explica a encenadora, que brilhou nos palcos no espetáculo "Brimas", com Beth Zalcman, discutindo sua ancestralidade árabe. Para seu povo, o termo "Nur" significa "luz".
"Salim Miguel, com seu livro, criou uma imagem linda, sensível, da chegada de sua família ao Porto da Praça Mauá; quando o taxista coloca o papel com um endereço na luz e diz que sabe onde fica. Aquela luz, em meio à escuridão da madrugada, renovou as esperanças da família Miguel", explica Simone. "Poeticamente a escuridão estaria nas incertezas dos imigrantes sobre a nova vida nesse país tão diferente do Líbano, tão diferente de tudo o que já tinham visto e ouvido, e a luz (nur) seria a oportunidade de construir uma nova vida no Brasil".
Com "Brimas", Simone e Beth Zalcman ficam cerca de dez anos em cartaz, com êxito de público e de crítico. "Foi um divisor de águas na minha carreira. Eu já vinha numa busca sobre mim mesma, sobre minha ancestralidade. Fazia aula de árabe. Praticava danças libanesas. Voltei a fazer comida árabe, como minhas tias me ensinaram. Era uma pesquisa sobre a história da diáspora sírio-libanesa no Brasil, mas, principalmente, um mergulho íntimo na história da minha família, dos meus avós. Agora, vejo um passo adiante em 'Nur'. Por mais que a peça seja sobre a chegada de uma família libanesa ao Brasil, a família Miguel, nós optamos por expandir. A proposta dessa encenação é dialogar com os atravessamentos que os mais diversos povos proporcionaram à cultura brasileira. A ideia é refletir sobre essa 'fratura incurável' entre um ser humano migrante e sua terra natal".
Leitor voraz de um tudo, de Arthur Schopenhauer a Machado de Assis, Salim Miguel foi um dos líderes do movimento conhecido como Grupo Sul, que agitou a vida cultural de Florianópolis de 1947 e 1958. Entre 1957 e 1958, escreveu, em parceria com a mulher, Eglê, o argumento e o roteiro do primeiro longa-metragem catarinense, "O Preço da ilusão". Na Santa Catarina dos anos 1980, ajudou a organizar, para o governo do Estado, o Prêmio Nacional Cruz e Souza, o mais importante do País à época. De 1983 a 1991, dirigiu a Editora da UFSC, e em 1996 assumiu a superintendência da Fundação Franklin Cascaes, onde lutou para criar uma política cultural na capital do estado que lhe serviu de lar.
Seu legado volta a acender novas hipóteses para o país... agora no palco.
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