Correio da Manhã
Teatro

A cidade que respira teatro

2º Festival de Teatro do Rio chega com 19 espetáculos e mostra inédita

A cidade que respira teatro
Baseado no romance do português José Saramago, (Um) Ensaio Sobre a Cegueira abre a programação do evento Crédito: Guto Muniz/Divulgação

A partir desta quata-feira (29) e até 16 de agosto os teatros Riachuelo e TotalEnergies recebem a segunda edição do Festival de Teatro do Rio, que amplia seu recorte para abrigar uma nova geração de artistas. A curadoria selecionou a dedo 19 espetáculos que reafirmam o teatro como território de encontro, risco e reinvenção numa programação que reúne nomes consagrados da dramaturgia brasileira e uma mostra inédita, batizada de Nova Cena, dedicada a artistas emergentes de uma nova geração das artes cênicas.

É animador em ver um festival de teatro crescer. Não só pelo número de espetáculos ou pela quantidade de ingressos vendidos, mas na aposta consciente em abrir espaço para o que ainda está se formando.

Produzido pela Aventura, de Aniela Jordan e Luiz Calainho, com curadoria e direção geral de Maria Siman, o festival chega à segunda edição com a ambição de se firmar como um marco no calendário cultural da cidade. E, pelo que se anuncia, o caminho escolhido não é o da repetição de fórmula, mas o da expansão calculada: são 19 peças ao longo de 20 dias, em dois palcos, com ações formativas para movimentar o público e toda a cadeia criativa do teatro carioca.

A grande novidade deste ano é a Sala Nova Cena, espaço intimista montado dentro do Teatro TotalEnergies exclusivamente para receber montagens de grupos e artistas em ascensão. "A proposta é trazer jovens artistas e criadores que estão renovando a linguagem e despontando na cena teatral. Queremos abrir uma janela para a vitalidade, a diversidade e a reinvenção constante do nosso teatro", explica Maria Siman, que selecionou cinco trabalhos que dialogam com diferentes linguagens e inquietações contemporâneas.

Entre eles, destaca-se "O Dinossauro de Plástico", primeiro solo de Rafael Saraiva, com direção de Barbara Duvivier e texto de Gustavo Vilela. O monólogo ficcional — que já acumulou duas temporadas com ingressos esgotados — explora o limiar entre sanidade e loucura com humor e leveza, em uma travessia delicada que promete envolver o público. Já "Aqueles que Deixam Omelas", com João Pedro Zappa e direção de João Maia P, parte do célebre conto homônimo de Ursula K. Le Guin (1929-2018) — uma fábula moral filosófica que expõe as contradições de uma cidade aparentemente feliz que esconde um segredo trágico. A escolha do texto, que carrega uma potente reflexão sobre ética e cumplicidade coletiva, diz muito sobre o tipo de teatro que a mostra quer abrigar: aquele que não tem medo de fazer perguntas incômodas.

Completam a programaçao da Nova Cena "Na Quinta Dor", com Dora de Assis, que investiga com leveza os impactos que o corpo sofre e o que permanece nele; "1 Peça Cansada", com Natasha Corbelino, em duas sessões no mesmo dia; e "O Buraco", com dramaturgia de Bernardo Coimbra e João Miller, direção de Stella Rabello e nove atores em cena — uma comédia absurda que abre seu processo criativo ao público em ensaio aberto com entrada gratuita. É um gesto raro e generoso: deixar o público espiar a cozinha do teatro antes do prato pronto.

Fora da mostra, a programação principal reúne montagens consgradas por crítica e público. "Balada da Louca", solo em que Lília Cabral revive Rita Lee sob direção de Debora Dubois, chega ao Rio após temporada completamente esgotada em São Paulo — e a expectativa é a mesma por aqui. "Fim de Partida", de Samuel Beckett, com Marco Nanini dirigido por Rodrigo Portella ao lado de Guilherme Weber, Ary França e Helena Ignez, também desembarca na cidade depois de encher teatros e colher elogios da crítica paulista.

O festival também reserva espaço para reencontros. "O Motociclista no Globo da Morte", com Eduardo Moscovis — recém-premiado com o Shell de Melhor Ator por este trabalho — volta ao Rio em duas apresentações. Com texto de Leonardo Netto e direção de Rodrigo Portella, o solo expõe a violência humana sem jamais espetacularizá-la, num equilíbrio raro entre tensão e contenção que a crítica chamou de "aula de teatro".

"Mulher em Fuga", com Malu Galli e Tiago Martelli, inspirado na obra do escritor francês Édouard Louis, aborda desigualdade social, trabalho invisível feminino e violência estrutural — temas que Malu Galli, em entrevista recente, resumiu com precisão: "Existe um sistema que invisibiliza a mulher".

Já "Deserto", dirigido e escrito por Luiz Felipe Reis, parte da vida e da obra do chileno Roberto Bolaño para indagar sobre a viabilidade da criação artística em meio à violência e à opressão.

A abertura do festival fica por conta de "(Um) Ensaio Sobre a Cegueira", do histórico Grupo Galpão, com direção de Rodrigo Portella — uma montagem que transporta a parábola de José Saramago para o palco com a poesia física que marca o grupo mineiro há quatro décadas.

A programação ainda inclui "Como um Palhaço", de Helena Bittencourt e Goos Meeuwsen, que desconstrói a imagem clássica do palhaço em múltiplos significados; "Um Sim à Vida", com a filósofa e poeta Viviane Mosé dirigida por Lee Taylor, relacionando a imensidão do universo à finitude humana; "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", inspirado na obra de Ailton Krenak; "Negra Palavra: Poesia do Samba"; "A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe", de Daniela Pereira de Carvalho, com Guida Vianna e Silvia Buarque, que investiga a relação entre três gerações de mulheres; "Meu Corpo Está Aqui"; "A Pediatra", adaptação do best-seller de Andréa Pachá; e "Histórias do Porchat", com Fábio Porchat, em duas sessões no mesmo sábado.

"Ficamos felizes com o sucesso do festival ano passado. Não somente com os espetáculos lotados, mas também com todo o interesse e os debates com nossas ações formativas, com uma plateia diversa e atenta. A ideia com o festival é mesmo mobilizar a cena teatral carioca, fomentar a produção e também dar uma contribuição na formação de novas plateias", diz Aniela Jordan. As ações formativas — batizadas de Palco 360, com debates, encontros e oficinas — serão anunciadas em breve, mas já sinalizam o compromisso do evento com algo que vai além da exibição: a sustentabilidade do fazer teatral.

Numa cidade que respira teatro mas muitas vezes carece de eventos que congreguem sua cena de forma ampla e generosa, o 2º Festival de Teatro do Rio acerta ao não se contentar com o já consagrado. Ao lado de Lília, Nanini, Moscovis e Galpão, a Nova Cena ocupa seu lugar — e lembra que todo grande artista um dia foi uma aposta.

SERVIÇO

2º FESTIVAL DE TEATRO DO RIO

De 29/7 a 16/8

Teatro Riachuelo (Rua do Passeio, 38 — Centro) e Teatro TotalEnergies (Rua do Russel, 804 — Glória)

Programação completa e ingressos: www.festivaldeteatrodorio.com.br

Ingressos pelo www.ingresso.com: a partir de R$ 50 e R$ 25 (meia)

Mostra Nova Cena — Sala Nova Cena (Teatro TotalEnergies): "O Buraco" tem entrada gratuita, com ingressos liberados às 18h30 do dia da apresentação

 

Galeria de imagens

O Motociclista no Globo da Morte Crédito: Catarina Ribeiro/Divulgação