Geometricamente equidistantes da liberdade, os cinco vértices do poliedro poético chamado "Incondicionais" - composto por Dai Ramos, Luciana Lopes e Sirlea Aleixo, com suas filhas Taty e Thay Aleixo - transformam em encenação (ou seria melhor chamar de registro documental em ato e gesto) as experiências de mulheres que vivem atrás das grades num Brasil regrado por injustiças sociais. É trabalho de cada uma investigar as questões que o novo espetáculo do Amok Teatro - uma das grifes de maior prestígio e ousadia das artes cênicas no país - encena deste 25 de junho (quinta) até 19 de julho, no Teatro Arena do Sesc Copacabana.
Na peça, o duo criador do Amok, Ana Teixeira e Stephane Brodt, mergulha no universo das penitenciárias femininas brasileiras para discutir abandono, violência estrutural e maternidade. Pavimentam a busca investigativa deles os livros "Cadeia - Relatos Sobre Mulheres", de Debora Diniz; "Prisioneiras", de Dráuzio Varella, "Presos Que Menstruam", de Nana Queiroz; e "Prisioneiras - Vida e Violência Atrás Das Grades", de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz.
"A base da dramaturgia em 'Incondicionais' é o testemunho. O que encontramos nessas fontes literárias são relatos de pessoas que testemunharam, seja através de entrevistas, observação ou escuta, em seus atendimentos, o relato de mulheres encarceradas", explica Ana. "Assim, a voz dessas mulheres chega até nós através do filtro do olhar e da subjetividade daqueles que escutaram. Somos, de certo modo, testemunhas dessas testemunhas. E olhamos para esse material através do filtro do teatro, isto é, buscando personagens".
Desde 1998, quando o Amok nasceu, muito bem representado por "Cartas de Rodez" (1998), "O Carrasco" (2001) e um inesquecível "Macbeth" (2004) maculado de sangue, a pesquisa é o cerne das encenações desenvolvidas por Ana e Brodt. Ao olhar sobre a distância que separa o cárcere e a rua, em "Incondicionais", a dramaturga, pedagoga e encenadora explica que um personagem, é sempre o resultado do encontro de um material dramatúrgico e um ator ou uma atriz. "Isso vale tanto para as detentas que trazemos à cena, quanto para grandes personagens da dramaturgia universal. Então, podemos dizer, que a raiz da nossa dramaturgia está ancorada na experiência de pessoas reais, de 'carne e osso'. Mas o que levamos para o palco, é uma ficção", diz Ana. "Nosso trabalho não é de o de transpor o que está nos livros para o palco. O que levamos para a cena são personagens únicos que fazem ecoar a voz de muitas mulheres. É como costurar uma colcha de retalhos: fragmentos de histórias se juntam para formar uma personagem que nasce do encontro da nossa imaginação com a realidade de diversas vidas".
"Incondicionais" se passa em uma prisão feminina, onde psicólogas e assistentes sociais — as chamadas "jalecos brancos" — atendem detentas cujas histórias revelam trajetórias marcadas pela pobreza, pela exclusão social e pela ruptura dos vínculos familiares. Entre relatórios e decisões judiciais, as detentas encontram breves espaços de escuta, tecendo redes de solidariedade e resistência dentro de um sistema que frequentemente reduz vidas a números.
"Em nosso processo de criação as personagens não nascem de uma lógica de representação, como se cada atriz fosse encarregada de 'interpretar' uma determinada detenta", diz Brodt. "A aproximação com as personagens não acontece no plano intelectual. Ela se realiza por um trabalho de meses que passa pelo corpo e pela experiência sensível de cada uma. Cada atriz é afetada pelas histórias de muitas mulheres e, ao mesmo tempo, oferece a esse material dramatúrgico sua própria escuta, sua imaginação, suas emoções e sua humanidade. O encarceramento feminino é uma realidade complexa e plural, impossível de ser reduzida a uma única trajetória. Em 'Incondicionais', cada personagem ilumina um aspecto diferente dessa experiência e, ao mesmo tempo, lança uma nova luz sobre as demais. Nessa montagem, o protagonismo não pertence a uma personagem isolada. Ele emerge justamente do encontro entre quatro mulheres e da possibilidade de o espectador perceber, entre elas, uma experiência compartilhada de vulnerabilidade, maternidade, abandono e sororidade".
Ao longo de uma trajetória cênica pontuada por pérolas como "Os Cadernos de Kindzu" (2016), "Bordados" (2020) e "Furacão" (2023), o Amok realizou turnês por 170 cidades brasileiras e levou seus espetáculos para países como Escócia, Sérvia, Argentina e China. Também desenvolveu projetos de grande alcance, como a "Trilogia da Guerra" e o ciclo "África". Em "Incondicionais", Ana e Brodt falam em "teatro documentário" referindo-se a um retrato do real no qual a cadeia é a linha final de um grande rito do abandono.
"Seria mais justo recorrer à expressão 'teatros documentais'. Optamos pelo plural para distinguir as práticas contemporâneas do contexto histórico em que surgiram o teatro documentário de Peter Weiss", explica Ana, numa referência à genealogia artística com a qual dialoga. "Essa expressão nos parece mais adequada justamente porque ela abarca as múltiplas possibilidades que o teatro tem de se aproximar da realidade. E a realidade é sempre composta por pequenas ou grandes tragédias. Em 'Incondicionais', estamos diante da nossa grande tragédia social: mulheres em situação de vulnerabilidade, abandono e invisibilidade".
Segundo Brodt, o projeto de luz que acompanha as histórias, na iluminação e Renato Machado, "não é pesado e sombrio".
"A luz não revela só os espaços exteriores, ela também acompanha o mundo interior de cada personagem", diz o ator e encenador francês, radicado no Brasil desde 1995. "A nossa preocupação com a luz não é de reproduzir o espaço físico do cárcere, mas criar uma experiência sensível capaz de revelar as múltiplas camadas humanas que existem dentro dele".
SERVIÇO
INCONDICIONAIS
Teatro Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
De 25/6 a 19/7, às quintas e sextas (20h), sábados e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 27 (convênios), R$ 21 (sócio Sesc) e R$ 15 (meia)
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