Correio da Manhã
Teatro

'Ser mulher é quase uma nacionalidade'

'Ser mulher é quase
uma nacionalidade'

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã

"Eu Matei Sherazade, Confissões De Uma Árabe Em Fúria" é uma peça de contágio, para qual não existe cura. E quem vê não quer ser curado: quer bis. Roda o Brasil há uns anos: começou a ganhar ribaltas em outubro de 2024, e agradou; agradou tanto que sempre encontra pauta para voltar. Uma vez tocado pela autopsia em corpo vivo que a atriz Carolina Chalinta faz não só de uma civilização milenar, mas da própria condição feminina, a contaminação se espalha... e na forma de encantaria. Seu desempenho esplendoroso à frente de um projeto pavimentado sob um livro homônimo da jornalista e escritora libanesa Joumana Haddad faz muita gente retornar às casas de espetáculo onde a estrela - em estado de graça - festeja ancestralidades e combate os djins da intolerância.

A encenação da hora será no Teatro TotalEnergies, na Glória, onde o monólogo terá apenas três apresentações nos próximos dias: 24, 25 e 26 de julho. Na sexta-feira e no sábado é às 20h. No domingo, às 18h. Indicada ao Prêmio APTR por regar uma lavoura arcaica de vivências, Chalita atua e assina a dramaturgia, sob a direção de Miwa Yanagizawa. A direção musical é de Beto Lemos. A música ao vivo fica a cargo de Maria Clara Valle. Após a reestreia no Rio, o espetáculo segue em tour até outubro pelas unidades do SESC RJ e no Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ).

Em erupção em cena, o vulcão Chalita - que tem ascendência no Líbano, como Joumana - narra as confissões de uma árabe enfurecida pela maneira como a mulher é vista por seu próprio povo e pelo olhar preconceituoso do Ocidente. Sua fúria é cheia de poesia.

O que a condição de "ser árabe" passou a representar para você ao longo do périplo da peça? O que há de árabe na tua essência e na tua vivência?

Carolina Chalita - Ser árabe, para mim, é uma condição que antecede esta peça. É uma herança que atravessa a minha história muito antes de eu encontrar o texto de Joumana Haddad. Sou descendente de libaneses da região de Bakhafra, no norte do Líbano. Meus bisavós, Semeuia Thanus Chalita e Milhem Seba Chalita, chegaram ao Brasil em 1896, sem falar uma palavra de Português, fugindo da guerra. Começaram como mascates, construíram patrimônio, fundaram uma fábrica de tecidos e criaram o primeiro cinema do Vale do Paraíba, em Cachoeira Paulista. Sempre que penso neles e em sua extraordinária capacidade de recomeçar. Essa história moldou profundamente a minha maneira de olhar o mundo. Cresci entendendo que ser árabe é carregar uma cultura empreendedora, resiliente e profundamente comprometida com o conhecimento. Um povo que aprendeu, ao longo dos séculos, a transformar deslocamentos, perdas e adversidades em criação. Talvez por isso, o meu encontro com 'Eu Matei Sherazade' tenha sido tão inevitável. Joumana Haddad fala de uma mulher que se recusa a viver a partir dos papéis que lhe foram impostos. Essa insubmissão me atravessa como mulher, como atriz e também como descendente de árabes.

Que preconceitos cercam o povo árabe?

Existe um imaginário ocidental que costuma reduzir o Oriente Médio ao fundamentalismo, à guerra e ao atraso. Mas basta olhar para a história para perceber a imensa contribuição da civilização árabe ao desenvolvimento da Medicina, da Matemática, da Astronomia, da Filosofia e da Literatura. Durante séculos, enquanto parte da Europa atravessava períodos de profundo obscurantismo, grandes centros árabes eram referências mundiais na produção de conhecimento. Essa memória muitas vezes foi apagada por uma visão orientalista que simplificou uma cultura extremamente sofisticada. É justamente essa complexidade que me interessa. Na peça, Joumana Haddad propõe um gesto radical: matar Sherazade. E esse assassinato não é contra uma personagem, mas contra um arquétipo. Sherazade representa a mulher que precisa contar histórias para sobreviver, que negocia a própria existência para permanecer viva. Ao enterrá-la, Joumana nos convida a apertar um botão de reinício. A imaginar outras possibilidades de existência.

De que forma esse aperto de um botão histórico conversa com a sua ancestralidade?

Esse gesto conversa profundamente com a história da minha família. Meus ancestrais também precisaram abandonar tudo para reconstruir uma vida inteira em outra língua, em outro continente, em outra cultura. Existe muita coragem nisso. Existe dor, mas existe também confiança na Humanidade. Talvez essa seja, para mim, a maior herança árabe: a capacidade de começar outra vez sem perder a dignidade.

O que esse texto abre de mais inflamado (e ainda não curado) nas cicatrizes que o povo árabe carrega na carne e na alma?

A melhor resposta para essa pergunta continua sendo a da própria Joumana Haddad. Em 'Eu Matei Sherazade', ela escreve: 'Eu me pergunto quando foi que, do alto da nossa cultura, em que se falava de sexo com tanta naturalidade, começamos a despencar no abismo dos tabus. Quando foi que a guerra e o fundamentalismo nos roubaram a liberdade? Não aconteceu de um dia para o outro. Foi um processo longo e meticuloso'. Esse trecho desmonta uma ideia muito difundida no Ocidente: a de que a opressão das mulheres árabes sempre existiu da forma como conhecemos hoje. Joumana lembra que nenhuma sociedade nasce fundamentalista. A perda das liberdades é construída aos poucos, por guerras, disputas de poder, extremismos religiosos e interesses políticos. Essa reflexão não diz respeito apenas ao mundo árabe. Ela serve como alerta para qualquer sociedade que naturaliza pequenas perdas de liberdade até que elas se tornem regra.

O que é ser mulher árabe num mundo de rótulos e de machismo?

Eu costumo reformular essa pergunta. A questão não é apenas o que significa ser mulher árabe. É o que significa ser mulher em um mundo ainda organizado por estruturas profundamente machistas. Ser mulher é quase uma nacionalidade. Independentemente da cultura, compartilhamos muitas experiências: a desigualdade salarial, a violência, a sobrecarga dos cuidados, o julgamento constante sobre nossos corpos e escolhas. No Brasil, isso aparece de maneira muito evidente. Mulheres ainda interrompem carreiras para cuidar da família, acumulam trabalho invisível e, muitas vezes, chegam ao envelhecimento em situação econômica muito mais vulnerável do que os homens. Durante séculos fomos educadas para servir. Pouco se falava sobre autonomia, prazer, liberdade ou desejo feminino. Quase nunca fomos incentivadas a existir para além das necessidades dos outros. Ao mesmo tempo, nunca vi uma geração de mulheres tão disposta a romper esse ciclo. Hoje muitas escolhem não depender emocional nem financeiramente de relações afetivas. Questionam o casamento como destino obrigatório. Criam novas formas de família, de trabalho e de felicidade. Isso assusta estruturas tradicionais porque mulheres livres são muito mais difíceis de controlar. Para mim, liberdade e prazer não são luxos. São escolhas políticas. E talvez essa seja a maior revolução feminina do nosso tempo: descobrir que podemos escrever a própria história sem pedir autorização.

Que aprendizados se fazem presente na tua trajetória de atriz a cada sessão do texto?

Essa peça representa a síntese de 22 anos de carreira. Passei por companhias de teatro, grupos de pesquisa e pelo audiovisual. Fiz trabalhos muito importantes, mas durante muito tempo interpretei personagens que não escolhi. Em determinado momento senti necessidade de criar um projeto verdadeiramente autoral, um espetáculo que refletisse minhas inquietações e meu olhar sobre o mundo. Também queria escapar de um certo empobrecimento da representação feminina no audiovisual brasileiro. Muitas vezes as mulheres continuam sendo reduzidas a estereótipos: a mulher fútil, a prostituta, a esposa, a personagem cuja principal característica é a aparência física. Mulheres — inclusive mulheres brancas e loiras — são muito mais complexas do que isso. Hoje, além desse desafio artístico, enfrentamos outro: um mercado profundamente influenciado pela lógica das redes sociais. O valor de um artista passou, muitas vezes, a ser medido pelo alcance de seus conteúdos, e não pela qualidade de sua pesquisa ou de sua obra. É como imaginar que médicos ou advogados fossem avaliados apenas pelo número de seguidores, e não pela excelência do trabalho que realizam. Não sou contra as redes sociais. Pelo contrário. Elas aproximaram o teatro do público e transformaram a divulgação dos espetáculos. Hoje conseguimos medir a procura antes mesmo da estreia. Mas acredito que a arte não pode ser governada pelo algoritmo

Como a arte deveria se posicionar?

A função da arte é provocar, emocionar, questionar, criar beleza e ampliar o imaginário. E o teatro continua sendo o espaço mais livre para isso. É um dos poucos lugares onde ainda compartilhamos uma experiência sem telas, ao vivo, irrepetível. Talvez por isso este espetáculo esteja em cartaz há dois anos e tenha espectadores que voltam quatro ou cinco vezes para revê-lo. Para mim, isso é muito mais significativo do que qualquer número de visualizações. É a confirmação de que a arte ainda é capaz de transformar quem a encontra.

Como se construiu sua trajetória artística até chegar a "Eu Matei Sherazade" e quais são os próximos passos do espetáculo?

Minha trajetória profissional começou há 22 anos, na Cia Amok Teatro, com "O Dibuk", de Shalom An-Ski. Foi ali que aprendi uma forma de fazer teatro baseada na pesquisa, na escuta e no aprofundamento do processo criativo. Depois vieram espetáculos marcantes, como "Festa de Família"; "O Funeral"; "Os Sete Gatinhos", em que interpretei Aurora; e "Cyrano de Bergerac", no papel de Roxane, ao lado de Bruce Gomlevsky. Durante cerca de dez anos, eu trabalhei em repertório, vivendo a experiência rara de integrar um grupo que acreditava no tempo do ensaio e na construção coletiva da cena. Essa formação foi decisiva para a atriz que sou hoje. "Eu Matei Sherazade" representa a maturidade desse percurso: um trabalho autoral, em que posso reunir pesquisa, pensamento, atuação e posicionamento artístico. Em 2026 iniciaremos uma turnê pelo Circuito Sesc Pulsar, passando por cinco cidades do estado do Rio de Janeiro, além de apresentações no Centro Cultural do Poder Judiciário. Em 2027, levaremos o espetáculo para o estado de São Paulo, ampliando o diálogo com novos públicos.

SERVIÇO

EU MATEI SHERAZADE, CONFISSÕES DE UMA ÁRABE EM FÚRIA

Teatro Totalenergies (Rua do Russel, 804, Glória)

De 24 a 26/7, sexta e sábado (20h) e domingo (18h)

Ingressos: Plateia A - R$ 90 e R$ 45 (meia) | Plateia B - R$ 50 e R$ 25 (meia)