Paulo Betti, aos 73 anos, retorna aos palcos com a segunda edição do projeto "De Carona com a Cultura". A turnê leva o monólogo "Autobiografia Autorizada" a 11 cidades espalhadas por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal entre junho e julho, com entrada gratuita para todos os públicos.
O espetáculo, que estreou em março de 2015 no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, é uma obra autobiográfica escrita e interpretada por Betti. A peça reúne textos que o ator escreveu durante a adolescência e artigos que publicou por quase três décadas em jornal de sua cidade natal, Sorocaba (SP). Em cena, Betti representa vários personagens de sua vida — seu pai, mãe e avó — em um exercício que mistura humor, emoção e reflexão sobre sua trajetória. Desde sua estreia, o monólogo já realizou mais de 300 apresentações no Brasil e no exterior.
Nascido em contexto rural, Betti é filho de uma camponesa analfabeta que se tornou empregada na cidade. Seu avó, imigrante italiano, trabalhava como meeiro para um fazendeiro negro — uma situação que o próprio ator destaca como inusitada. "Meu avó, por exemplo, era um imigrante italiano que trabalhava a meia para um fazendeiro negro. Veja, não é uma situação muito comum… eu ia para a roça e via a Casa Grande do ponto de vista da senzala", relata Betti. Ele foi o décimo quinto filho, nascido dez anos após sua mãe ter tido os outros 14. "Quando ela tinha 45 anos, eu nasci, não é muito normal, né? Por isso escrevi o monólogo", explica o ator. Apesar das dificuldades, Betti conseguiu estudar em boas escolas, cursou um Ginásio Industrial em tempo integral, formou-se pela Escola de Arte Dramática da USP e lecionou na Unicamp entre 1977 e 1984.
A transformação de memórias em arte foi um processo natural para o ator. "Eu sempre anotei muito, fui um menino anotador. Quando resolvi fazer a peça, escrevê-la, percebi que tinha inúmeros cadernos e um cadernão especial, onde tudo estava anotado. A peça estava pronta", destaca o ator. Ele reconhece que quase tudo que se produz em arte está relacionado com a memória. "Quase tudo que produzimos, em arte, está relacionado com nossa memória, portanto isso é um processo natural. Estou mergulhado nas minhas memórias e aproveito para ler 'Em busca do tempo perdido', de (Marcel) Proust. Essa viagem não tem fim", afirma Betti, comparando seu trabalho com a obra do escritor francês.
A peça é um amálgama do Brasil profundo, com iluminação, figurino, trilha sonora e projeções que complementam a narrativa. Betti descreve a proporção de elementos que compõem o espetáculo: "Minha peça é 50% humor, 25% poesia e 25% drama". Essa combinação cria uma experiência que alterna momentos de leveza com reflexões profundas sobre a vida.
Após décadas interpretando personagens de outros, Betti enfrenta um desafio único ao representar a si mesmo. "É uma delicia, ao mesmo tempo é doloroso, não tenho uma personagem para me esconder, se bem que os personagens mais nos revelam que escondem. Talvez representando a mim mesmo eu esteja mais escondido que nunca", reflete o ator sobre essa experiência.
Segundo ele, a plateia responde intensamente a essa vulnerabilidade. "Antes de começar acho que vou morrer, que não vou conseguir. Quando acaba me sinto recarregado. É doloroso receber em cena meus pais e avós, reviver tantas lembranças mas, ao mesmo tempo é uma delícia, um prazer um privilégio poder contar minha história de vida", descreve.
"Quero que o público se transporte, que as palavras e a imagens façam com que participem da minha história e, ao mesmo tempo, recriem as suas próprias", comenta Betti sobre a proposta do espetáulo.
Além da apresentação teatral, Paulo Betti oferecerá workshops de interpretação para teatro e TV nos mesmos locais, sempre a partir das 14h30. Os encontros são direcionados para artistas e aspirantes das artes cênicas e abordam a relação entre o ator e a câmera ou o palco, suas implicações na interpretação, na relação com o espaço, corpo, voz, imagem e verdade cênica. Todas as apresentações contarão com sessão acessível com intérprete em Libras, garantindo acesso amplo ao conteúdo para o público portador de deficiência auditiva. A primeira edição do "De Carona com a Cultura", projeto cultural da Transpetro, em 2025, passou por sete cidades do interior de São Paulo e quatro do Rio Grande do Sul entre agosto e setembro, com ingressos que se esgotaram em 72 horas em algumas localidades.
A turnê de 2026 terá apresentações em São José dos Campos (19/6), São Bernardo do Campo (21/6), Santo André (22/6), Valinhos (23/6), Uberaba (26/6), Uberlândia (27/6), Senador Canedo (28/6), Bonfinópolis (29/6), Alexânia (30/6), Brasília (9/7) e Santo Antônio do Descoberto (10/7). Todas as apresentações começam às 20h. Informações sobre ingressos e detalhes adicionais estão disponíveis no site www.decaronacomacultura.com.br e nos locais de apresentação.
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