Teatro

Reflexão sobre afetos e padrões de gênero

Homero Ligere atua em monólogo sobre vulnerabilidades masculinas com temporada a partir do dia 3 no Teatro Gláucio Gill

Reflexão sobre afetos e padrões de gênero
Homero Ligere em 'Primeira Pessoa', texto que mostra como homens foram educados a esconder sentimentos Crédito: Mozart Cattapam/Divulgação

O ator Homero Ligere sobe ao palco do Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, no próximo dia 3 para apresentar "Primeira Pessoa", solo que mergulha nas fraturas emocionais da masculinidade contemporânea. Escrito por Ligere em parceria com Wagner D'Avilla e dirigido por Renata Mizrahi e Guilherme Scarpa, o espetáculo propõe uma conversa íntima sobre vulnerabilidade, afeto e os paradigmas que moldam o universo masculino — temas relevantes em contexto de crescente debate sobre masculinidade tóxica e saúde mental.

A peça percorre diferentes etapas da vida de um homem, revisitando sua infância e adolescência nas décadas de 1980 e 90, período em que práticas como bullying eram normalizadas e frequentemente invisibilizadas. O texto trabalha com a ideia de que muitos homens foram educados para suprimir sentimentos e endurecer emoções, criando uma barreira entre o sujeito e sua própria vulnerabilidade. "Essa peça fala sobre homens que foram ensinados a esconder sentimentos e endurecer emoções. Quisemos abrir espaço para falar de afeto, receios e fragilidade", explica Homero Ligere.

Wagner D'Avilla, coautor do texto, enfatiza a dimensão de acolhimento que perpassa a narrativa. "O que mais me interessa nessa história é justamente a delicadeza com que revisitamos esse lugar escuro. Esse lugar assustador onde, muitas vezes, a gente acredita que não existe saída. E talvez exista algo profundamente libertador nisso: perceber que nem tudo precisa ser resolvido para, finalmente, ser acolhido", afirma. A fala aponta para uma abordagem que não busca resolver ou "curar" a masculinidade, mas reconhecer suas fraturas como parte legítima da experiência humana.

A direção de Renata Mizrahi e Guilherme Scarpa opta por uma linguagem intimista, evitando discursos fechados ou fórmulas prontas. Scarpa destaca que o espetáculo chega aos palcos para "dar voz, corpo e redenção" a quem foi silenciado e obrigado a se enquadrar em padrões arcaicos. A proposta dialoga com um movimento mais amplo no teatro contemporâneo de revisitar narrativas de gênero a partir de perspectivas que questionam estruturas tradicionais.

"Primeira Pessoa" convida o espectador a um diálogo silencioso sobre temas que raramente ganham espaço em conversas públicas. A montagem chega em um momento em que discussões sobre saúde mental masculina, paternidade ativa e expressão emocional ganham força em diferentes esferas da sociedade — do cinema ao jornalismo, passando por movimentos sociais.

A temporada segue até 24 de junho, com apresentações todas as quartas-feiras às 20h. O espetáculo é indicado para maiores de 14 anos.

SERVIÇO

PRIMEIRA PESSOA

Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde s/n° - Copacabana)

De 3 a 24/6, às quartas-feiras (20h)

Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia)