Arrebatando, em 1994, os prêmios Moliére, Mambembe, Shell, APCA e APETESP, o texto de Maria Adelaide Amaral, com Eva Wilma e Eliane Giardini, volta aos palcos cariocas. Autora de sucessos, inspirou-se na própria relação materna para descrever seus conflitos. "Querida Mamãe" impõe-se com uma carpintaria afiada, cuja voltagem dramática é evidente, permeando sabedoria e delicadeza para revelar um hiato de gerações. Desencontro entre mãe e filha, que são atravessadas por pontos de vista distintos.
A mãe é reservada, conservadora, enquanto a filha, médica, permite-se voos libertários, elaborando novas formas de ser feliz. As personagens reencontram-se num apartamento recheado de heranças emocionais truncadas, onde os afetos, o verdadeiro amor encobre-se, e a narrativa estabelece trocas carregadas de tensão pelo abismo que perpetuou-se entre elas. Experiente e libertando-se do maniqueísmo, a escritora humaniza suas criações, pelas quais o público identifica-se.
Entretanto, a condução de Pedro Neschling é inócua. Há uma estética novelesca que prejudica o andamento do espetáculo, arrastando-se demasiadamente, como se as cenas precisassem ser editadas. Pausas são esgarçadas, marcas estáticas não valorizam a dinâmica inserida na emocionalidade textual. Uma marca na esquerda baixa em que a mãe tenta acarinhar sua progênita é pouco desenhada, necessitando de um plano detalhe, utilizado no audiovisual. O ponto culminante da narrativa é esfacelado, pois o ritmo teatral não é estruturado. Todavia, o diretor acerta em erguer as delicadas cortinas diáfanas, na medida que os acontecimentos manifestam-se, quando verdades eclodem, numa ambiência adequada de Beli Araújo.
Talentosas, as atrizes são fragilizadas pela orientação de expressividade cênica, ocasionando um estado amornado em diversos momentos. A corporeidade não projeta algumas intenções sugeridas pela dramaturgia, em que a direção de movimento de Toni Rodrigues também não favorece. Apesar disso, Nívea Maria - uma das grandes atrizes da televisão brasileira, com uma infinidade de papéis relevantes na teledramaturgia - dá credibilidade ao projeto, valorizando a rigidez de sua Ruth, costurando com sensibilidade as variações daquela mulher endurecida.
Ao final, aplica seus graves, instituindo a angústia da personagem, onde desvela as contradições amorosas pela filha. Já Regiane Alves, outra expoente da tv, alcança itinerários mais efusivos, com arroubos de emoção, pelos quais a encenação obtém contornos mais teatrais. Apesar de acometida por uma virose na apresentação, a atriz não sucumbe e explora com veemência os ideais que sua Helô defende.
O figurino de Antonio Rocha é correto, enroupando Ruth monocromaticamente e um look mais despojada para Helô. Fernanda Mantovani abre a cena em tons tórridos, prenunciando a atmosfera hostil, além de abusar de efeitos luminares nas temperaturas diversas que o texto lhe propõe.
SERVIÇO
QUERIDA MAMÃE
Teatro dos 4 (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente , 52 - Loja 265)
Até 2/8, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)
Ingressos: R$ 150 e R$ 75 (meia)
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