Correio da Manhã
Teatro

'Não tenho uma personagem para me esconder'

Filho de família camponesa, Paulo Betti mergulha nas memórias de família em espetáculo que ele define como sendo de 50% humor, 25% poesia e 25% drama

'Não tenho uma personagem para me esconder'

Paulo Betti, aos 73 anos, retorna aos palcos com a segunda edição do projeto "De Carona com a Cultura". A turnê leva o monólogo "Autobiografia Autorizada" a 11 cidades espalhadas por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal entre junho e julho, com entrada gratuita para todos os públicos.

O espetáculo, que estreou em março de 2015 no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, é uma obra autobiográfica escrita e interpretada por Betti. A peça reúne textos que o ator escreveu durante a adolescência e artigos que publicou por quase três décadas em jornal de sua cidade natal, Sorocaba (SP). Em cena, Betti representa vários personagens de sua vida — seu pai, mãe e avó — em um exercício que mistura humor, emoção e reflexão sobre sua trajetória. Desde sua estreia, o monólogo já realizou mais de 300 apresentações no Brasil e no exterior.

Nascido em contexto rural, Betti é filho de uma camponesa analfabeta que se tornou empregada na cidade. Seu avó, imigrante italiano, trabalhava como meeiro para um fazendeiro negro — uma situação que o próprio ator destaca como inusitada. "Meu avó, por exemplo, era um imigrante italiano que trabalhava a meia para um fazendeiro negro. Veja, não é uma situação muito comum… eu ia para a roça e via a Casa Grande do ponto de vista da senzala", relata Betti. Ele foi o décimo quinto filho, nascido dez anos após sua mãe ter tido os outros 14. "Quando ela tinha 45 anos, eu nasci, não é muito normal, né? Por isso escrevi o monólogo", explica o ator. Apesar das dificuldades, Betti conseguiu estudar em boas escolas, cursou um Ginásio Industrial em tempo integral, formou-se pela Escola de Arte Dramática da USP e lecionou na Unicamp entre 1977 e 1984.

A transformação de memórias em arte foi um processo natural para o ator. "Eu sempre anotei muito, fui um menino anotador. Quando resolvi fazer a peça, escrevê-la, percebi que tinha inúmeros cadernos e um cadernão especial, onde tudo estava anotado. A peça estava pronta", destaca o ator. Ele reconhece que quase tudo que se produz em arte está relacionado com a memória. "Quase tudo que produzimos, em arte, está relacionado com nossa memória, portanto isso é um processo natural. Estou mergulhado nas minhas memórias e aproveito para ler 'Em busca do tempo perdido', de (Marcel) Proust. Essa viagem não tem fim", afirma Betti, comparando seu trabalho com a obra do escritor francês.

A peça é um amálgama do Brasil profundo, com iluminação, figurino, trilha sonora e projeções que complementam a narrativa. Betti descreve a proporção de elementos que compõem o espetáculo: "Minha peça é 50% humor, 25% poesia e 25% drama". Essa combinação cria uma experiência que alterna momentos de leveza com reflexões profundas sobre a vida.

Após décadas interpretando personagens de outros, Betti enfrenta um desafio único ao representar a si mesmo. "É uma delicia, ao mesmo tempo é doloroso, não tenho uma personagem para me esconder, se bem que os personagens mais nos revelam que escondem. Talvez representando a mim mesmo eu esteja mais escondido que nunca", reflete o ator sobre essa experiência.

Segundo ele, a plateia responde intensamente a essa vulnerabilidade. "Antes de começar acho que vou morrer, que não vou conseguir. Quando acaba me sinto recarregado. É doloroso receber em cena meus pais e avós, reviver tantas lembranças mas, ao mesmo tempo é uma delícia, um prazer um privilégio poder contar minha história de vida", descreve.

"Quero que o público se transporte, que as palavras e a imagens façam com que participem da minha história e, ao mesmo tempo, recriem as suas próprias", comenta Betti sobre a proposta do espetáulo.

Além da apresentação teatral, Paulo Betti oferecerá workshops de interpretação para teatro e TV nos mesmos locais, sempre a partir das 14h30. Os encontros são direcionados para artistas e aspirantes das artes cênicas e abordam a relação entre o ator e a câmera ou o palco, suas implicações na interpretação, na relação com o espaço, corpo, voz, imagem e verdade cênica. Todas as apresentações contarão com sessão acessível com intérprete em Libras, garantindo acesso amplo ao conteúdo para o público portador de deficiência auditiva. A primeira edição do "De Carona com a Cultura", projeto cultural da Transpetro, em 2025, passou por sete cidades do interior de São Paulo e quatro do Rio Grande do Sul entre agosto e setembro, com ingressos que se esgotaram em 72 horas em algumas localidades.

A turnê de 2026 terá apresentações em São José dos Campos (19/6), São Bernardo do Campo (21/6), Santo André (22/6), Valinhos (23/6), Uberaba (26/6), Uberlândia (27/6), Senador Canedo (28/6), Bonfinópolis (29/6), Alexânia (30/6), Brasília (9/7) e Santo Antônio do Descoberto (10/7). Todas as apresentações começam às 20h. Informações sobre ingressos e detalhes adicionais estão disponíveis no site www.decaronacomacultura.com.br e nos locais de apresentação.