Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Neste 12 de junho, mais conhecido como Dia dos Namorados, os palcos cariocas acolhem um gesto de amor à arte de escrever versos - como um signo das múltiplas e, por vezes, perigosas desinências do verbo "viver" - egresso de São Paulo, com a assinatura de Gabriel Chalita em sua dramaturgia: "Poemas". Estreia aqui no teatro Fashion Mall. Traz consigo uma reflexão sobre a necessidade de se encontrar beleza mesmo em tempos difíceis, muito pertinente para um ano de eleição... e de Copa do Mundo... num país polarizado, onde curte-se o ódio a cada post das redes sociais.
Na direção, Duda Maia, uma lúdica artesã da cena, consagrada pelo inesquecível "Auê" (2016), com a Barca dos Corações Partidos), põe os atores André Torquato e Marcos Pitombo para interpretar o encontro entre dois personagens que tentam criar estrofes. Nesse processo, atravessam lembranças da infância, medos, afetos e perguntas sobre o futuro. Tem humor e tem delicadeza nesse jogo, estruturado sob uma atmosfera imaginativa, para falar de solidão, ansiedade, memória e o mais (demasiadamente) humano de todos os vícios: a esperança.
"No espetáculo a busca do poema é metafórica, não é sobre escrever um poema de forma literal, mas sobre a necessidade humana de criação", explica Duda. "O desejo de criar um poema abre espaço para memórias, lembranças e planos futuros. Acho que quando visitamos nossa capacidade criativa não estagnamos. 'Poemas' é uma homenagem à vida que se constrói com movimento".
Com desenho de luz assinado por Gabriele Souza e som de Vitor Osório, a encenação de Duda Maia é pautada numa dualidade entre palavra e corpo. Nessa fricção, com dois atores em fina comunhão, a dimensão solitária da existência salta aos olhos, a partir das investigações trazidas por Chalita.
"A escrita de uma peça de teatro é sempre um exercício de solidão", diz o autor. "De solidão e de memória. De solidão e de uma intenção amorosa de contar uma história. Depois de escrita buscamos outras mãos para que o teatro aconteça. O encontro com Duda Maia, que dirige o espetáculo, foi mágico. Ela conseguiu colocar em cena as inquietudes que me levaram a escrever a peça. A palavra carpintaria é muito adequada aqui. Porque se trata de um trabalho delicado. Tanto no texto quanto na encenação. Encontramos dois atores talentosíssimos, André Torquato e Marcos Pitombo, que estão inteiros no espetáculo. O que leva o espectador a viver a aventura do teatro. Do vento que venta memórias e futuros".
Responsável por extrair teatro da "Guerra Dentro da Gente", de Paulo Leminski (1944-1989), numa encenação de respeito, Duda conta com cenografia e figurino de Stephanie Fretin e André Cortez em "Poemas". A direção musical e a trilha sonora são de Dessa Ferreira. Na troca com Chalita, a encenadora abriu um convite para poetizar dois mundos, que ele define como "o de dentro e o de fora" e "o eu comigo e o eu com o outro", destacando o tanto de feridas a serem suturadas e o tanto de amanhecer neste mundo a ser celebrado.
Ao viver essa celebração (e essa sutura) na carne e no gesto, Pitombo explica: "O texto tem um objetivo, que é construir um poema que pretende salvar o mundo. E que mundo é esse? Será que fala do mundo físico, de todo mundo, do mundo à minha volta, ou do meu mundo particular, o nosso mundo de dentro? A gente fala um pouco sobre o que nos inspira, sobre nossas dores e sobre o que nos move", comenta.
Seu parceiro de "escrevivência" cênica, André Torquato ressalta que a escrita de Chalita não oferecer explicações. "Em vez de buscar respostas prontas, o espetáculo cria um espaço de escuta, de silêncio, de vento, onde o que parece escuro pode, de repente, acender pequenas luzes", diz o ator. "São dois personagens tentando escrever o poema que falta, mas talvez o que mais interessa não seja o poema em si, mas esse processo de busca. Às vezes é no mistério que a gente se salva".
Serviço
Poemas, de Gabriel Chalita
Teatro Fashion Mall (Estrada da Gávea, 899 - São Conrado)
De 12/6 a 26/7, com sessões em dias e horários variados devido à Copa do Mundo: 12/6, às 20h30; 20/6, às 18h e 20h30; 21/6, às 17h; 3, 4, 10, 11, 17, 18 e 25/07, às 20h30; e 26/7, às 17h.
Ingressos: Plateia - R$ 120 e R$ 60 (meia) | Plateia Superior - R$ 50 e R$ 25 (meia)
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